sábado, 1 de janeiro de 2011

Áreas protegidas : bancos genéticos como solução imediata para a recuperação da insensata devastação florestal brasileira


Colaborador Roberto Rocha

Desde que li o livro “A ferro e fogo” (Companhia das Letras, 1996) de Warren Dean, professor de história na Universidade de Nova York - falecido em 1994 num trágico acidente em Santiago do Chile – tive certeza de que realmente fomos insensatos quando devastamos, durante séculos, a nossa rica biodiversidade brasileira. A epígrafe do livro traduz bem esse clima: “Quem vier depois, que se arranje”. Estimulados e convencidos de que “arrasar” a mata era a solução mais rápida de fazer dinheiro, nos esquecemos que estávamos num país tropical, onde não existe gelo e ameaças de fome, durante meses críticos. Uma bacia hidrográfica pululante de vida aquática, um litoral interminável de frente para um incomensurável oceano, terras ricas protegidas por uma megadiversidade invejável, jamais reconheceriam um ser desnutrido ou infeliz. A robustez de nossos índios “selvagens” atestam a riqueza da terra. A estratégia européia de plantar e colher, com suas próprias mãos, quase tudo de que necessita, não se parece com a milenar cultura de coleta natural de tudo que a floresta oferece sem qualquer custo adicional. Esse equívoco ecológico centenário nos transformou num dos mais vorazes predadores de florestas da atualidade seculovinteana. Hoje, em pleno século XXI, algumas pequenas luzes começam a reconhecer a importância econômica dos serviços dos ecossistemas.

Já afirmamos, por diversas vezes, a ponto de nos tornarmos repetitivos, que não se trata apenas de questões ecológicas e sentimentais que estão sempre envolvidas nesses embates. É sim, pura necessidade de bem-estar material e mental para as futuras gerações. Não é um cenário para as gerações de idosos da atualidade porque muitos deles não verão os frutos das mudas e sementes que estão sendo plantadas hoje, mas seus netos poderão conhecê-las. Eu, que fui avô recentemente, fico imaginando: quando será que minha neta poderá admirar uma frondosa castanheira ou um jequitibá esplendoroso, plantados agora, ainda de muda ou de semente?. Quantos anos se passarão - para que como ela -, cresçam fortes e cumpram o seu papel no mundo?

Um dos passos nesse sentido é a recuperação de áreas degradadas das margens dos rios, onde viceja a mata ciliar. Essas áreas específicas evitam a perda de solo e “cuidam” da qualidade e da quantidade de água a ser usada de diversas formas. Interferem numa infinidade de processos físicos, químicos e biológicos que nos trazem satisfações e confortos e garantem que os ecossistemas possam funcionar perfeitamente.

A percepção da importância desses serviços ambientais da natureza pode permitir que a própria tecnologia que dissemina as monoculturas, se volte para corrigir seus erros e equívocos do passado, numa tentativa de convivência mais equilibrada, como manda o bom senso econômico. As cercas com arames não são investimentos “caros” para afastar o gado, como costumam dizer. É antes, interessante meio de “produzir” água, novas sementes, revigorar a fauna, enriquecer o solo, prevenir erosão, conter enchentes, entre outras. Trata-se de investir em ”água” – um grande negócio!. Sem água não há chances de criar nada! Mesmo que você tenha milhares de dólares, eles não farão retornar a água de uma hora para outra. Isso leva algum tempo. E como dizem os economistas: tempo é dinheiro! Então, se não desejarmos perder dinheiro com tempo perdido, devemos aproveitá-lo com algumas medidas que trarão de volta o dinheiro, futuramente.

As áreas protegidas do Brasil - como as áreas indígenas, reservas legais, áreas de preservação permanentes e unidades de conservação - são indispensáveis bancos genéticos de sementes que valem fortunas quando estão transformados em imponentes árvores, cumprindo cada uma os seus respectivos papéis ecológicos.

O papel das áreas indígenas é decisório nesse momento em que temos grandes áreas desmatadas por monocultura e pecuária, necessitando de recuperação no Brasil. Florestas são “fábricas de sementes e mudas” que o mercado está precisando. Os próprios índios serão empresários de suas próprias “reservas econômicas” fornecendo esse material para um mercado que vai crescer rapidamente nos próximos anos. Reservas legais, áreas de preservação permanentes e unidades de conservação podem se transformar em grandes negócios ecológicos, de aceitação pública imediata. Produzir mudas e sementes em hortos municipais, com recursos públicos, também é uma idéia antiga, mas que não existe como realidade na maioria dos milhares de municípios do Brasil. Assim como é possível fazer com o tratamento de resíduos sólidos em “consórcios”, é possível atuar em viveiros de produção de mudas unindo secretarias próximas de áreas protegidas. Vai ser preciso investir em capacitação de pessoal e gerar mais empregos nessa área, prestigiando as profissões envolvidas nesse trabalho. Mais do que um exemplo internacional – os jogos olímpicos estão bem próximos – poderemos construir um modelo de produção comprometido com uma visão que entende a necessidade da existência da complexificação ecológica como a verdadeira fonte lucrativa que alimenta os nossos processos históricos de economia, baseados numa simplificação pragmática e exclusivista.

Perdas e danos: quanto valem os serviços ambientais da Terra?


Colaborador Roberto Rocha


O vazamento do Golfo do México – e quantos mais virão? – nos mostra o quanto somos tremendamente vulneráveis, numa realidade tecnológica bem intencionada, mas que - na prática - não apresenta o mesmo excelente desempenho de suas prospecções e na resolução de seus enfrentamentos mais graves. Afinal, qual o valor da natureza? Voltamos à antiga pergunta que sempre fizemos: quanto vale um mangangá? Aquele inseto polinizador - como tantos outros – que voam de flor em flor, para garantir uma colheita farta de alimentos que ocupam nossas mesas na forma de grãos, doces, sucos, refrescos ou simplesmente ao natural? Não sabemos, ou não queremos discutir essas questões subjetivas e complexas?. Qual o preço do metro quadrado de um manguezal poluído? Você sabe? Com certeza, não sabe. Nem eu! Mas sabemos quanto custa o metro quadrado imobiliário na zona sul de qualquer município! Por que não aplicamos cálculos para saber quanto valem os serviços ambientais da natureza? Poderíamos calcular a quantidade média de zooplâncton ou fitoplâncton por metro cúbico afetado! Depois calcularíamos a quantidade em peso vivo desses organismos em um ano, em dois anos, em três anos etc. Aplicaríamos o valor de mercado? Em reais? Em dólares? Em euros? E a depreciação? Por exemplo: uma larva de camarão “lixo” custaria o mesmo que um camarão VG? Além dos valores de cada espécie, deveríamos descontar a taxa de mortalidade media de cada uma delas e aplicaríamos um fator de correção?. Somaríamos a tudo isso os valores que esses organismos representam para a manutenção da cadeia alimentar dos ambientes marinhos e de águas doces, sem qualquer uso humano direto?. Acrescentaríamos ainda o valor desse pescado para as comunidades ribeirinhas e litorâneas que pescam “de graça” todos esses “recursos naturais”?. Valor ecológico-social? Questões turísticas estariam também envolvidas: gastronomia, pesca esportiva e todas as cadeias dependentes dessas atividades associadas aos frutos dos mares e rios. Difícil? As empresas seguradoras devem ter alguma resposta. Somos guiados por cálculos lineares que não funcionam em situações de redes complexas. Apresentamos soluções reducionistas para desafios sistêmicos. Isso é um absurdo! É inconcebível! O maior desafio é mudar o paradigma para se tentar apresentar soluções coerentes. A pergunta é: QUEM QUER MUDAR O PARADIGMA? QUEM PODE MUDÁ-LO? Que argumentos teríamos para tal propósito? Você tem alguma sugestão? A hegemonia pensante linear não nos deixa raciocinar de forma sistêmica! Você faz parte da rede tanto como a larva de camarão morta pelos impactos das atividades humanas! Dizem que somos uma espécie que pensa. Pensa o quê? Não estamos falando de “defender a natureza” – um posicionamento muito ingênuo! Estamos falando de economia pesada, de segurança alimentar, de grandes investimentos afetados por questões ecológicas. Por quanto tampo ainda vamos continuar a desconhecer o valor econômico dos serviços ambientais?

Novo caminho: homem como meio, ambiente como fim !


Colaborador Roberto Rocha

Temos apresentado alguns argumentos que colocam o homem como criatura secundária no Todo. Para tal, precisamos aceitar uma verdade: o ambiente é fim, e não meio. Devemos aceitar que  "não somos divinos sozinhos". É razoável sustentar que representamos criaturas especiais, pelo fato de podermos conceber a nós mesmos e aos "outros". Mas também,  não sabemos - exatamente - como esses "outros" nos percebem! Conjecturamos que sejam irracionais; que não pensam. Mas o que é pensar? O que é perceber-se? Qual a real utilidade dessas "definições"? O que tem sido o pensamento do homem? Até onde tem valido nossa apurada percepção diferenciada no sentido de nos transformar em criaturas melhores? Se somos especiais deveríamos ser algo bom e justo. E o que é ser bom e justo? Bom com quem. Justo, em que medida e para quem? É nesse momento que entra a observação. A contemplação no sentido de admiração da perfeição. Não é questão religiosa específica porque a própria religião parece seguir este mesmo caminho. Ele já existia antes: a percepção do Todo como algo inteligente, porém indecifrável... Na espiral do tempo e do conhecimento, já demos muitas voltas. Parece que, a cada dia, ela se alarga de modo ascendente, mas sempre de encurva e retorna, indefinidamente. 

Agora, uma grande revelação: não fomos nós que começados tudo isso! 

O homem - parecido com o que somos hoje - só apareceu no cenário terrestre há uns 250 mil anos. Outros hominídeos existiram antes dele. Mas qual seria o "objetivo" de estarmos aqui? Construir alguma coisa especial? Não sei dizer. No entanto, não acho que tenha sido para apenas destruir. Talvez, reinventar. É isso: somos reinventores de coisas divinas!. Eternos curiosos e insatisfeitos. Ou insatisfeitos curiosos. Juramos amar o mundo, mas fazemos coisas que não são amáveis com ele. Incorporamos a equivocada certeza de que "somos especiais". Que devemos transformar e dominar o planeta. Talvez, a questão não esteja no ímpeto da transformação ou do domínio, mas no seu objeto. Devemos dominar sim, o nosso orgulho. Devemos transformar sim, o nosso universo interior. O grande desafio para o século XXI é este. Teremos que reunir a todos. Não separar aquele que grita mais para aparecer, porque isso é discriminação. Melhor, estimular para que "todos" apareçam ao mesmo tempo. Que todos gritem quando for hora de gritar. Que todos silenciem quando for hora de silenciar, assim como fazem os animais. Não que haja alguém com uma batuta na mão a sinalizar o que fazer. Mas pela força de algo que vem de dentro e não depende de nenhuma orientação externa, radical, imposta. Que venha do coração! O tumulto contínuo em nossa volta não nos deixa observar e perceber coisas distantes, às vezes muito distantes, mas não menos importantes. Algumas estão tão distante que nos perdemos delas, e quase não as reconhecemos. Quanto mais rapidamente obtivermos esta compreensão, mais chances teremos de reconhecer o "outro" como irmão  de uma mesma família, mas não como um inimigo, e também, não necessariamente da nossa mesma espécie, perigoso, ameaçador, exaltado, excluído.

Fonte de imagem: Fundação Museu do Homem Americano. Piauí, Brasil.
Conheça. visite, prestigie: Disponível em: http://www.fumdham.org.br/

Buscando um planeta sustentável: a procura ingênua do que sempre existiu, antes mesmo da existência humana.

 Colaborador Roberto Rocha


Palmito juçara (Euterpe edulis)
    Reuniões e mais reuniões enchem as agendas nacionais e internacionais com compromissos para discutir temas que ainda carecem de conhecimentos básicos. Planejamentos em cima de dados biológicos ainda não perfeitamente coletados: não sabemos quantas espécies existem no planeta. E menos ainda: como elas se relacionam? Mas estamos falando de sustentabilidade! Tá certo! Pelo menos, estamos falando no assunto! Como também estamos falando de biodiversidade. Está virando moda!. O perigo é que as "modas" vivem mudando a cada estação. Compreender e praticar a sustentabilidade passa por reconhecer a supremacia e coerência de uma organização  que vem se sustentando há milhões e milhões de anos sem a nossa "boa intenção de ajudar". A discussão é muito antiga, de quando nós - Homo sapiens - estávamos ainda na forma de criaturas estranhas, protoconcebidas para o contexto da época.


Não tínhamos a percepção nem a preocupação com as questões climáticas atuais. Imagine: o homem  querendo controlar o clima!?  Que coisa mais simplória! Não somos capazes de prever - com  precisão, a nível municipal  -, nem mesmo a ocorrência de uma geada!. Bolas de gelo do tamanho de um ovo de galinha podem furar nossos telhados e apedrejar as plantações arbustivas tradicionais e exóticas (estranhas ao país) a nos punir por algum pecado inominável. Quem aguenta!  Como prever o que vai acontecer com o planeta? Dois graus? Três? Quatro? Conhecimentos técnicos e científicos de boa qualidade são necessários para melhorar a nossa compreensão. Formação de bons professores e estruturação de redes idôneas de informações são indispensáveis.

A propósito, a Agencia FAPESP - (Disponível em: http://www.agencia.fapesp.br/. Acesso em: 3 dez.2010) -  está destacando a oportunidade de acesso livre a milhares de obras, artigos, mapas e documentos históricos sobre a biodiversidade brasileira, contando agora com o Portal BHL ScieLO.  O consórcio "Biodiversiry Heritage Library" - (Disponível em: http://www.biodiversitylibrary.org/.) -  reúne os maiores museus de história natural e bibliotecas de botânica no mundo, como a Academy of Natural Sciences e o American Museum of Natural History, nos Estados Unidos, e o Natural History Museum, na Inglaterra.

 Embora as informações estejam disponíveis, uma parte da população ainda permenece sem saber ler e escrever e esse tipo de conteúdo não faz parte de sua realidade imediata, embora assim o seja.  Enfrentamos enormes obstáculos pelo elevado número de analfabetos no mundo. Até 2015  existe o compromisso firmado por 191 Estados-Membro das Nações Unidas (ONU)  para  "resolver" oito grandes desafios do planeta: os objetivos do milênio. Um deles - atingir o ensino básico universal - continua sendo apenas uma esperança. O próprio Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), reconhece:  " houve progressos no aumento do número de crianças frequentando as escolas nos países em desenvolvimento. As matrículas no ensino básico cresceram de 80% em 1991 para 88% em 2005. Mesmo assim, mais de 100 milhões de crianças em idade escolar continuam fora da escola. A maioria são meninas que vivem no sul da Ásia e na África Subsaariana. Na América Latina e no Caribe, segundo o Unicef, crianças fora da escola somam 4,1 milhões" (Disponível em: http://www.pnud.org.br/odm. Acesso em: 3 de dez. 2010). E uma frase aparece em todo lugar, que também nós endossamos: faça a sua parte! Mas fica a pergunta: que qualidade terá a minha parte para decidir assuntos tão complexos?

Como discutir biodiversidade e sustentabilidade quando esses assuntos não são prioridades dentro das salas de aula?  Poucas pessoas sabem o que são "serviços ambientais ou serviços ecossistêmicos"! Se uma boa parte da população não sabe ler ou interpretar um texto simples, como compreender e participar de discussões mais complicadas que exigem um mínimo de conhecimentos gerais ? O que você vê na midia: sustentabilidade?. Biodiversidade? Os temas explorados tratam de realidades próximas do indivíduo; que tenham relação com medo e prazer: assalto, bala perdida, sexo, futebol, roupas bonitas, carros de luxo. E reclamam de Copenhague (Dinamarca, 2009), de Cancún (México, 2010), e tantas outras que virão.

Faça a sua parte! Tudo bem.! Mas precisamos divulgar a nível popular, também as questões mais complexas que ainda não fazem parte das discussões mundanas. 

A imprensa pode ajudar sim, por um lado, ampliando as horas dedicadas aos temas biodiversidade e sustentabilidade.  O governo - necessariamente - poderá oferecer melhores condições de ensino, contando com melhores equipamentos e oferecendo capacitação remunerada para os professores. Esses passos serão importantes - não para resolver exatamente as questões ambientais do mundo - mas para reconhecermos qual o  nosso real papel socioambiental nesse cenário do século XXI; tão complexo, no qual somos estreantes, ainda muito pouco experientes...

O homem ambientalista e conservacionista: um discurso desgastado?


Colaborador Roberto Rocha

A ano de 2010 foi consagrado como Ano da Biodiversidade, com suas espécies, paisagens e infinitas formas de expressão genética.  Uma tentativa para chamar a atenção de todos para o óbvio: “não há sistema econômico, nem social, nem cultural, que resista sem a fundamental e decisiva participação dos serviços ecossistêmicos”. Sem a preservação dos serviços da natureza não há civilização que se sustente por muito tempo. A saúde humana depende da saúde ambiental. Os "planos de saúde" - numa visão mais atualizada do que seja "saúde" - deveriam garantir também água potável, ar puro, moradia, saúde mental e tantos outros fatores para quem recebe seus serviços. Estamos ainda presos à conceitos retrógrados  que continuam a nos dizer que saúde, prioritáriamente,  é "não ter doença infecciosa".

Os hominídeos sempre foram testados a partir de seus potenciais bióticos desde a pré-história, no Período Paleolítico. Somos hoje - o Homo sapiens - resultado genético e único, do que foi inteligentemente selecionado pela resistência ambiental dos biomas terrestres do passado remoto. Das dezenas de espécies de  "homens primitivos", só nós conseguimos chegar até o momento recente. Talvez tenhamos nos entusiasmados demasiadamente com a domesticação dos animais, que ensejou a pecuária; e com o cultivo de vegetais - que estabeleceu a agricultura - e mais tarde, viria a ser manipulada pelo agronegócio em nível mega, devastador.

A descoberta da escrita, da fundição dos metais e a construção de cidades, sacramentaram a história humana com um modelo consumista que se tornou hegemônico. Meio tímido em seu início, viria – por força das máquinas – a se tornar um paradigma de sucesso econômico de curto prazo, embora desastroso no tempo ecológico.

E o que os ambientalistas têm a ver com isso? A explicação seria a seguinte: economistas e ecologistas não se falam. Motivo: incompatibilidade de interesses! Os primeiros – os economistas, com exceções, é claro - defendem o lucro e o desenvolvimento a qualquer custo, desconhecendo os serviços ambientais como “gerenciadores mais nobres”. Os recursos naturais “são para uso do homem”. A questão é bíblica: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Tenha ele domínio sobre os animais marinhos, sobre as aves, sobre os animais domésticos e sobre os répteis. Domine a terra toda”. Se compreendermos a profunda influência religiosa em nossas vidas - até por motivos subjetivos - é possível explicar porque não temos uma índole “conservacionista”. Ou ainda: quem sabe a determinação “domínio sobre os animais [...]” seria com a intenção de “usá-los racionalmente”?

Os interesses mais comuns estão centrados em “indivíduos e espécies”; e não exatamente nos “ecossistemas”. Quando se começou a falar em “proteger” baleias e micos, o que realmente estaria por trás de tudo, seriam os ecossistemas: marinhos e florestais, nesses casos. Algumas espécies são exaltadas como “bandeiras” porque são rapidamente reconhecidas, quando torna-se necessário estabelecer prioridades. Elas ficam mais visíveis e chamam a atenção, como faziam as "bandeiras" das guerras antigas e medievais. Se já é difícil para o leigo, entender o papel de uma espécie num ecossistema, imagine entender “todo” o ecossistema? Nós não fomos “formados” para pensar em rede.

A separação homem-natureza foi um grande êrro. Nossa percepção do “todo” foi suplantada pela percepção das partes: aquelas que nos ofereciam vantagens imediatas; e esse vício, continua até hoje. Se desejarmos realmente nos tornarmos “ambientalistas” – como o nome sugere, numa visão mais ampla e complexa - deveremos deixar de ser “simplistas”, combatendo a depredação ecológica, verdadeiro “cancro” para um desenvolvimento sustentável ou para a sustentabilidade de longo prazo, como querem os mais recentes pensadores.
Não podemos pensar em desafios humanos tais como educação, segurança, saúde, trabalho, transporte e tantos outros, sem considerar os ecossistemas como agentes mais importantes de qualquer processo antropológico que se deseje incrementar.

O homem “pensa que domina”, mas “ele não controla”, ele é controlado. Se tivéssemos evitado esse equívoco milenar, certamente estaríamos agora investindo bem mais numa educação que nos levasse  a compreender melhor a nossa dependência natural dos ecossistemas e não exatamente como explorá-la de modo devastador. Nossa educação deve seguir no sentido ecológico e de complexificação,  porque a natureza sempre age de forma multicooperativa, enquanto o homem atua de forma egoística e simplificadora.

Precisamos pensar como indivíduos de uma espécie que faz parte de um contexto; e não que pretenda "dominar" esse mesmo  contexto. O ambientalismo deve considerar este aspecto. A conservação consiste em aprendermos nas escolas e na vida, como funcionam os sistemas naturais e não somente como funcionam os sistemas econômicos predatórios.

O núcleo deve ser a família e a cidade deve ser a complementação. O homem é também um primata, essencialmente social.  A base de um primata é a sua família, seu referencial. Sem ela, permanece perdido e desorientado. As famílias formam os grupos; não são os grupos que formam as famílias. Se invertermos os papéis estaremos negando toda uma história antropológica de  muitos milhões de anos. É absurdo desejar apagar em alguns séculos o que construímos e incorporamos em nossos gens durante milhares e milhares de anos. Zelar pelo manutenção dos serviços dos ecossistemas é apenas uma questão de bom senso.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Homem: única criatura totalmente biológica que deseja ser tecnologicamente orientada


Colaborador Roberto Rocha

Fatos recentes, que envolveram situações internacionais do tipo Copenhague em 2009; e alguns eventos regionais e locais - como escorregamentos (ou deslizamentos) e alagamentos verificados na região sudeste brasileira (MG,RJ,SP) - nos deixam de luto. Por dois motivos: em Copenhague devemos lamentar a perda da sensibilidade em relação à importância da biodiversidade; e no Brasil, a perda de entes queridos e patrimoniais, numa visão mais imediata e próxima. O que perdemos em Copenhague foi um momento de iniciar 2010 com uma visão mais realista do que somos: biologicamente constituídos, ecologicamente dependentes e culturalmente curiosos.

No Vale do Paraíba e no litoral, assistimos, mais uma vez, às manifestações da natureza, em suas “acomodações” geológicas. Elas simplesmente desconhecem os nossos interesses particulares, por mais bem intencionados que sejamos. A questão é que o planeta “funciona” através de regras muito antigas, integradas e dependentes. Nada acontece sem que algum “transtorno” se verifique e, logo se estabeleça um novo cenário para fazer voltar tudo aos seus lugares, ao que podemos chamar de equilíbrio homeostático. Não há como mudar isso! Mesmo as intervenções humanas para tentar “copiar” esses processos, são eventos provisórios. No final, a experiência e a “inteligência” de Gaia ganha da inteligência humana, por uma razão bem conhecida dos economistas: tradição. Você pode procurar onde quiser! Não encontrará nenhum sistema tão antigo, eficiente e eficaz, para administrar tantas variáveis e eventos, num só tempo, perfeitamente harmônicos. É algo muito especial e maravilhoso!. É para sentar e ficar admirando, boquiaberto! Quem faz isso? O que admiramos em nossas correrias diárias? Que tempo separamos, do nosso dia, para meditar sobre a vida e sobre o mundo em que vivemos? Sobre suas estratégias! Vamos correndo ligar a direcionada televisão - para “saber o que está acontecendo”. Quem sabe dar uma lida no jornal? Ou ainda, conectar-se em rede, via internet?. Sentir aquela sensação de liberdade, e conhecer e comentar o que alguém disse e o que alguém fez, incluindo nós mesmos? E tudo volta a ser igual: fatos triviais, fofocas, intrigas e tudo que possa interessar “ao indivíduo”. É normal que nosso pensamento parta do individual para o coletivo.

O que podemos estranhar é que esse coletivo não considere como prioridade, as questões ambientais, em especial, os “serviços ambientais”. Serviço para nós, é algo que alguém nos oferece em troca de dinheiro ou de alguma vantagem “particular”. A natureza também trabalha com vantagens, mas são todas “coletivas”. Essa é a grande diferença!. Ela não é apenas “curiosa”, ela procura soluções compatíveis com o “todo”. Ela não inventa, ela já sabe o que fazer, instintivamente. Por que nós praticamos tão pouco a nossa intuição e a substituímos por orientações alheias, tecnológicas e científicas? Mesmo sendo criaturas sociais, que vivem e negociam o que fazer em grupo, não quer dizer que tenhamos que fazer isso todo o tempo! Responda lá: quanto tempo você separa – do seu dia - para meditar e pensar sobre o seu papel no mundo e como o mundo administra a vida? Imagino que muito pouco. A maioria vai responder que “não tem tempo” para essas coisas! Imagine: nós não separamos um tempo para pensar no que é vital para nós e para todos: o equilíbrio ambiental. Sem ele, não temos muita chance de permanecer no jogo da vida. Vamos ser eliminados por incompetência ecológica, apesar de nos “acharmos” a criatura mais inteligente da Terra.

A partir da Idade Moderna – em especial - e com base na metodologia científica, começamos a dar asas à imaginação e à inovação. Animais não inovam. Eles repetem o que deve ser ótimo para todos. Se assim não fizerem serão retirados do sistema, automaticamente (esse termo é horrível!). Você pode achar que a vida se torne enfadonha e sem graça se apenas ficarmos repetindo tudo, da mesma forma, todos os dias. Esse é o maior desafio humano! Mas, cabe também uma reflexão: e se o que estamos fazendo – para tornar a vida “mais interessante” - vier a nos destruir? Qual a lógica? As criaturas do mundo procuram salvaguardar suas vidas! Eu desejo um ar puro para respirar, certo? Uma água boa para beber, certo? Alimentos que não tenham substâncias que possam me fazer mal, certo? E por que nós poluímos tudo isso? Para justificar a nossa capacidade intelectual? Ou será que a intelectualidade poderia ser praticada num outro sentido? Se nós somos criaturas biologicamente constituídas, deveríamos aceitar a idéia de que tudo que for biológico deve ser bom para nós e para todos. Além disso, sabendo que somos seres ecologicamente dependentes, deveríamos zelar para que o sistema fosse sempre saudável, certo? E por que concordamos com tudo isso e continuamos a fazer o contrário? Por que Copenhague não foi um sucesso? Por que construímos – ou permitem que possamos construir – moradias em áreas de alto risco? Desconhecimento técnico? Falta de fiscalização? Falta de educação ambiental? Desigualdade social? Falta de poder decisório? Falta de respeito à legislação vigente? Será que por trás disso tudo, não estará aquele vírus infeccioso da curiosidade desafiante, própria da nossa espécie, mas destituída do necessário bom senso? Do equilíbrio? Do trato ético com as coisas públicas? A sociedade tem uma idéia clara das razões pelas quais devemos zelar tanto pelo que é público quanto pelo que é privado? Ou somente valorizamos o que é particular?

Nosso sistema de ensino nos leva a pensar mais no interesse público ou no interesse privado? Isso faz alguma diferença no comportamento dominante? Colhemos o que plantamos. O que queremos afinal? O tempo está se esgotando. A tecnologia revolucionou as atividades humanas e nos tornou “brilhantes” criaturas. Acumulamos títulos e bens. A questão é que os espaços nos cemitérios estão cada vez mais curtos, e não sei se vai sobrar lugar para nós mesmos, de tanta coisa que inventamos. Mas uma coisa é certa: os decompositores vão entrar em cena – mais uma vez - e demonstrar na prática, que no fim de tudo, o biológico vai predominar: silenciosa e humildemente, apesar de toda a nossa gritante e invejável tecnologia. Por outro lado, estamos ficando preocupados com a impermeabilização dos solos das cidades e sesus arredores: estamos extinguindo bactérias e fungos importantes nos processos de decomposição. Bilhões e bilhões de microorganismos estão sendo soterrados e concretados dia e noite. Os serviços de cremação terão que ser extendidos a todos como medida sanitária indispensável. Evitaremos assim que tenhamos que passar uma boa parte do dia caminhando sobre cadáveres que não apodrecem, de pessoas, de bichos, de plantas e tudo mais que precise ser reciclado como matéria biológica. Pode parecer um tanto macabro, mas não é nenhuma ficção. É fato real ! Já percebemos isso - claramente - durante as enchentes e alagamentos que se repetem cada vez com maior intensidade. As cidadas estão cada vez, mais impermeabilizadas...

Somos biologicamente constituídos e ecologicamente dependentes. Qualquer proposta diferente irá de encontro ao óbvio e ao razoável, até beirar a insanidade cega, exatamente por desconhecermos a sensatez,  que deve guiar as nossas ações e nos mostrar caminhos menos radicais onde haja espaço para todos, equilibradamente.

Um país de economias e de culturas estranhas



Colaborador Roberto Rocha

Diz o jargão popular: “Deus é brasileiro”!. Mas nós sabemos que não é bem assim. Quando falamos das riquezas do Brasil, o que pouca gente sabe, é que uma boa parte delas é estrangeira. Ou melhor, exótica. Devido à extrema ignorância biológica sobre a flora e a fauna do Brasil, a partir do redescobrimento, os portugueses e outros povos, introduziram aqui indivíduos de diversas espécies alienígenas que perduram até hoje. Esse “descaso natural” contribuiu para a destruição de diversas espécies endêmicas que não foram nem conhecidas. A falta de cuidados maiores com um solo vivo, causou um esgotamento progressivo associado a fenômenos erosivos os mais diversos, que podem ser observados ainda nos dias atuais (FIG. 1)

FIG. 1. Forte processo erosivo (voçoroca) que tende a se aprofundar e a se alargar cada vez mais, carreando sedimentos e deslocando matacões (pedras) que rolam para as estradas, impedindo a circulação dos veículos ou ameaçando a segurança pública.

Os índios não construíam em terrenos inclinados, nas encostas dos morros, até porque as matas eram preservadas nesses locais. Nosso modelo econômico foi forjado a partir de práticas completamente estranhas aos nossos ecossistemas. Por séculos, revolvemos a terra de forma incorreta e queimamos o chão úmido da mata pluvial que não possui mecanismos de sobrevivência sofisticados para resistir ao fogo como ocorre em outras áreas onde os incêndios naturais são até necessários para a regeneração da floresta. Copiamos costumes de outras regiões por pura imitação e sem base de conhecimentos mais sérios. Só muito recentemente é que estamos começando a desconfiar como os nossos sistemas florestais funcionam, especialmente por causa do aquecimento global. Talvez tardiamente.

A maioria dos brasileiros urbanos não sabe identificar a flora e a fauna do Brasil. Entre os animais reconhece apenas algumas espécies domésticas introduzidas ou as de grande porte, em especial os que vivem em zoológicos. Muitos dos eventos folclóricos, por exemplo, o “Bumba meu boi”, não foi inspirado na nossa fauna nativa. Representa uma incrível mistura de realidades de um Brasil colonizado, entre escravos, índios e fazendeiros com seus pesados animais de cascos. Os ruminantes de grande porte que conhecemos como o zebu (Bos primigenius indicus) e a vaca holandesa (Bos primigenius taurus) foram importados com base em interesses econômicos. O búfalo (Bubalus bubalis) é outro estrangeiro em terras brasileiras. O mesmo ocorreu com o cavalo (Equus ferus caballus), o burro (Equus asinus asinus). O perissodáctilo brasileiro de dedos ímpares, e mais próximo do cavalo é um tapirídeo - a anta (Tapirus terrestris). Contamos ainda como exóticos, a cabra (Capra aegagrus hircus), a ovelha (Ovis orientalis aries), o coelho (Oryctolagus cuniculus), a galinha (Gallus gallus), o pombo (Columba lívia), a abelha européia (Apis mellifera), o bicho-da-seda (Bombix mori) e tantos outros. Nenhum deles é autóctone. Temos canídeos, mas são todos selvagens: cachorro-do-mato (Cerdocyon thous), o cachorro-do-mato-vinagre (Speothos venaticus), a raposinha-do-campo (Pseudalopex vetulus): nenhum é descendente do lobo (Canis lupus) e suas diferentes raças geográficas que se espalharam pelo mundo. A população de cães e gatos domésticos no Brasil é astronômica. No entanto, temos diversos gatos selvagens ameaçados de extinção: jaguarundi (Felis yagouarundi), gato-do-mato (Leopardus tigrinus), gato-dos-pampas (Leopardus colocolo), maracajá (Leopardus wiedii) e a jaguatirica (Leopardus pardalis). Eles apenas lembram o gato importado (Felis silvestris catus). Temos porcos-do-mato: cateto ou caititu (Tayassu tajacu) e a queixada (Tayassu pecari), mas não são irmãos do suíno exótico (Sus scrofa domestica) que o Brasil manda de volta para os países europeus. Quem não conhece a rã touro gigante “americana” (Rana catesbeiana) em meio a uma infinidade de pequenas rãs nativas que temos no país. E a avestruz africana (Struthio camelus)? Todas estrangeiras.

Fomos ocupados por “estranhos” de todos os tipos e raças. Até o ciclídeo de água doce conhecido popularmente como tilápia é africano, enquanto temos aqui a nossa acará-testuda (Geophagus brasiliensis) e outros mais, aguardando um melhoramento genético adiado. E a soja (Glycine max) e o arroz (Oryza sativa), dos chineses? E a manga (Mangifera indica), a laranja (Citrus sinensis), a banana (Musa sapientum) e a cana-de-açúcar (Saccharum officinarum) do sudeste asiático? E o milho (Zea mays), o tomate (Lycopersicon esculentum) e o feijão (Phaseolos vulgaris) da América Central? Não bastassem as espécies comestíveis, o nosso paisagismo urbano é também rico em “importados”. É um verdadeiro absurdo ecológico ver milhares e milhares de amendoeiras da Índia (Terminalia catappa) e centenas de exóticas ocupando espaços junto ao litoral (riquíssimo em espécies nativas maravilhosas que não são usadas). Por que não estudamos e por que não usamos as nossas espécies de restinga? Pouca gente sabe que existe a princesinha-de-copacabana (Eugenia copacabanensis), uma espécie endêmica da cidade do Rio de Janeiro. Por que elas não são conhecidas pelos próprios moradores de Copacabana? Ser ignorante sobre os recursos que não interessavam economicamente é uma situação antiga, mas podemos corrigi-la. As cidades do litoral e do interior poderão – ao mesmo tempo - ajudar na salvaguarda de espécies raras, e divulgar para a população o que é da nossa terra. Nem o coqueiro da Bahia é nosso, embora o seu nome sugira isso. Temos palmeiras nativas lindíssimas, mas foram quase que esquecidas pelos nossos paisagistas.

Hortos municipais e estaduais deveriam ser reorientados no sentido de estudar e investir nas espécies endêmicas regionais, em nossas praças, jardins e qualquer outro espaço de domínio público. Retirar as exóticas que estão em pontos inadequados (ameaçando as redes de distribuição de energia elétrica) e substituí-las por espécies nativas que possam se mostrar confiáveis no sentido de não crescerem demasiadamente, não arrebentar as calçadas e não obstruir as redes de esgotos com suas raízes. Certamente que alguns indivíduos exóticos “tombados” devem ser mantidos, por motivos históricos. O que ocorre é que o critério para o plantio das mudas pode ser a “facilidade” e o “custo” para obtê-las e não exatamente a adequação da espécie, para cada caso. Ainda temos alguns anos até as Olimpíadas de 2016. Não acho que seja difícil fazer algumas mudanças relevantes nesse período.

Outro detalhe é que vivemos um momento planetário de aquecimento, em que os ventos estão se tornando mais fortes e devemos nos preparar para eventos climáticos que vão se repetir cada vez mais e com maior freqüência. Inundações rápidas com grandes volumes precisam ter caminhos de escoamento rápido.Se as bocas dos bueiros estiverem obliteradas a situação poderá se complicar.

Outra prática interessante é plantar árvores nativas com comprovada aplicação em artesanato (falta pesquisar muita coisa ainda). Depois da poda regular feita pelas Prefeituras, bem que poderia ser feito um estoque desse tipo de madeira para cada grupo comunitário de modo a ter matéria prima para um ano inteiro de artesanato (FIG.2). Se ocupamos o espaço urbano com “amendoeiras” - que serão podadas cedo ou tarde - podemos retirá-las e plantar espécies que são sabidamente usadas em artesanato, movelaria, construção de instrumentos musicais ou prestando serviços ecossistêmicos e contribuindo para alimentar e abrigar a fauna. Não duvido que já exista alguma pesquisa nesse sentido. Atualmente é possível transplantar ”árvores” já perfeitamente adultas.

Até 2016 poderíamos dar um exemplo ao mundo de como usar racionalmente os nossos recursos mesmo em cidades densamente urbanizada. Assim como na África (Angola) são entalhados os representantes de sua fauna mais nobre (FIG.2). As prefeituras teriam um grande papel social ocupando pessoas nessas atividades. Quem sabe até exportar tais produtos e estimular as casas de culturas, o empreendedorismo e o cooperativismo?

FIG.2. Palanca negra (Hippotragus niger) - o mais belo antílope de Angola: artesanato em madeira (14 cm de comprimento x 4,2 cm de largura x 14 cm de altura).

Não precisaríamos cortar a árvore inteira, mas apenas “coletar” galhos com diâmetros adequados para pequenas peças. Precisamos corrrigir esses erros seculares que enterraram nosso patrimônio indígena (nativo) ímpar, que somente nós possuímos. A correta maneira de “explorar” os recursos nacionais deveria partir de programas específicos, respeitando-se cada bioma e suas ecoregiões, a partir de sua faunas e floras mais características. Outra iniciativa importante é a formação de corredores florestais a partir de espécies indígenas, de modo a garantir a sobrevivência dos organismos que dependem delas.

Pelo fato de cada um de nós – em sua maioria – possuir alguma carga genética européia oriunda de nossos avós e bisavós, não estranhamos muito o fato de falar em bois e cavalos. O que chamamos de espécies alienígenas aqui são antigas acompanhantes boreais, de terras baixas, com neve abundante e rios congelados. De cascos e chifres domésticos, de leite farto antes nunca visto, de carnes abundantes que não têm gosto de macaco nem de jabuti neotropical em meio a milhares de frutas, óleos e madeiras, desconhecidos. Nós nos acostumamos a comer a carne lá de cima, quando nós ainda éramos “indígenas” habitantes do espaço paleártico na Eurásia, mas não no Brasil. Nossas “carnes” eram outras. Nossas frutas não eram conhecidas pelos “brancos”. Transferimos para cá culturas e tradições sedimentadas quando ainda éramos homens das cavernas do paleolítico: um comportamento étnico aceitável para o Hemisfério Norte, mas um lamentável equívoco ecológico praticado na linha do Equador, quente, úmida, biodiversa, onde viviam nações que realmente sabiam manejar e usufruir – sabiamente, por milhares de anos - os recursos abundantes que existiam até então, hoje ameaçados. Acordar é preciso, desse longo sonho, dessa viagem infernal em busca de um desenvolvimento e riqueza de cifras digitais, que aparecem e desaparecem nas telas, como uma mágica econômica, todas virtuais. Não toca a nossa pele e não possui nenhum canto melodioso. Não varia em cores e não retira a nuvem marrom do teto das cidades e dos pulmões dos nossos netos. Estamos entre estranhos. Por que não investimos no que é ecologicamente autêntico e milenarmente consagrado?