sábado, 28 de março de 2015

Ainda em París?


Colaborador ROBERTO ROCHA

A insensibilidade e a ignorância em relação às questões de preservação do nosso patrimônio é facilmente explicável porque os atuais ditos “brasileiros” que estão no poder empresarial são na verdade “europeus em terra estranha”; muitos deles mestiços, porque seus ancestrais recentes se acasalaram com negros e índios. Indígenas (brasileiros autênticos) e africanos não mestiços (também autênticos), representam o melhor grupo humano que compreende o valor do equilíbrio ambiental tropical, porque possuem tradições milenares. E a nossa tradição brasileira – construída a partir de estratégias de países do gelo – qual é? Em pouco mais de 500 anos, nosso equivocado modelo de uso da terra mostrou seus erros. Os índios, “ditos incivilizados” – porque não acompanharam a “civilização” dominante da Europa – foram exterminados para que novas populações exóticas ocupassem o mesmo espaço, alardeando seus modelos de exploração. Os índios não “exploram”: eles “convivem”! Os indígenas preservaram nossas florestas, rios, praias, lagoas e tudo que se possa imaginar, durante “milhares de anos”. Lamentavelmente não valorizamos a nossa (?) própria história. O que somos hoje? Fruto de um modelo da idade moderna, antropocêntrica, que – apesar do apelo da época (que gritava nas ruas da França pela liberdade, igualdade e fraternidade) – estimula a ausência do Estado nas questões fundamentais e privilegia fortemente o privado para interferir no que é público. É verdade que estamos hoje num caminhar doloroso, aprendendo com nossos graves erros do passado, tentando consertar parte do que ainda tem conserto. Mas como consertar a alma? O sentimento de perda vai ficar. A ferida pode até fechar! Pode não doer mais. No entanto, não podemos esquecer que nosso DNA original está vivendo aqui como exótico e invasor. Trouxemos conosco nossos acompanhantes também exóticos e invasores (boi, cavalo, porco, cachorro, gato, galinha etc). Que justamente por isso, temos uma enorme dificuldade de entender a estratégia indígena de ocupação e uso do espaço. Que justamente por isso somos incompetentes em lidar como a gestão de ecossistemas tropicais. O Rio de Janeiro do início do século XX parecia Paris. As pessoas (os privilegiados) se vestiam como se estivessem na Europa. Somos uma continuação deles. Precisa dizer mais?

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Sustentabilidade: a saída, onde está a saída?

Colaborador Roberto Rocha

Acho que nosso maior desafio é compreender que nós não somos "gente" como todo mundo acredita. Somos apenas um conglomerado provisório de partes dos diversos compartimentos do planeta (atmosfera, hidrosfera, geosfera) organizados conforme cada genoma particular. Temos sim uma outra parte cósmica, pensante. Mas a nossa cultura egoísta deturpou o conceito de que pertencemos ao todo. Pensamos e agimos -  equivocadamente - como se fôssemos criaturas independentes da natureza. Esse erro nos torna, falsamente, poderosos demais; e nos incentiva a interferir nos sistemas sem maiores cuidados. Ocorre que a nossa capacidade de intromissão é outra ilusão. Nós não podemos salvar o planeta. Precisamos salvar a nossa pele, enquanto "ELE" está nos tolerando.  É possível que chegue um ponto em que Gaia não nos tolere mais, e nos elimine com alguma onda de vírus letais ou de "desastres" corretivos. Nada incomum. A química dos compartimentos já mudou diversas vezes na história dos bilhões de anos do planeta. E nós - que chegamos aqui no outro dia - arrogantemente, nos colocamos com "criaturas especiais". Pobre homem! Pobre intenção. Quando é que vai cair a ficha? Os modelos de funcionamento dos serviços dos ecossistemas são nosso norte. Não temos que inventar mais nada. Precisamos apenas observá-los e aprender com eles. Quem está interessado nisso num mundo capitalista? Num contexto materialista e que coloca o homem como centro do mundo? O homem não é centro!  É parte. Frágil, dependente, efêmero. Este pode ser um caminho. 

domingo, 30 de junho de 2013

A luz e a escuridão

Colaborador Roberto Rocha

Quando dizemos que o Sol nasce no Oriente e morre no Ocidente, todos os dias, isso não é uma verdade. É apenas a nossa ilusão de perceber o mundo, incorretamente, parcialmente. E quantas vezes já tomamos decisões em nossas vidas com base nessas percepções ilusórias? Nada nasce ou nada morre! O que temos é uma transformação e fluxo. São ciclos que se repetem como o pêndulo que vai e que tem que voltar; procurando o centro, o equilíbrio. No entanto, a força inicial que o desloca, sofrerá pressões e interferências, até que ele pára.
O Universo se expande como se ele estivesse indo para algum lugar infinito. Mas não chegará até lá! Num dado momento em que atingir sua expansão máxima ele terá cumprido sua missão. Como a chama de um fósforo que explode em energia, logo se estabiliza, e no final se apaga. Acender um fósforo é compreender o que acontece com o universo. O que acontece ali nos faz refletir sobre a vida em geral e a nossa própria vida. Será que temos uma real noção de como usamos nosso breve momento energético? Procuramos ser úteis e felizes nessa breve explosão chamada vida? Curtimos cada momento repartindo o amor e a compreensão? Ou ficamos estacionados no passado? Que perda de tempo! Justamente quando sabemos que viver é uma dádiva; uma oportunidade ímpar para a nossa própria evolução (=expansão?). A breve centelha logo se apagará! E o que será que ele energizou em nossa volta até então? Bondade? Tolerância? Amorosidade? Generosidade? O que, afinal? 
Quando amanhecer: olhe para o Sol! Compare-o com a  sua vida. Perceba que ele vai amanhecer no Leste e entardecer no Oeste. Que seu brilho mais intenso (conforme nossa percepção)  será ao meio-dia. Depois, a intensidade luminosa começará a diminuir (outra vez, apenas a nossa percepção). E então, tudo escurece, como numa floresta sem humanos e sem luzes artificiais. Esse breve momento nos ensina uma lição: aproveite o seu dia iluminado! Não o consuma ruminando desafetos e sofrimentos. É uma opção nociva de viver. Um desperdício é um desrespeito à dádiva de existir e de estar no mundo. Agradeça tudo o que vier e o que virá, até que o poente se apresente. Acredite que amanhã você terá outra oportunidade de tentar, caso não consiga, iluminar outra vez o seu mundo particular. Tenha esta certeza como o Sol voltará para você uma vez mais. Ele estará lhe dizendo: não desista! Tente outra vez! O próprio Sol nos diria: "eu vivo nascendo e morrendo, a cada dia e a cada noite, na esperança que o mundo acorde e durma em paz. Não tenho nenhuma certeza disso! Mas eu sempre volto e ilumino a todos, sem restrições. Alguns se escondem de mim, e permanecem nas sombras, em cavernas escuras. Outros me olham rapidamente, e logo se retiram para suas tocas seguras. Não me importo! Ofereço a cada um a oportunidade de decidir o seu dia. Sem  pressões. Se não mudar nada, voltarei amanhã, outra vez, como faço há muito tempo, desde que comecei a me expandir". Como vemos, apesar da disponibilidade do Sol, só nos tornaremos melhores se desejarmos mudar algo em nossa vida, por nossa própria conta, ou com a ajuda de outras pessoas. O Sol ainda vai se manter acesso por alguns milhões de anos, com ou sem a nossa presença. O que recebemos dele é apenas um breve punhado de energia que se dissipa em nossa provisória matéria geneticamente organizada. Em breve, teremos que devolver tudo isso ao todo. Nos diluiremos no todo uma vez mais. Não sei para onde irá parte da minha água ou dos sais do meu corpo. Quem sabe para um oceano! Ou para o osso de uma ave! Talvez em algum verme do solo! Ou na estrutura de um vírus! Mas uma coisa eu sei: o Sol nascerá outra vez!  Dará nova chance para todos que desejarem recomeçar alguma coisa. Corrigir algum desvio; perdoar alguém! Se não for hoje, poderá ser amanhã. Mas com certeza o Sol estará lá, o tempo todo; com seus raios vibratórios, estando eu alegre ou triste. Ele cumprirá seu papel de oferecer luz. A partir de seu exemplo, eu devo fazer o mesmo; inda que não tendo a sua magnitude e nem a sua benevolência. Sou um pequeno sol, com uma pequena chama. Com ela vou escolher novos caminhos, que antes eu não via. Vou imitar o Sol.  Sair da noite e conhecer o dia. Clarear o entorno com a minha pequena luz. Quem sabe, nessa busca, eu também possa orientar alguém a sair da escuridão...   
(RRS, 3 jun. 2013)

sábado, 29 de dezembro de 2012

Pensando num futuro já.



Colaborador: Roberto Rocha
 
Como o mundo realmente não acabou, fico muito satisfeito em continuar a curtir tudo o que eu gosto e a estar sempre disposto a ver as coisas desagradáveis como caminhos de aprendizagem em vez de motivos de sofrimentos e lamentações. Sofrer por sofrer não muda nada. Alias, muda sim: a minha cara e a minha disposição para estar no mundo. Andar com a cara triste e amarrada só afasta as pessoas. Se desejar  fazer alguém feliz, comece por você! A felicidade se irradia. Nesse momento conturbado do planeta estamos precisando de pessoas otimistas e alegres, bem humoradas. É uma questão de condicionamento e de desejar estar assim. Nosso livre arbítrio nos deixa à vontade para decidir o que queremos fazer de nossas vidas. Se formos pessimistas, assim será a sua vida. É certo que a vida não é um mar de rosas, mas também ninguém se aguenta banhando-se em fogo e sangue. É como fôssemos um rio a alimentar um grande oceano. Se agora só depositamos mazelas, teremos um mar de mazelas no futuro. Inda bem que tem gente que derrama somente coisas boas nesse oceano e as mazelas podem ser até diluídas. É um bom momento para perguntar: o que você tem derramado no oceano do mundo? Entendo que seu oceano particular possa ser sujo e mal cheiroso. Mas quando vamos derramar algo no mundo, vem a preocupação de que devemos respeitar o "outro". Nesse final de 2012, dizem que termina um ciclo longo para iniciar um outro, certamente promissor e transformador. Ninguém aguenta mais os absurdos que imperam na Terra: as desigualdades sociais, a exclusão, a ganância, o desrespeito ao próximo e tantos outros. O mundo globalizado está ruindo porque não soube administrar o seu próprio paradigma. A busca por um PIB cada vez mais alto deixou os países desenvolvidos cegos nos próprios caminhos que construíram sem maiores cuidados. A sociedade está mudando. Não está mais aceitando imposições incoerentes e descomprometidas. Os próximos anos serão decisivos para traçar um futuro mais equilibrado e menos agressivo. Se não for por motivos econômicos e sociais será por motivos ambientais, tipo aquecimento global ou algo semelhante. De que vale tanta tecnologia se ela não é capaz de controlar os desastres do mundo. Podemos apenas "prever e registrar" o tempo de hoje ou de alguns dias. Simulações podem ajudar mas há sempre um fator de erro embutido nelas. Com toda a parafernália atual não somos capazes de deter um terremoto ou um tsunami. Ventos de 150 km brincam com as nossas frágeis estruturas. Resta rezar os entes queridos. O lema mais importante para a economia deveria ser: quanto "mais complexos" forem os sistemas naturais, mais lucrativos eles serão para TODOS. A questão é que o lucro perseguido nos últimos séculos tem sido apenas para ALGUNS, com base na "simplificação". Florestas inteiras são destruídas para a implantação de monoculturas e pecuária, numa demonstração equivocada de modelo "produtivo". Ora: o que será mais produtivo do que uma floresta inteira? Com milhares e milhares de espécies? Guardando água em seus corpos minúsculos como se fossem um verdadeiro oceano terrestre! Oceano terrestre sim! Já pensou nisso! Existem rios que voam e oceanos terrestres! Estranho não é? Precisamos inovar e pensar "diferente" do que nos dizem por aí. Pensar é preciso! Refletir é preciso. Para que não tenhamos a desconfiança de que estamos sendo cúmplices de um grande crime planetário, anestesiados ou não, mas que será cobrado por nossos netos e bisnetos. Boas reflexões para 2013... 

domingo, 23 de setembro de 2012

Falando de gerações e de emissões

Colaboradora Roberta Cordeiro da Cruz
Muitos de nós já ouviram falar que no século passado, na época em que nossos avós eram bem jovens, o clima não era da forma como hoje se apresenta. As estações eram mais facilmente reconhecidas por suas características bem definidas. Nossos ascendentes conseguiam até prever, com certa precisão, acontecimentos climáticos de menor importância e assim tinham como planejar melhor pequenas decisões.
Decorrido menos de um século entre nossas gerações, já não podemos ter a mesma certeza de como será o tempo no dia seguinte, mesmo com toda a tecnologia avançada que dispomos atualmente para a previsão de furacões, tempestades, etc.

Mas o que está faltando para que o homem possa “dominar” as intempéries dos dias que virão?
O homem moderno deixou sua conexão com os elementos naturais e passou a ser altamente dependente da tecnologia que produziu.
 
Hoje, o “homem do campo” ─ aquele antes conectadíssimo com a natureza ─ é tão dependente desta tecnologia moderna que passou a ser apenas um “homem no campo”.
 
E os raios?! Ah! Os raios...
 
No Brasil, segundo os dados do INPE, metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro apresentam uma quantidade de raios muito superior aos dados do século passado. Isso sem mencionar a quantidade de descargas elétricas que partiram do solo em direção às nuvens!  

Os fins de tarde têm apresentado, com frequência, rajadas fortíssimas de vento que balançam janelas e provocam, em poucos minutos, a queda de árvores centenárias, problemas na fiação dos postes e muito mais. As previsões feitas por esses cientistas afirmam que até o final deste século teremos o dobro de enchentes de grandes proporções o que acarretará problemas das mais variadas ordens.
Seria uma resposta de GAIA aos seus parasitas?
 
Uns afirmam ser o tal aquecimento global o culpado por todas as alterações climáticas que aí estão, enquanto outros (uma minoria) dizem que ele não existe.
 
Bem, o fato é que evidências científicas mostram dados fiéis que indicam um rápido aumento da temperatura global. Neste contexto, o ser humano é o protagonista da situação perigosa em que se encontra o planeta, e que isso não é apenas mais um processo natural em andamento.
Sim! A Terra passa, naturalmente, por períodos de aquecimento e de resfriamento. São ciclos naturais.
 
Podemos até continuar a discutir as variações de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera, relacioná-las às médias de temperatura para um mesmo período passado e compará-las com os dados atuais. Contudo, o que já sabemos é que quando a temperatura global começa a aumentar, a concentração de CO2 aumenta também e vice-versa; e esses dois fenômenos se realimentam há séculos e sempre se alternam.
 
Porém, quando atualmente nos referimos ao aquecimento global não estamos tratando dos ciclos naturais pelos quais a Terra passa. Estamos sim, relacionando os impactos das atividades humanas que incrementam o aquecimento global (artificial e adicional) àquele já provocado por ciclos naturais de resfriamento e aquecimento.
 
Segundo dados do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), existem hoje 400 ppm* de CO2 na atmosfera comparados com 300ppm* nos séculos anteriores à revolução industrial.
 
Portanto, concluímos que o homem não é quem gera o aquecimento global, que é um fenômeno natural, mas é ele quem contribui, a passos largos, para acelerar este aquecimento.
 
A última década apresentou a média de temperatura mais alta da história do planeta e mostra que o clima está mudando rapidamente. É esperado que a temperatura global aumente de 2 a 6 graus Celsius até o final do século.
 
Então, não podemos dizer, simplesmente, que devemos nos adaptar às mudanças. Temos a obrigação de reduzir significativamente nossas atividades industriais começando por diminuir, imediatamente, o consumismo descontrolado que contribui com grande parcela para essas alterações climáticas. Reformular velhos hábitos pode parecer pouco quanto à contribuição individual que podemos dar, mas se somarmos nossos esforços, o total destas atitudes renovadas nos mostrará que podemos direcionar melhor nosso futuro.
 
E o que esperamos para o Brasil? Que os governantes se comprometam, verdadeiramente, na implantação e execução de políticas públicas sérias! Que a educação seja realmente levada a sério! As gerações economicamente ativas, que já se estabeleceram, estão corrompidas e devemos, portanto, reformular o plano brasileiro para o futuro que queremos.
 
Já parou para pensar no que está acontecendo com a Amazônia, o Cerrado e o nordeste do nosso país? As previsões não são nada animadoras. A floresta amazônica está se transformando em áreas de pastagens tendo sua biodiversidade totalmente arrasada pelo agronegócio. E quem pode afirmar que ela não se transformará em uma enorme savana? Seu clima e, até o de todo o território nacional, pode ser definitivamente alterado. O cerrado é explorado e devastado sem nenhuma responsabilidade e o nordeste, em breve, será uma grande área desértica. Diminuirão as chuvas, e o sudeste e o sul do país também sofrerão severas consequências.
 
Há futuro para um sistema capitalista onde a economia está permanentemente em conflito com a natureza?! Como mobilizar pessoas do mundo todo e fazê-las entender que precisamos mudar a civilização atual por uma que tenha hábitos mais sustentáveis? Não precisamos fazer voto de pobreza para que isso aconteça. Talvez uma boa sugestão seja aderirmos ao consumo consciente e uma distribuição de renda mais justa e equitativa entre as diferentes classes da sociedade mundial, para chegarmos a uma única classe.
 
Utopia?!!!! Não! Necessidade. Ou todos, sem exceção, seremos apenas um capítulo indigesto na história de Gaia.

* ppm – partes por milhão

domingo, 9 de setembro de 2012

O homem da toca e o homem da oca.



Colaborador Roberto Rocha
 
Recentemente, examinando mapas da América do Sul observei que a Amazônia é o principal centro de megadiversidade do planeta. As grandes áreas verdes concentradas ao longo da bacia amazônica me induziram a perguntar: por que o Norte? Por que não o Sudeste? A resposta veio rápida: isolamento e abundância de água ! Perfeito ! Os organismos precisam de água para manter suas trocas metabólicas em meio às organelas, células, tecidos, órgãos, sistemas e qualquer outro tipo de organização viva. Considerando não só o volume mas também a qualidade, poderíamos também incluir o Brasil Central, não fosse o arraso florestal para o agronegócio que descaracterizou boa parte de sua original estrutura. A prática do "arraso" foi trazida para o Brasil pelos europeus, como opção rápida e objetiva para a implantação de culturas de interesse econômico imediato.  O modelo dos  europeus autênticos - o povo da toca - continuaria a ser usado nos séculos seguintes, desta vez também pelos eurodescendentes, um genoma já diferenciado de sua origem boreal (do Norte) porque a cor da pele, o cabelo, a estatura, a cor dos olhos, o modo de falar, o consumo de alimentos - os mais diversos - teriam um impacto significativo na formação do "brasileiro". Os povos autênticos dos trópicos - o homem da oca - não tinham a preocupação de plantar e colher em grande escala. Não precisavam de dinheiro e nem de acumular bens. Os seus "bancos" eram de madeira, artisticamente trabalhados, com base em tradições milenares, e quem sentava neles eram os tesouros em forma de gente, o pequeno curumim. A sabedoria de muitos séculos era passada para cada um deles, sem escolas formais, nem professores remunerados. Apenas a voz no silêncio da mata; interrompida por algum canto de ave, na observação atenta do entorno, rico em biodiversidade, plantas medicinais, ar puro, solo sem agrotóxicos. Alimentos de cores variadas, animais abatidos, penas coloridas, urucu e jenipapo. Danças, lutas e torneios. Que riqueza! E ainda os chamavam de "incivilizados"! Os mais sanguíneos foram abatidos porque versava na época que eram belicosos e que ameaçavam as aldeias. A idéia de "invasão" de território alheio não era cogitada porque na verdade tratava-se de uma "colonização".   Seria certamente algo eticamente correto considerando-se as convicções do momento e do contexto histórico vivido. Podemos hoje criticar tais acontecimentos, mas isso seria inviável para uma Europa que fervilhava em idéias de um tempo moderno. O mercantilismo era a prática do momento. A renascença era algo distante para um país de tradições indígenas de milhares e milhares de anos. Os "índios" viveram aqui todo esse tempo e preservaram todos os nossos biomas. A cobertura florestal brasileira em 1500 era algo invejável. A convivência com a cultura européia modificou drasticamente a biodiversidade brasileira em pouco mais de 500 anos. A cultura africana tribal era semelhante a dos nativos mas também foi influenciada pelos homens da toca, ou homens das cavernas. Essa alusão prende-se ao fato de que os hominídeos primitivos ocupavam as tocas de animais carnívoros porque ali tinham um abrigo seguro onde uma única entrada poderia ser vigiada e defendida com maior facilidade. Os indígenas construíam suas "ocas" com material reciclável, da própria natureza. O brasileiro de hoje é um rico repositório de variados genes e culturas adaptadas. O homem da oca perdeu boa parte do seu território para o homem da toca. Suas pequenas "vilas" foram substituídas pelos tijolos de concreto fumegantes, pela impermeabilização do solo, pela substituição das flores naturais por flores e folhagens de "plástico", perfeitas... Como dizer que todas essas conquistas não nos tornaram mais felizes? Você não é feliz? O que importa se uma cultura de mais de 20.000 anos foi relegada? Nós vencemos! Estamos por aqui com a nossa avançada tecnologia. Com fertilizantes que permitiram explodir a população do mundo e somente um bilhão de pessoas ainda vive na linha da miséria. O aquecimento global é uma invenção de alguns cientistas malucos. Estamos resgatando todas as espécies ameaçadas da Terra. Nossa longevidade aumentou e podemos até substituir nossos órgãos defeituosos originais por peças mecânicas certificadas. Qual o mal de tudo isso? É apenas uma questão  de estratégia de sobrevivência! Vence o mais ardiloso. O mais astuto. O mais bem equipado. O mais bem armado. A questão é que um oceano isolou por muito tempo duas culturas distantes, que resolveram seus problemas com modelos muito diferenciados. Infelizmente os europeus, homens da toca e do gelo, não tinham conhecimento da cultura indígena e de sua sábia maneira de explorar os recursos da terra sem ter que derrubar as florestas intensamente. Foi, e continua sendo, o maior equívoco de uso racional de todo um continente. Embora com uma tecnologia avançada não sabemos como cada bioma tropical funciona. O conhecimento e a valorização dos serviços dos ecossistemas ainda não são prioridades dos modelos de produção. Continuamos apostando no NPK e nos agrotóxicos, no desmatamento de florestas complexas para serem substituidas por monoculturas e criação de animais da Eurásia. Sou um homem da toca! Mas tenho um respeito e uma admiração, sem limites, pelos homens da oca. O pó de cada antepassado deles está aqui, com certeza. A água dos seus corpos circula nos rios, nas nuvens e na estrutura de cada organismo desse espaço. Os meus ancestrais ficaram em outras terras, além do oceano, num país frio, ao Norte...

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Existe uma separação entre o homem e a natureza?


Roberto Rocha

Os hominídeos da pré-história não tinham o domínio da ciência e das artes como conhecemos hoje.  No entanto, deviam perceber nuances da natureza que, nós – Homo sapiens mais “modernos” – esquecemos ou anestesiamos com luzes e cores muito fortes e apelativas e sinais rápidos e convincentes.   É possível que ainda na Idade Antiga existisse uma busca pela compreensão do que seria a natureza, habitada por seres que sentiam (mundo orgânico), e não por peças frias, como ocorreria nos séculos seguintes.
A idéia aristotélica de natureza como algo animado e vivo, na qual as espécies procuram realizar seus fins naturais, é substituída pela idéia de uma natureza sem vida e mecânica. A natureza de cores, tamanhos, sons, cheiros e toques, é substituída por um mundo “sem qualidades”. Um mundo que evita a associação com a sensibilidade (GRÜN, 2000, p. 27).
O mecanicismo substituiria essa idéia inicial e novas contribuições seriam incorporadas através da participação dos grandes pensadores da época, tais como Galileu Galilei (1564-1642), Francis Bacon (1561-1626), Descartes (1596-1650) e Isaac Newton (1642-1727). A revolução científica traria contribuições relevantes para orientar a nova ordem social e econômica.
A modernidade teria René Descartes como principal mentor da objetivação da natureza em sua tentativa de dominá-la e, ao mesmo tempo, manter a autonomia da razão (sujeito).
A física newtoniana, por sua vez, influenciará a educação:
A possibilidade de uma descrição da natureza estabelecida pelo programa newtoniano não define um simples conceito de natureza. Esta possibilidade define um modelo de interpretação do mundo sustentado no modelo explicativo mecânico-causal. O modelo atomístico reducionista irá estabelecer as estruturas conceituais dos currículos e, mais do que isso, ele passará a ser a única forma possível de conceber a realidade. De um certo modo ele passa a ser a própria realidade. Neste período todo um corpo de saberes ecologicamente sustentáveis é deixado de lado no currículo por não ser científico, ou seja, por não ser mecanicista (GRÜN, 2000, p. 41).
Segundo Prigogine (1991 apud GRÜN, 2000, p. 57) “a mecânica clássica negou as questões mais “evidentes” que a experiência das relações dos seres humanos com o mundo suscita porque era incapaz de lhe dar um lugar”. O abandono do modelo cartesiano-newtoniano na educação e a sua substituição por práticas mais amplas tornar-se-á uma tarefa hercúlea. Um dos motivos que explicam esse reducionismo ainda em nossos dias é a dificuldade de concebermos o meio ambiente como um “todo” preferindo a dualidade fictícia homem-natureza como se ela fosse real.
Reigota (1994) explica que os conceitos científicos sobre o que seja meio ambiente “são de conhecimento geral pelos pesquisadores”.  No entanto, o senso comum também elabora suas definições com base em preconceitos e ideologias, surgindo assim diferentes definições sobre um mesmo tema. 
Ao examinarmos as definições populares que procuram explicar o que seja meio ambiente uma das mais comuns é: “tudo que nos envolve”!  Como se nós não estivéssemos fazendo parte do mesmo contexto.  Algo que está afastado de nós, como se não nos afetasse diretamente. Nós estamos aqui, e a natureza está lá! Quando precisamos dela, nós a usurpamos. Apesar disso, definições mais recentes como a que foi apresentada no documento de Tbilisi (UNESCO, 1980), inclui os valores humanos em sua recomendação n. 2: “o conceito de meio ambiente abrange uma série de elementos naturais, criados pelo homem, e sociais da existência humana, e que os elementos sociais constituem um conjunto de valores culturais, morais e individuais, bem como de relações interpessoais no trabalho e nas atividades de lazer”. Mesmo nessa abordagem mais ampla, o homem não está – claramente – sendo chamado de “ambiente”, e os elementos parecem estar classificados em categorias diferenciadas.    
Apesar de vivermos em pleno século XXI, permanecem ainda presentes diversos conceitos que procuram explicar um mesmo tema, causando assim alguns equívocos. As leituras fragmentadas dificultam a compreensão do meio ambiente como um todo. A abordagem do assunto a partir de uma vertente socioambiental exige uma profunda reflexão sobre os nossos procedimentos atuais: “os problemas que o cartesianismo coloca para a educação ambiental são problemas que enquanto não tratados comprometem as próprias condições de possibilidade da educação ambiental” (GRÜN, 2000, p. 58).
            Ao afirmarmos “somos ambiente” a mensagem soa mal aos ouvidos porque temos dificuldades em aceitar que quase todo o nosso corpo é feito de água, sais minerais, gases e outras substâncias. Nosso orgulho de ser uma criatura inteligente nos afasta da simplicidade e do banal, por nos considerarmos especiais. No entanto, é na morte que percebemos nossas reais limitações e vamos nos juntar à terra outra vez. Voltar a ser um verme, ou um fungo, como éramos antes de assumir nosso corpo. “Nossa” água e nossos sais vão vagar por aí. Quem sabe, subir  pelas raízes das plantas, e se instalar em algum fruto ou folha, que irão fazer parte da refeição de alguém? Vamos voltar ao pó, de onde viemos!  Enquanto isso não acontece, continuamos iludidos de que realmente fazemos diferença no mundo. Que o mundo nos pertence e existe somente para nosso uso e deleite. Na ânsia de criar e produzir estamos desrespeitando regras de ouro, que nos convidam a viver em harmonia, em cooperação, mas não exatamente com o extermínio da nossa própria espécie e das outras, numa competição acirrada pelo poder e domínio. Acordar é preciso! Mas não de nosso sono corriqueiro.  Precisamos acordar de uma  viagem equivocada que se dirigiu para um ponto fictício, onde corremos um grande risco de chegar e encontrar nele apenas decepção e sofrimento.

   REFERÊNCIAS

 GRÜN, Mauro. Ética e educação ambiental: a conexão necessária. 3 ed. São Paulo: Papirus, 2000.

REIGOTA, Marcos. O que é educação ambiental. São Paulo: Brasiliense, 1994.

UNESCO (United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization). La educacion ambiental: las grandes orientaciones de la Conferencia de Tbilisi. Paris: ONU, 1980.