domingo, 6 de maio de 2012

As florestas: modelos complexos de organização, sobrevivência e uso do espaço.

Ao penetrarmos numa floresta é comum sentir uma sensação de algo um tanto estranho aos nossos olhos tão acostumados com as linhas retas do concreto e o preto das impermeabilizações betuminosas. As florestas nos dão a sensação de paz e a presença de energias suaves que nos convidam à meditação e à aproximação com o sagrado. O ar úmido e ameno não nos lembra o ambiente das avenidas movimentadas e o barulho de conversa alta ou aos gritos, para chamar a atenção de algo supérfluo e dispensável. Na floresta o silêncio é uma questão de sobrevivência. Cada canto, cada som e cada ruído, têm um significado e uma mensagem para quem possa percebê-los. As cidades também são cheias de ruídos, muitos sons, numa parafernália que se apresenta como organizada, mas que retrata uma desesperada necessidade de convencimento de que algo é indispensável a sua vida. Nas florestas não existem apelos. Os nascimentos e as mortes ocorrem de modo imperceptível, fora alguns gemidos, com o mínimo de alardes nesses acontecimentos tão especiais. Nas cidades temos lugares para nascer e para morrer, chamados de maternidades e cemitérios. Não existem cemitérios em lugares especiais nas florestas. O conceito de cemitério é do homem. Com epitáfios e monumentos, ou apenas envolvido num pano barato, acomodado num buraco raso, com ou sem lágrimas. Nascer e morrer numa floresta é reciclar matéria e fazer fluir a energia, sem grandes sentimentos. Alguns insetos sociais possuem comportamentos semelhantes aos dos homens, como as formigas, em suas cidades de barro, com túneis escavados, depósitos de alimentos, ventilação etc. Muitas coisas nós poderíamos aprender com elas. Quando se movem, parece haver um maestro invisível que comanda a todos, sem erros. Não há lixo nos caminhos. Os resíduos são todos imediatamente tratados para o bem-estar de todos, como uma necessidade urgente. Algumas cidades possuem também seus sistemas sanitários, mas nem todos são tão eficientes. Do ponto de vista social somos um tanto diferentes das formigas e de outros animais porque lidamos com questões morais. Por exemplo, nossa cultura nos impregnou com a idéia de que urina e fezes são abomináveis, causam mau cheiro, não são agradáveis de ver. Os animais às vezes também urinam em determinados locais, mas não se preocupam com atentados ao pudor. Esvaziam suas bexigas por razões gravitacionais e fisiológicas como nós, e todos aqueles nutrientes serão logo usados por outros seres menores, como alimento. Dejetos são alimentos! Criam novas vidas. São verdadeiras dádivas divinas nas florestas, que alimentam milhões de decompositores que não vemos. Nas cidades os dejetos são repudiados. Mas já temos alguns humanos que aproveitam esses resíduos pastosos para produzir gás e como fertilizantes naturais. A floresta faz isso há milhões de anos. Nós é que não valorizamos tais soluções. Intitulamo-nos civilizados e inovadores, mas apenas copiamos o que outras criaturas “insignificantes” já sabem fazer com sucesso absoluto. Mas como explicar ao nosso ego que somos frágeis e ignorantes? Que somos apenas copiadores imperfeitos e envaidecidos? Da Vinci já sabia disso. O gênio foi um imitador perfeito da natureza, ela sim, a verdadeira fonte de soluções e modelos para nos ensinar o que fazer e como resolver situações que afligem a nossa espécie.  Nas florestas ninguém é superior a ninguém. Todos possuem as mesmas chances para serem convidados a fazer parte da “festa da natureza”. Cada um tem seu espaço e sabe o que fazer nele. Respeita o outro. Pode até mesmo matá-lo, mas não existe nisso nenhuma maldade, nem crime, nem ódio ou desavença guardada. As florestas são lugares sagrados e todas as suas criaturas são deuses. A floresta funciona como uma orquestra de milhões de músicos, cada um tocando um instrumento diferente, ao mesmo tempo; mas ninguém se perde e segue uma pauta invisível, sem desafinar. Quem sabe possamos ser, num futuro próximo, uma grande orquestra e esquecer de uma vez por todas as cidades desumanas e caóticas? Menos prédios e mais educação? É uma questão de ferragens, concretos e cálculos ou de relacionamentos entre seres? Onde erramos? As florestas se renovam automaticamente se não houver interferência humana. Nas cidades os prédios antigos começam a desabar e terão que ser demolidos e substituídos, mais cedo ou mais tarde. Em pleno século XXI estamos nós ainda repetindo modelos comprovadamente obsoletos. Que modelos seguir para as novas cidades? Se perdermos as florestas nós não vamos perder apenas árvores. Vamos destruir um dos mais perfeitos modelos de convivência complexa e organizada da Terra. Uma verdadeira escola de sobrevivência no caos. Não existe preço para esse conhecimento acumulado por tanto tempo, tão vitorioso. Mas nós mal conseguimos ver uma árvore, um bicho, um rio. E quando vemos, não entendemos o que está por trás de tudo isso. E meio perdidos, vamos seguindo o brilho das luzes ofuscantes que as máquinas pipocam nos nossos rostos. Os sons que rebentam os nossos tímpanos e as drogas que confundem as nossas mentes e deturpam os cheiros. E assim, deixamos de ver as estrelas com suas luzes distantes e cintilantes; não sentimos mais o perfume da floresta, e vagamos ansiosos em busca do poder e do ter. Precisamos resgatar esses caminhos naturais e nos voltar mais para nós mesmos, mas não num sentido exclusivamente egoísta. É uma questão de perceber e reconhecer que somos a própria natureza em movimento. E assim sendo, podemos nos comportar como ela, em busca da harmonia e dos ajustes necessários. Se a natureza é obra de Deus e nós somos também natureza, nada nos impede de sermos quase divinos, quase bondosos, quase amorosos, quase justos, quase éticos, e quase qualquer coisa. Na impossibilidade de sermos absolutamente perfeitos, por causa da nossa essência humana, vamos galgando nossa montanha de sonhos, evoluindo nessa caminhada, em busca desse topo ideal. Mas como diz a frase: para caminhar é preciso dar o primeiro passo... E você, onde está nesta montanha?   

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Dos avanços do espírito e da necessidade de um equilíbrio materialista


Colaborador Roberto Rocha

 O método científico trouxe para a humanidade uma nova maneira de ler e de tentar compreender o mundo e a nós mesmos. Veio apresentar a ilusão das certezas comprovadas experimentalmente, substituindo imaginações sobrenaturais. O próprio nome imaginação nos lembra ”imagens” ou “coisas que construímos com o pensamento”, mas que nem sempre temos provas contundentes de sua real existência. Na experimentação essas dúvidas precisam ser dissecadas e compreendidas para que não inviabilizem o próprio método. Ao se permitir que algo ou uma teoria possa ser “demonstrada”, “várias vezes”, “sempre com os mesmos resultados”, o que se pretende é reafirmar que existe uma coerência na idéia inicial e que ela pode também ser percebida em outros campos, e não somente engendrada em nossas conjecturas particulares. Num mundo de percepções rápidas e diversificadas como esse do início do século XXI, às vezes, nem sempre é fácil, concentrar as nossas atenções em temas mais “espiritualizados”, e persistir nele, porque os deslumbramentos e apelos fortes nos levam para o mundo das impressões efêmeras e passageiras. A ciência e seus métodos nos mostraram a importância da observação, e ela mesma nos concedeu a capacidade de construir máquinas mirabolantes que nos dão a sensação de um poder muito além de nossa capacidade natural e simples de sentir o mundo e seus elementos. Nosso cérebro parece gostar de desafios e novidades; e tanto mais, quando fogem dos parâmetros regulares e seguros que o bom senso recomenda. Com alguns ou muitos riscos, enveredamos em campos estranhos e espaços escuros, desconhecidos, buscando o novo e as surpresas inesperadas. Gostamos de nos surpreender a cada momento, e isso, parece reforçar a certeza de que estamos vivos e atuantes, o que parece razoável. No entanto, também podemos extrapolar esses desejos e aventuras, causando tristezas e mortes a muitos, o que também não parece ser sensato e nem eticamente correto. Resta-nos uma reflexão profunda sobre esse caminho que tomamos como Norte. Saber se devemos seguir realmente em frente, ou ainda, se não será melhor refazer a trajetória ao contrário, e buscar nossas raízes abandonadas onde estão as verdadeiras fontes da eterna procura humana pela felicidade. Quanto mais rapidamente caminharmos para diante, sem maiores reflexões, mas dolorosa será a senda do resgate. Fora isso, devemos também desconfiar se a negação dessa possibilidade pode estar patologicamente associada a algum tipo de desvio comportamental global da criatura humana, certamente injusto e insano. Quem sabe a solução para todos esses dilemas seja um maior investimento na nossa própria espiritualização, tão ausente e distante das nossas conversas rotineiras, direcionadas para os lucros e perdas materiais, dissociadas do sagrado e das luzes que iluminam outros caminhos que não esses tão fugazes e tão passageiros?...                

sexta-feira, 23 de março de 2012

Rio +: um mundo mais verde, mais cooperativo e mais fraterno.


 Colaborador: Roberto Rocha

Estamos no meio de uma tempestade global, de revoltas ondas, ventos fortes, frio intenso, tsunamis e furacões.  Multiplicamos as simplificações ecológicas extensas e monoculturais. Insistimos em replicar nosso DNA econômico e injusto, centrado no lucro rápido e imediato, favorecendo a poucos em meio a muitos. Usamos a antiga retórica para convencimentos estudados, acreditando que a ética pode transgredir, volta e meia, dependendo da situação e do momento. Enquanto a água rareia, e os oceanos são esvaziados em seus estoques biológicos, as aves já não têm mais onde pousar. As bactérias agro-intoxicadas pelo solo, se retorcem, agonizando entre cadáveres semi-decompostos; retendo nutrientes que deveriam retornar em novos corpos vivos da superfície, para manter a necessária e insubstituível homeostase. Mas quem se importa com sistemas complexos? Simplificar, eis a questão! Exatamente num mundo que sempre funcionou com base na complexificação, muito antes de existirmos como espécie pensante. Vivemos uma situação paradoxal, convictos que estamos cientificamente corretos, até que nos provem o contrário. Provar o quê? Que nossa água está ameaçada? Que nossos rios estão secando? Que as florestas estão sendo exterminadas? Que a futilidade artística é incentivada pela raridade de inspirações espiritualizadas? Que a miséria ainda existe em boa parte do mundo, escondida nas sombras da indiferença? Entre peles magras, ossos pontudos, moscas insistentes e olhares tristes, uma parte do mundo agoniza! No mundo econômico, os dígitos também sofrem suas baixas e ameaçam a economia global com desemprego e desesperança. Antes, éramos ameaçados por guerras frias e mundiais, exterminadoras de pessoas e cidades. Mas hoje não precisamos mais de “ameaças” porque “os fatos já são reais”! Quem duvida que a biodiversidade da Terra esteja sendo reduzida drasticamente? Só as pessoas desinformadas não sabem disso!  E o mundo tenta acabar com o analfabetismo reinante, até 2015, conforme consta dos Objetivos do Milênio. Pregamos o “desenvolvimento”, mas não conseguimos, nem mesmo, a garantia de que o cérebro mais evoluído do planeta possa se manifestar em todas as suas potencialidades, universalmente!  E o que falar das garantias de manifestação biológica das criaturas ditas “incivilizadas”? Boa parte dos grandes vertebrados que ainda vive entre nós, estará extinta até 2050! Estamos descobrindo espécies novas e, ao mesmo tempo, estamos reconhecendo que elas terão um futuro sombrio. Somos o único ser terrestre que, apesar de ser constituído totalmente de elementos biológicos, deseja - cada vez mais – estar mergulhado num mundo artificial, fictício e deslumbrante, com suas cores distorcidas e inebriantes. Será esse mesmo o futuro que queremos? Queremos para quem? Vamos continuar apostando no modelo deletério do século XX?  A Agenda 21 foi apenas “uma proposta” ou um compromisso? Quanto realmente nós progredimos?  Ou será que vamos nos reunir, mais uma vez, para propor uma Agenda 22?

sexta-feira, 2 de março de 2012

Estocolmo, Rio 92, Rio + 10, Rio + 20, Rio...


Colaborador Roberto Rocha

Vamos nos reunir outra vez. Exatamente quando o mundo passa por alguns desafios e enfrentamentos. Será que estamos numa encruzilhada para definir enfim que rumo tomar? Ou ainda estamos indecisos? Os temas selecionados para a Rio+20 não estão ali por acaso. Eles refletem e apresentam uma série de eventos que acumulamos nos últimos séculos, sob a argumentação de que seríamos mais felizes e mais realizados. Não é isso que desejamos? Ou não é?  A pergunta óbvia: desde a Revolução Industrial até hoje, nós realmente conseguimos ser mais felizes e mais realizados? Fomos acumulando uma série de vitórias através da união dos povos? Produzimos alimentos cada vez mais saudáveis e livres de drogas químicas tóxicas, desde a descoberta da agricultura e da pecuária? O que temos feito com a água? Ela tem sido uma dádiva dos céus repartida por todos os povos da Terra? Abundante, límpida, sem impurezas que afetem qualquer criatura, mesmo as mais sensíveis? Como temos nos apropriado da energia do Sol? Demos prioridade apenas àquelas "guardadas" nos depósitos fósseis? Ou temos fontes alternativas limpas e seguras?  Produzimos de forma a sustentar os serviços dos ecossistemas sem que eles sejam comprometidos para que continuem a nos oferecer - de graça - tudo que precisamos? A conservação da biodiversidade da Terra - base para que os serviços ambientais sejam saudáveis - é sempre uma prioridade em qualquer país do mundo?  Neutralizamos ou damos destino adequado, a todos os resíduos tóxicos e despejos que produzimos? Os principais postos de trabalho do paiz estão concentrados em setores onde as pessoas (a grande maioria, ressalte-se), mesmo não possuindo pós-graduação, consegue viver feliz e realizada? Homens e mulheres têm os mesmos direitos? Tratamos o solo que usamos para as nossas atividades como algo sagrado e fundamental para as futuras gerações? Ou somos "indutores de desertos"? As matas ciliares, que protegem as margens dos rios, são nossas aliadas ou nossas inimigas? Nossas cidades são planejadas de modo equilibrado, com base em inovações e soluções naturais, para que atendam a "todas" as classes socias com o mesmo nível de qualidade? Devolvemos para os oceanos e mares a água doce limpa que ele nos envia através das nuvens? Ou tratamos os oceanos com descaso e indiferença, mesmo que ele nos ofereça serviços de produção de oxigênio, lazer, transporte, alimento e tantos outros?  Nossos investimentos são no sentido de construir um mundo de harmonia, através da educação? Ou cultivamos a guerra e a insegurança como mecanismos de controle? Enfim: vamos ter mais uma chance. O mundo terá mais uma oportunidade. Outra vez vamos ouvir propostas e promessas. A questão é que o tempo está passando. A primeira reunião foi em 1972 em Estocolmo. Depois veio a série Rio: Rio 92,  Rio + 10 (2010, em Johhanesburgo) e agora, 2020, outra vez no Rio. Por que não fizemos o "trabalho de casa" mundialmente falando? Ou fizemos mal? E se não fizemos, quem nos alertou para nossa negligência global? Quem nos corrigiu? A maioria da população sabe o que seja a Rio + 20? Está preocupada com isso? Você - que está lendo este texto - sabia que os temas que estão colocados aqui, são os temas que vão se discutidos na Rio + 20? Voce acha que eles são importantes? Sua profissão ou atividade pode contribuir para que esse problemas sejam sanados? Em caso positivo, participe de alguma forma. A falta de participação tem feito com que as metas propostas estejam muito aquém do que foi pretendido alcançar. Pelo não cumprimento dos termos ou insuficiente participação de cada país, cada estado, cada município e cada cidadão, continuaremos a série Rio +  com as mesmas "choradeiras", as mesmas lamentações, as mesmas desculpas, as mesmas promessas. O que virá então? Rio + 25? Rio + 30? Rio + 50? Rio + 100? Só o tempo dirá! Quem sabe, os nossos netos e bisnetos,  possam escrever novos artigos falando do mesmo assunto, mas dessa vez, referindo-se a um momento histórico, do passado, que foi devidamente corrigido? Que eles possam contar o quanto fomos irresponsáveis e como é que conseguimos "dar a volta por cima" através da harmonia, da cooperação e do amor entre os povos e entre as pessoas. Pode ser um sonho! Mas dos sonhos podemos partir para as realizações e com as realizações coerentes, poderemos ser, finalmente, mais felizes e realizados.















sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Os idosos e o tempo


Colaborador: Roberto Rocha

A preocupação com o tempo sempre esteve presente em nossas vidas. Usamos os segundos, os minutos, as horas, os dias, os anos, etc. Tudo perfeitamente convencionado. Se é uma convenção humana, certamente é falha, mesmo com toda a tecnologia atual. Não sabemos tudo. Justamente por isso, não devemos afirmar que o que fazemos está exatamente correto. Essa limitação se mantém através de um sistema que privilegia a sua aplicação para atender os nossos interesses mais urgentes: estou atrasado! Tenho uma reunião às 10! A barca sai às duas horas! Você chegou cedo demais! Estou ficando velho! E assim vai. O tempo para os neonatos é uma "mamada" e a boca cheia de leite!. O tempo para os infantes é explorar o entorno, um tanto  inseguro, mas sabendo que pode correr para os braços da mamãe se algo for muito "assustador"! O tempo para os jovens, é lidar com seus hormônios em meio a uma série de dúvidas em relação ao futuro. Os adultos esperam do tempo alguma recompensa mais duradoura. Os idosos já se acostumaram com o tempo e não guardam tantos sonhos mirabolantes, e procuram estabelecer na vida, um padrão compatível com as suas estruturas físicas, psicológicas e econômicas. Mas o tempo também passa para as plantas, para os animais, para os rios, para os lagos, para as cidades, para os prédios. A diferença está em que, nos humanos, existe uma percepção mais imediata dos sinais e sintomas do tempo. Mas como avaliar e interferir nos sintomas do envelhecimento das cidades? Quando passo pelo centro do Rio de Janeiro, vejo algumas datas nos topos dos prédios, muitas delas, do inicio do século XX. Mas que diabo! Já estamos no século XXI! Como tudo passou tão rápido? Já sou "sênior"! Os prédios deveriam ter também  uma carteira de "idoso", devidamente cadastrados e mapeados na cidade. Onde será que eles são mais comuns? Com que material foram construídos? Será que a assistência deles é igual a dos idosos humanos? São respeitados? Fazem exames periódicos com seus especialistas? Recebem assistência de qualidade? Fazem plástica? Tiram os excessos e corrigem as cicatrizes? Quantos "predidosos" você já viu pela cidade? Será que eles sofrem de osteoporose? Ficam com suas estruturas frágeis e corroídas? Tomam cálcio e vitaminada D3 profilaticamente? É verdade que os idosos estão cada vez mais bem atendidos. O Brasil será, dentro em breve, um país de idosos. Mas não somente de idosos humanos. Será um país de prédios antigos, a maioria nas grandes cidades, sem grande histórias, diferentemente do que aconteceu na Europa. Não foram construídos na Idade Antiga ou na Idade Média. São "velhinhos" quase contemporâneos, ilustres desconhecidos! Embora sejamos um país europeizado por excelência, guardamos também raízes africanas exóticas, com influencias em nossas danças, comidas, vocabulário, etc. Nossos indígenas também não faziam construções para durar um século. Os humanos da pré-histórias viviam muito pouco. Apenas o tempo para reproduzirem e criarem alguns descendentes. Suas construções eram também de pouca duração. Com as novas tecnologias aprendemos a viver mais: nós e os prédios. No entanto, sem prevenção, estaremos todos vulneráveis. Nós, os "humanidosos" e também os  "predidosos". Já não consigo pular como no passado. As estruturas estão afetadas. Com algum trato ainda posso "durar" um pouco mais. E o que dizer das construções que já têm mais de 100 anos? Os prédios são muito semelhantes aos humanos. Eu ainda não tinha percebido isso! Mas repare só: um prédio com oitenta anos e um idoso com a mesma idade? Vejam os neonatos, infantes e jovens prédios "crescendo" no meio dos adultos e dos antigos! Será que têm algo a aprender? O que fazer com os prédios que vão morrer? Terão um enterro digno? Algum epitáfio marcante? Serão reconhecidos? Eles, os prédios;  e nós, os humanos. Quem sabe uma estátua de material sem valor econômico? Com o tempo, o que restará serão apenas registros fotográficos, em algum álbum de família ou museu histórico. E aquele clássico comentário esse "austero bigodudo" aqui, era o seu bisavô! Essa mulher "recatada", era a sua bisavó! O que dizer dos prédios "austeros" e das construções "recatadas"? Ao observar as obras de arte dos prédios antigos e os tijolos unidos com óleo de baleia, não deixo de sentir alguma nostalgia. O aço especial talvez não venha a sofrer tanto com a corrosão interna. Não precisamos mais, matar baleias para iluminar as cidades e construir novas edificações. No entanto, fica a preocupação: o que fazer com os "predidosos"? Que solução mágica - seja ela de qualquer cor - fará retornar o "brilho" nos olhos, do passado? A sensação de poder? A sultuosidade? Quando vejo um "velhinho" abandonado, lembro dos prédios que foram "esquecidos". Que histórias viveram? O que teriam para contar? Quem os substituirá? O tempo dirá...

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Aquecimento global e desastrologia: a ficha ainda não caiu !


Colaborador: Roberto Rocha

Começou a esquentar outra vez. No entanto, ao contrário do aquecimento global, a discussão na África do Sul foi chuva muito fina. Novas promessas de que as promessas anteriores serão revistas para que novas promessas sejam feitas. A grana não caiu! Enquanto isso, em Belo Horizonte, choveu em cinco horas o que era esperado para cinco dias. E tome inundação, e tome desabamentos, e tome desabrigados. Já está ficando cansativo ficar falando das mesmas coisas no verão. E a casa caiu!  A vitivinicultura tomou uma série de pedradas geladas no Rio Grande do Sul e os prejuízos são relevantes. O gelo caiu! As estruturas metálicas de galpões no Brasil terão que ser recalculadas para resistirem a maiores pesos em telhados e ventos mais fortes. Quem não acreditar, vai pagar para ver. E o teto caiu! As áreas de risco já não são mais de risco, são de certezas claramente anunciadas. E a encosta caiu! Ninguém aguenta cair tantas vezes! Ou será que aguenta! Lembro bem que há alguns anos falava da necessidade de estudar "desastrologia" e algumas pessoas me perguntavam: o que é isso? Falava que a Defesa Civil tinha 118 símbolos que deveriam ser conhecidos nas escolas, e as pessoas falavam: as crianças precisam é de comida e de diversão: "não devemos ficar falando de desgraças climáticas para alguém que mal começou a vida". Realmente, as consequencias das mudanças do clima já não são apenas comentadas: elas estão acontecendo na nossa cara!. E a ficha ainda não caiu. No ano que vem teremos a Rio+20.  Posso parecer um tanto pessimista,  mas as notícias estão aí ! Os fatos estão aí! O que falta para se levar em consideração que temos sim que valorizar e preservar o funcionamentos dos ecossistemas ?. Precisamos falar muito de "serviços ambientais". Mas não aqueles pagos por empresas que prestam serviços !  O ar mais quente anuncia que os insetos ficarão mais agitados. Vão se reproduzir com maior rapidez. Suas larvas também. Algumas doenças  aumentam suas incidências nos períodos mais quentes. Por enquanto, estamos falando de dengue. Escorpiões e aranhas estão em alerta.  Cupins e formigas também. Bactérias e virus ficam mais agitados. Uma coisa devemos aprender: a Natureza não aceita dinheiro, mas cobra caro...

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Violadores de túmulos e comedores de cadáveres?



Colaborador: Roberto Rocha

Estava refletindo sobre o modo de lidar com os mortos humanos. Ainda me lembro dos "enterros" na minha infância, quando o defunto era velado - cercado de velas - numa mesa central, na sala principal da casa, com as pessoas encostadas nas paredes, sentadas nas cadeiras, espalhadas  aqui e ali, entre comentários diversos, silêncios e lágrimas. Água com açúcar para acalmar alguém, afagos, olhares compreensivos. Se o morto era do tipo "divertido", não raro, rolava até um certo clima de alegria. Na hora devida, parentes e amigos mais íntimos seguravam as alças do féretro, que seguia pela rua principal em direção ao cemitério local. Comerciantes baixavam suas portas pela metade, em sinal de respeito, enquanto outros tiravam o chapéu. Pelo caminho, uma verdadeira procissão ia se formando, dependendo do "prestígio" do falecido. Capela, flores, encontros antigos - alguns não muito amigáveis - olhares desencontrados, passagens vividas, elogios, críticas disfarçadas, orações, discursos, desmaios.  Hora da despedida: mais lágrimas e ambiente tenso na hora do fechamento. Coroas e  saudades dos amigos; a caminhada silenciosa, e a cova aberta. O pó branco da paz e as pétalas de rosas. Mais lágrimas e ambiente mais tenso ainda. A percepção derradeira da perda e do que realmente somos: frágeis criaturas com prazo de validade mais ou menos conhecido. Cordas, tampa, cimento e a eternidade.  Alguns anotam o número da sepultura por diversos motivos,,,

Enquanto estava pensativo, na frente da TV, eis que um repórter anuncia um sério acidente ocorrido no mar. Uma imensa mancha de cor metálica é mostrada, com seu brilho fúnebre e pegajoso. De onde veio? Como chegou até ali? Para onde será que vai? De quem suspeitar? Após algum tempo, uma autoridade local faz a sua declaração oficial: estávamos diante de restos de milhões de defuntos que haviam sido sepultados num passado distante! Desconsiderando o seu direito de descançar eternamente em seus bolsões geológicos, alguém resolveu enterrar algumas agulhas na pele de Gaia para retirar seu sangue negro adormecido. Estamos abrindo caixões lacrados por muitos séculos. Incomodando quem já tinha cumprido sua missão. Despertando quem não desejava acordar mais. Quem não queria estar entre nós, outra vez. E agora? O que fazer com esses mortos tão antigos? Sem ossos, sem fibras! Eles não foram enterrados sem motivos! Não deveriam sair de lá. Alguma razão deve existir para que tenham sido guardados tão profundamente. Por que desrespeitar tal destino? Se violar túmulos é um sacrilégio, o que se dirá de revolver milhões de defuntos, de uma só vez? Para que finalidade? Lucrar com eles? Será que devemos negociar corpos alheios? Acho que não deveríamos vender o corpo de nenhum morto, mesmo que ele não seja humano. Mas voce poderá contestar: mas o que são os frutos  e legumes que comemos todos os dias, senão mortos? Eu lhe responderia: mas as sementes estão vivas! E voce pode insistir: mas nós comemos carne vermelha morta! Comemos peixes mortos! Comemos frangos mortos! Finalmente vou concordar: somos comedores de cadáveres alheios! Não comemos coisas "podres", mas comemos cadáveres frescos de toda espécie. Nossa cultura sempre dá um jeito de transformar coisas desagradáveis em eventos especiais - quando interessa. Um esplendoroso jantar! Arte gastronômica! Pratos deliciosos! Tudo bem, tudo bem! Afinal não vou deixar de saborear meus cadáveres prediletos - de vegetais ou de animais -  por causa de um artigo desconcertante. Também não pretendo ser um violador de túmulos, por usar a energia de quem já morreu para "alimentar" meu carro. Nos ensinaram a respeitar apenas os cadáveres de humanos.  Algumas sociedades rezam antes de comer um alimento ou parte dele (cadáver), seu sustento.  Nossa cultura não valoriza este tipo de consideração. Muitas vezes nem sabemos o que estamos comendo realmente. Ficamos sentados olhando para a TV num restaurante, ou falando de negócios, problemas de família, criticando colegas ou o chefe, contando decepções e  tantos outros temas. Os mais sábios falam de coisas agradáveis, viagens, casos amorosos excitantes, novos empregos. A última coisa que estamos concentrados é nos cadáveres que deram os seus corpos para a nossa vida. Nós não os identificamos como tal.  Foram rotulados como "alimentos". Dá próxima vez que for comer alguma coisa, pense que "alguém" está doando para voce uma parte dele ou toda a sua vida. Se puder, agradeça-lhe! Faça da refeição um ato sagrado. Afinal voce também será cadáver um dia. E vai gostar  que alguém o valorize - entre amigos, antes que seja um excelente repasto para bactérias  e um incrível mundo de "degustadores" desconhecidos...