domingo, 23 de julho de 2017

Os genes do mundo: o nosso maior tesouro.


Roberto Rocha

Quando falam de crise ambiental, o que logo vem a mente são questões relacionadas à poluição atmosférica, dos oceanos, das bacias hidrográficas, do solo, agrotóxicos etc. Quase ninguém lembra dos genes! E são eles que realmente fazem parte desse conjunto ecológico tão significante chamado de ECOSFERA. Embora se alegue que - desde a Revolução Industrial - nós começamos a poluir o planeta -, nem sempre nos referimos à extinção das espécies com a mesma ênfase. Muitas conferências ocorreram a partir da década de 70 no intuito de avaliar e promover medidas de combate às ameaças reinantes. Elas sugeriram medidas corretivas, preventivas e reforçaram a educação como grande mola mestra dessa mudança necessária de comportamentos indesejáveis. Faço coro com as autoridades mundiais que apoiam medidas que visem a diminuição da emissão de gases de efeito estufa ou qualquer outra ameaça física ou química que venha causar males aos seres vivos. No entanto, considero que deveríamos dar peso igual ou maior aos programas que salvem as espécies que estão a caminho da extinção ainda neste século. Não vai adiantar muito ter um clima equilibrado se não existirem os genes que garantam a nossa sobrevivência e o funcionamento dos serviços ecossistêmicos. A perde da saúde ambiental - entenda-se saúde dos ecossistemas - é pior do que qualquer mudança de clima.


 

Por outro lado, a composição da atmosfera terrestre nunca foi igual na história da Terra. O mesmo aconteceu com os organismos. Todos tiveram que se adaptar, mas os genes estavam lá em grande quantidade para garantir novas composições. O que ocorre agora é que nós mesmos - por outros motivos - estamos eliminando a nossa riqueza maior: a diversidade genética. Isso é muito grave!




 Não teremos muitos elementos com que jogar! Isso é drasticamente real e certamente muito preocupante. Nós vamos ser arrastados juntos nesta torrente. O homem não é tão suficiente quanto pensa! Muito ao contrário, é uma das espécies que mais depende de outras completamente diferentes, e não somente do clima ou da água que bebe.

sábado, 13 de maio de 2017

Percepções de um mundo humano equivocado


Roberto Rocha
O principal problema do século XXI não é a mudança do clima porque o clima da Terra nunca foi estável. Sempre mudou conforme os diferentes cenários e interferências cósmicas e leis físicas. A questão principal está na astronômica perda de biodiversidade que observamos hoje porque é ela que sustenta o funcionamento dos atuais sistemas, associada às condições climáticas. Cada tempo tem sua própria história. Um dia nosso planeta será estéril ou habitado por criaturas condizentes com as condições de clima que se apresentarem. A evolução caminhará para outras estradas. Até mesmo o fato de se extinguir naturalmente é um caminho a ser trilhado e imutável. Vamos apagar tanto quanto o Sol É apenas uma questão de milhões de anos. A nossa cultura consumista predatória está nos conduzindo para um destino equivocado e fatal porque o mundo econômico assim o deseja e nos faz prisioneiros ou nos torna cúmplice desse processo organizado e culturalmente orquestrado. O mundo econômico não deseja discutir questões ecológicas que não representem lucros imediatos ou garantias futuras. Não desejam a sustentabilidade alardeada porque o triple botton line capitalista só tem uma enorme perna: a econômica. O pilar socioambiental só interesse para ser consumido ou usado para gerar mais dinheiro e servir a interesses materiais e não exatamente mais felicidade espiritual. Isso é loucura! Como falar de sustentabilidade num mundo que mantém a fabricação de armas poderosas e equipes especializadas para eliminação sumária? Como falar de preservar espécies alheias se vivemos matando nossos semelhantes? Como plantar alimentos orgânicos e livres de venenos num mundo que ainda fabrica e investe fortemente na venda de venenos? Como falar de frutos se o problema está nas raízes? O povo não ignora os cientistas! O que ocorre, é que ele está sendo manipulado por personagens específicas e ocupado com distrações vulgares - devidamente orientadas e inseridas desde os ambientes escolares - para que sejam exatamente desse jeito: consumidores iludidos. A concepção de qualidade de vida está direcionada para atender interesses econômicos superficiais e não exatamente os interesses mais puros e profundos da realização humana. O planeta é visto como um conjunto de seres e coisas que “servem” ao sistema para sua riqueza material. A busca para uma qualidade de vida para todos é uma piada para os gananciosos e corruptos de plantão. Eles – os capitalistas desavisados - não querem saber de qualidade de vida natural porque isso trava a tecnologia. No mundo capitalista predatório não existe qualidade de vida para os ecossistemas funcionarem perfeitamente se eles não gerarem lucros e saldos bancários positivos. Não existe o existir “por” existir. Apenas o existir “para” existir. Esse é o grande desafio! Ninguém quer ser mais paleolítico! Mas nossa herança hominídea nos mostra que – mesmo sendo uma criatura com cérebro reptiliano – podemos evoluir em outros sentidos mais nobres e espirituais; menos selvagens, menos desconfiados e medrosos. O fato é que fomos “atropelados” por uma cultura de ferramentas incompatíveis com a nossa biologia naturalmente herdada. É simples de entender! E poderíamos ser diferentes, mas existe uma minoria no mundo que não está interessada nos aspectos históricos que nos forjaram. Muito menos na biota que se esgota rapidamente. Só existe um interesse maior: manter o sistema econômico como o mais importante de todos. Quando existir um grupo interessado e ativo voltado para a vertente socioambiental, sem ser seu usurpador e dono, então teremos alguma chance de nos fazer ouvir e até enxergar uma luz no fundo do túnel. Mas o túnel escuro que construímos – e continuamos a aumentar – deixa cada vez mais distante o acesso à luz brilhante. A biodiversidade vai desaparecer numa escala em números e num tempo curto, de forma muito mais letal do que qualquer tentativa frustrada para mudar o clima. Podemos mudar sim o cenário atual que afeta a biodiversidade, mas não poderemos fazer muita coisa pelo clima. Ele é autônomo. O planeta não se preocupa com partes irrelevantes como nós somos. Só nós mesmos é que nos achamos relevantes. O planeta está morrendo. Assim como o Sol. É um processo em andamento. Estamos esfriando de fora para dentro. Às vezes mais, às vezes menos, porque ainda temos uma bola de fogo ardente dentro dessa pequena geosfera que não deseja se apagar logo. Vai levar ainda um bom tempo. Só não sei se vamos estar por aqui. Quem sabe num outro planeta estéril, para construir um modelo mais sensato do que o que temos. Nesse novo mundo vamos refletir sobre a nossa estupidez: de ter vivido num planeta maravilhoso que ocupamos gratuitamente; mas que – por outro lado – não soubemos respeitar. E teremos que desconstruir o inferno amaldiçoado que criamos em busca de uma felicidade que estava em nossas mãos o tempo todo e não fomos capazes de perceber...

domingo, 23 de abril de 2017

A pesca predatória no BRasil

Colaborador Roberto Rocha

Absurdo dos absurdos! O BRasil é completamente omisso em suas estatísticas de pesca. Não temos como saber o que é predado pela ganância humana e econômica que está devastando nosso tesouro azul. Se já não bastassem as devastações continentais recentes da Amazônia para cumprir acordos internacionais de exportação de carne e soja, agora estão sendo omitidos - já há alguns anos - também os dados da pesca predatória. Vai ser uma vergonha total a participação do BRasil na Conferência das Nações UNidas sobre OCEANOS em junho deste ano. Imaginem que até conseguiram tirar de circulação por algum tempo a lista de espécies ameaçadas de peixes do BRasil. Em nenhum país sério isso aconteceria. A questão principal não é o aquecimento global como dizem por ai. A questão é a perda de nossa biodiversidade que é absurdamente astronômica, e isso vai comprometer o patrimônio natural nacional, com repercussões gravíssimas para as próximas gerações. Não podemos controlar o clima do mundo mas poderíamos controlar a perda de biodiversidade se isso fosse prioridade urgente urgentíssima. Você sabia que a ONU tem 17 objetivos a serem cumpridos até 2030 e o BRasil tem compromissos a serem cumpridos? Sabia que o OBJETIVO 14 fala exatamente dos oceanos como meta a ser atingida? Sabia que estamos expostos à severas críticas a nível mundial e isso prejudica nossa imagem internacional?

Objetivo 14. Conservação e uso sustentável dos oceanos, dos mares e dos recursos marinhos para o desenvolvimento sustentável

Os oceanos cobrem três-quartos da superfície da Terra, contém 97% da água do planeta e representam 99% da vida no planeta em termos de volume.
Mundialmente, o valor de mercado dos recursos marinhos e costeiros e das indústrias é de 3 trilhões de dólares por ano ou cerca de 5% do PIB (produto interno bruto) global.
Mundialmente, os níveis de captura de peixes estão próximos da capacidade de produção dos oceanos, com 80 milhões de toneladas de peixes sendo pescados.
Oceanos contêm cerca de 200 mil espécies identificadas, mas os números na verdade deve ser de milhões.
Os oceanos absorvem cerca de 30% do dióxido de carbono produzido por humanos, amortecendo os impactos do aquecimento global.
Oceanos são a maior fonte de proteína do mundo, com mais de 3 bilhões de pessoas dependendo dos oceanos como fonte primária de alimentação.
Pesca marinha direta ou indiretamente emprega mais de 200 milhões de pessoas.
Subsídios para a pesca estão contribuindo para a rápida diminuição de várias espécies de peixes e estão impedindo esforços para salvar e restaurar a pesca mundial e empregos relacionados, causando redução de 50 bilhões de dólares em pesca nos oceanos por ano.
40% dos oceanos do mundo são altamente afetados pelas atividades humanas, incluindo poluição, diminuição de pesca e perda de habitats costeiros.

Saiba mais: disponível em:https://nacoesunidas.org/conheca-os-novos-17-objetivos-de-desenvolvimento-sustentavel-da-onu/

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

O homem branco de origem negra.

Colaborador Roberto Rocha


Os homens brancos sempre foram brancos? Essa pergunta me surgiu ao assistir um programa sobre racismo. Qual a origem do racismo? O racismo sempre existiu ou é uma consequência natural e sociocultural? Se é verdade que o berço da humanidade é a África, então, todos nós éramos negros no início: uma origem sem diferenciação de fenótipos. A questão da raça, quando estudada do ponto de vista genético, é algo muito natural entre qualquer espécie. Aprendi que uma espécie pode ser modificada em algumas de suas características, com base em duas fortes vertentes: a do potencial genético e da resistência do meio. Se a nossa constituição genética de um passado muito remoto, era uma só; e vivíamos num mesmo continente, na linha do Equador, então parece ser fácil explicar que poderíamos ficar por ali, por muitos milhares de anos, sem grandes variações em nosso genoma original. No entanto, nossa curiosidade de conhecer o entorno nos fez ampliar, cada vez mais. os nossos restritos territórios de origem. Em nossas vivências migratórias, fomos deixando pelo caminho um rastro genético de pele negra adaptada aos trópicos. Mas a medida que nos deslocamos para o Norte, os desafios aumentaram. Não estávamos acostumados com tanto gelo. A riqueza da caça abundante equatorial não era a mesma nas terras boreais. Muitas espécies foram exterminadas pela interferência humana no passado - e continuam sendo até hoje - só que num rítmo muito mais acelerado. Logo perceberíamos que somente com muita inovação para manejar plantas e animais é que teríamos alguma chance de continuar a viver em ambientes tão hostis. Por centenas e centenas de anos a melanina superficial foi diminuindo e a cor da pele foi clareando. Uma cultura adaptada às exigências do Norte era agora uma questão de sobrevivência. Tivemos que melhorar a nossa capacidade de caçar, plantar e criar. Algo novo que não aconteceu com nossos ancestrais das florestas dos trópicos. Os grandes animais do gelo que lembravam as espécies africanas foram logo exterminados para servirem de alimento. E agora, o que fazer? Enquanto isso a pele negra que migrara no sentido da linha do equador continuava a encontrar caça abundante e sem problemas com o gelo devastador. Duas correntes então se formaram de uma mesma origem. Os migrantes equatoriais e os migrantes boreais. A vida tropical é menos exigente e oferece tudo que precisamos. Não há necessidade de grandes mudanças. No entanto o fato de termos saído da África nos colocou um enorme desafio que não estávamos acostumados: viver em terras frias. Onde está a caça abundante de um ano inteiro, a qualquer momento, de dia e de noite? Em terra ou nos rios? Nas praias arenosas e nos mangues, ricas em moluscos, crustáceos, e uma infinidade de peixes? O homem do Norte ficou um tanto desolado com pobreza de vida, mas sabia como plantar e colher mesmo em pequenos períodos. Aprendeu a guardar o alimento e ampliou sua capacidade de sobreviver, invadir e se adaptar à nova realidade. Talvez seja esta a principal diferença entre os homens negros que tornaram brancos e os homens sempre negros. Foi uma questão ecológica e cultural. A necessidade faz a hora ou a hora faz a necessidade? Os indivíduos que não souberam se adaptar as novas exigências, sucumbiram. Outros, voltaram para a linha do Equador. Mas alguns ficaram. E por muitos anos aprenderam técnicas novas de se organizar e de observar o que havia nas proximidades. O homem equatorial não precisou se esforçar tanto. Bastava saber caçar e pescar num mundo abundante de vida, os trópicos. O povo do gelo teve que “inventar” novas moradias e se especializou em engenharia de sobrevivência. Foi um passo enorme. No entanto, uma vez aprendida a lição seria mais fácil ampliar suas populações por uma vasta área ainda virgem, embora um tanto pobre, se comparada com as terras tropicais. Se observarmos a maneira com que o homem brando ocupa as terras, vamos encontrar uma estrutura mais “pensada” do que as que são usadas pelas tribos da África e da America do Sul. Enquanto o povo dos trópicos concentrou sua cultura na caça, o homem do Norte concentrou sua cultura em sobreviver em ambientes hostis. Seria coerente pensar que o homem do gelo tivesse uma maneira diferente de pensar e de agir, quando comparado com o homem tropical. Quando se diz que não existe diferença entre a inteligência do negro e do branco, isso parece ser verdade, porque os desafios foram diferentes ao longo da história antropológica. Se todos os homens negros iniciais tivessem ficado no Norte, todos eles teriam os mesmo desafios e uma cultura mais semelhante. Mas isso não aconteceu. O homem do gelo foi obrigado a perceber o mundo de uma forma diferente e a conviver com modelos diferentes daqueles dos trópicos, que fizeram parte da sua história inicial. As savanas são áreas abertas e ensolaradas. A pele negra ajuda a proteger a intensa radiação solar. Mas se o homem negro passar a morar em locais mais abrigados, sob a copa das árvores da floresta equatorial, é muito possível que a sua pele não precise de tanta melanina, e fique mais “acobreada”. Seriam eles os nossos indígenas brasileiros? Não foi a toa que chamaram os europeus de “homens brancos”. Mas vem a pergunta: mas na África nós temos também florestas equatoriais! Porque os homens negros não clarearam nas florestas chuvosas da África? Por que preferiram viver lá, predominantemente nas áreas abertas? Seria por causa dos predadores? Concorrência com outras espécies de florestas mais fechadas? Será que existiram “homens brancos” na África? Como explicar a existência de uma mesma espécie – Homo sapiens – com três fenótipos diferenciados: de pele negra, de pele vermelha e de pele branca? As recentes pesquisas sobre a trajetória histórica da espécie humana e suas adaptações podem nos ajudar a esclarecer tais diferenças.

sábado, 8 de agosto de 2015

A CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE NOS MUNICÍPIOS BRASILEIROS

Colaborador Roberto Rocha

            Biodiversidade é um termo que vem ganhando grande repercussão nos últimos anos. Esse fato decorre da preocupação mundial, cada vez maior, em garantir recursos naturais básicos para as gerações futuras. Estima-se que até o final do século XXI o planeta perderá grande parte de sua riqueza biótica, o que representa séria ameaça econômica. Plantas e animais são recursos renováveis desde que mantenham suas populações geneticamente viáveis. A polinização das flores e a dispersão de sementes, por exemplo, são fenômenos naturais em grande parte envolvendo animais invertebrados e vertebrados de diversas espécies, garantindo assim a sobrevivência das florestas. No entanto esse "reflorestamento natural pelos animais" – mais adequadamente conhecido como “serviços ecossistêmicos” - não costuma ser evidenciado, dando-se preferência ao plantio de mudas e sementes exóticas "pelas mãos do homem”, o que deve também ser organizado através da criação de hortos municipais, sem menosprezar o "trabalho" dos organismos nativos em geral.

            As florestas contribuem para a contenção dos processos erosivos - evitando enchentes e desabamentos - amenizam a temperatura nos grandes centros urbanos, produzem uma série de princípios curativos muito usados pela população, fornecem madeiras para diversos fins, essências, fibras e óleos. As florestas são organismos vivos e dependentes, onde os animais NÃO VIVEM NELA SOMENTE, MAS FAZEM PARTE DELA E SÃO FUNDAMENTAIS PARA SUA SOBREVIVÊNCIA. Justamente por esse motivo é que precisamos conservar nossa biota porque todos esses organismos trabalham gratuitamente para nós, incessantemente. Profissional e tecnicamente falando, quem melhor para recuperar e manter as florestas?

             Outro assunto importante e que tem a ver com a biodiversidade é a conservação dos recursos bióticos que existem nas coleções das águas doce, salgada e salobra. Só mais recentemente é que os invertebrados foram considerados em nossas listas de espécies ameaçadas. São seres bem diferentes daqueles que vivem nas florestas de terra firme, nem por isso menos importantes. Rios, lagos, lagoas, manguezais, estuários, mares e oceanos, fornecem uma incrível quantidade de proteína para as populações humanas de diversos continentes do planeta. E embora os peixes façam parte da fauna – porque são zoologicamente assim classificados – você encontra esses organismos sendo comercializados em feiras e mercados sem que isso seja percebido como uma transgressão legal, embora seja proibida por lei que os animais pertencentes ao patrimônio nacional sejam explorados pela sociedade sem estudos e autorizações cientificamente orientadas. As estatísticas brasileiras sobre o volume de peixes capturados na costa atlântica brasileira são incompletas e falhas. Carecemos de equipes especializadas em recursos marinhos. Estamos exterminando espécies que não chegaram nem mesmo a ser classificadas, totalmente desconhecidas. Daí a necessidade de nos preocuparmos com a boa qualidade da água e os perigos da erosão e assoreamento nesses ecossistemas, porque somente livres de poluentes e de outras alterações físicas é que poderão manter e permitir a reprodução das populações vegetais e animais que dela dependem, tanto ou mais do que nós.

            Apesar de termos conhecimento do valor desses recursos - e do mal que lhes temos causado - muito pouco temos realizado para reverter a atual situação. Precisaremos, urgentemente, acelerar esse processo de restauração ambiental para resguardar a nossa própria sobrevivência, seriamente ameaçada. Assim, torna-se necessária a real participação governamental, especialmente a nível do município porque está mais próximo dos problemas e pode melhor controlá-los. Muitas vezes, mais do que recursos financeiros e humanos, o que falta realmente é a vontade política, que desencadeia as demais. Os municípios precisam se organizar melhor para atuar em seus ecossistemas, preservando-os ou recuperando-os, ao invés de esperar somente que o Estado resolva a maioria de seus problemas, como normalmente acontece. Para orientar procedimentos e outros atos oficiais esperados por parte das Prefeituras, estamos apresentando as seguintes sugestões:


1- Que os assuntos referentes ä flora e ä fauna sejam tratados em conjunto sob o título CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE.
          2- Que os ecossistemas que ultrapassem os limites políticos do município sejam estudados e manejados em conjunto com os municípios vizinhos, para que não haja descontinuidade e desigualdade de tratamento nos assuntos ecológicos - que desconhecem limites político-geográficos. Normalmente as bacias e micro-bacias hidrográficas são as unidades aconselháveis para desenvolver estudos e planos.
          3- Que sejam criados e considerados prioritários SERVIÇOS, DIVISÕES E DEPARTAMENTOS, que atuem sobre o tema BIODIVERSIDADE MUNICIPAL, o que não impedirá ações em conjunto com universidades, organizações não governamentais, associações de moradores, entidades religiosas, clubes de serviço e outros segmentos da sociedade que possam colaborar nesse trabalho integrado.
         4- Que as equipes que fiscalizam o uso dos recursos naturais do município, sejam treinadas nos temas ambientais onde deverão atuar, para o adequado desempenho de suas funções.
        5- Que o orçamento municipal priorize recursos financeiros para equipar e manter as equipes de fiscalização e auditoria ambientais.
     6- Que para seleção de áreas a serem protegidas sejam consideradas  não somente aquelas indicadas pelo Estado como Unidades de Conservação, mas também  quaisquer outras que sejam vitais para a manutenção da boa qualidade de vida do  município.
       7- Que a fiscalização seja rigorosa nas áreas que sofrem pressões fortes com destruição de formas jovens de animais, suas larvas e ovos, como é o caso das ilhas, praias, costões rochosos, manguezais, lagunas, brejos, etc. A poluição, na maioria das vezes, mata muitos  animais microscópicos que não são visíveis a olho nu. A quantidade desses seres é infinitamente maior do que todos os adultos que podem ser colhidos mortos ou fotografados para notícias em  jornais.
       8- Que na delimitação de áreas de importância ecológica para a flora e a fauna se dê prioridade àquelas que possuam maior extensão e continuidade de cobertura vegetal, sem maiores interrupções entre elas. É preciso também lembrar que áreas degradadas não são sinônimos de áreas irrecuperáveis, devendo essas serem também consideradas para a salvaguarda de recursos naturais, mesmo que se tenha que atuar alguns anos para resgatá-las, como é o caso de manguezais e restingas que foram perturbados ou seriamente modificados em suas áreas de origem. Para tal, se estimulará a regeneração natural através de  cuidados e técnicas diversas, além do plantio de sementes e  mudas, entre outras.
     9- Que no monitoramento dos impactos ambientais causados pela poluição atmosférica, hídrica, do solo etc, sejam incluídos também os malefícios que causam sobre as plantas, animais selvagens e seus ecossistemas, e não somente em relação ao homem, porque se o equilíbrio biológico ficar prejudicado as consequências redundarão em prejuízos humanos.

    10- Que ao lado de ações fiscalizadoras e punitivas seja implantado um amplo programa de educação ambiental no município desde a pré-escola, de modo a atingir o maior número possível de públicos, incluindo-se neles, principalmente, os empresários e políticos locais.
            Eis aí os 10 princípios básicos que sugerimos cuja viabilidade dependerá, fundamentalmente, da sensibilidade dos poderes decisórios municipais e da própria comunidade em relação ä causa conservacionista. O mais é sair do discurso para a prática, de modo que os lucros auferidos passem a ser contabilizados sob uma nova forma de investimento, que muito mais que valores financeiros acumulam reconhecimento público, seriedade administrativa,  respeito ao próximo e à vida.


sábado, 28 de março de 2015

Ainda em París?


Colaborador ROBERTO ROCHA

A insensibilidade e a ignorância em relação às questões de preservação do nosso patrimônio é facilmente explicável porque os atuais ditos “brasileiros” que estão no poder empresarial são na verdade “europeus em terra estranha”; muitos deles mestiços, porque seus ancestrais recentes se acasalaram com negros e índios. Indígenas (brasileiros autênticos) e africanos não mestiços (também autênticos), representam o melhor grupo humano que compreende o valor do equilíbrio ambiental tropical, porque possuem tradições milenares. E a nossa tradição brasileira – construída a partir de estratégias de países do gelo – qual é? Em pouco mais de 500 anos, nosso equivocado modelo de uso da terra mostrou seus erros. Os índios, “ditos incivilizados” – porque não acompanharam a “civilização” dominante da Europa – foram exterminados para que novas populações exóticas ocupassem o mesmo espaço, alardeando seus modelos de exploração. Os índios não “exploram”: eles “convivem”! Os indígenas preservaram nossas florestas, rios, praias, lagoas e tudo que se possa imaginar, durante “milhares de anos”. Lamentavelmente não valorizamos a nossa (?) própria história. O que somos hoje? Fruto de um modelo da idade moderna, antropocêntrica, que – apesar do apelo da época (que gritava nas ruas da França pela liberdade, igualdade e fraternidade) – estimula a ausência do Estado nas questões fundamentais e privilegia fortemente o privado para interferir no que é público. É verdade que estamos hoje num caminhar doloroso, aprendendo com nossos graves erros do passado, tentando consertar parte do que ainda tem conserto. Mas como consertar a alma? O sentimento de perda vai ficar. A ferida pode até fechar! Pode não doer mais. No entanto, não podemos esquecer que nosso DNA original está vivendo aqui como exótico e invasor. Trouxemos conosco nossos acompanhantes também exóticos e invasores (boi, cavalo, porco, cachorro, gato, galinha etc). Que justamente por isso, temos uma enorme dificuldade de entender a estratégia indígena de ocupação e uso do espaço. Que justamente por isso somos incompetentes em lidar como a gestão de ecossistemas tropicais. O Rio de Janeiro do início do século XX parecia Paris. As pessoas (os privilegiados) se vestiam como se estivessem na Europa. Somos uma continuação deles. Precisa dizer mais?

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Sustentabilidade: a saída, onde está a saída?

Colaborador Roberto Rocha

Acho que nosso maior desafio é compreender que nós não somos "gente" como todo mundo acredita. Somos apenas um conglomerado provisório de partes dos diversos compartimentos do planeta (atmosfera, hidrosfera, geosfera) organizados conforme cada genoma particular. Temos sim uma outra parte cósmica, pensante. Mas a nossa cultura egoísta deturpou o conceito de que pertencemos ao todo. Pensamos e agimos -  equivocadamente - como se fôssemos criaturas independentes da natureza. Esse erro nos torna, falsamente, poderosos demais; e nos incentiva a interferir nos sistemas sem maiores cuidados. Ocorre que a nossa capacidade de intromissão é outra ilusão. Nós não podemos salvar o planeta. Precisamos salvar a nossa pele, enquanto "ELE" está nos tolerando.  É possível que chegue um ponto em que Gaia não nos tolere mais, e nos elimine com alguma onda de vírus letais ou de "desastres" corretivos. Nada incomum. A química dos compartimentos já mudou diversas vezes na história dos bilhões de anos do planeta. E nós - que chegamos aqui no outro dia - arrogantemente, nos colocamos com "criaturas especiais". Pobre homem! Pobre intenção. Quando é que vai cair a ficha? Os modelos de funcionamento dos serviços dos ecossistemas são nosso norte. Não temos que inventar mais nada. Precisamos apenas observá-los e aprender com eles. Quem está interessado nisso num mundo capitalista? Num contexto materialista e que coloca o homem como centro do mundo? O homem não é centro!  É parte. Frágil, dependente, efêmero. Este pode ser um caminho. 

domingo, 30 de junho de 2013

A luz e a escuridão

Colaborador Roberto Rocha

Quando dizemos que o Sol nasce no Oriente e morre no Ocidente, todos os dias, isso não é uma verdade. É apenas a nossa ilusão de perceber o mundo, incorretamente, parcialmente. E quantas vezes já tomamos decisões em nossas vidas com base nessas percepções ilusórias? Nada nasce ou nada morre! O que temos é uma transformação e fluxo. São ciclos que se repetem como o pêndulo que vai e que tem que voltar; procurando o centro, o equilíbrio. No entanto, a força inicial que o desloca, sofrerá pressões e interferências, até que ele pára.
O Universo se expande como se ele estivesse indo para algum lugar infinito. Mas não chegará até lá! Num dado momento em que atingir sua expansão máxima ele terá cumprido sua missão. Como a chama de um fósforo que explode em energia, logo se estabiliza, e no final se apaga. Acender um fósforo é compreender o que acontece com o universo. O que acontece ali nos faz refletir sobre a vida em geral e a nossa própria vida. Será que temos uma real noção de como usamos nosso breve momento energético? Procuramos ser úteis e felizes nessa breve explosão chamada vida? Curtimos cada momento repartindo o amor e a compreensão? Ou ficamos estacionados no passado? Que perda de tempo! Justamente quando sabemos que viver é uma dádiva; uma oportunidade ímpar para a nossa própria evolução (=expansão?). A breve centelha logo se apagará! E o que será que ele energizou em nossa volta até então? Bondade? Tolerância? Amorosidade? Generosidade? O que, afinal? 
Quando amanhecer: olhe para o Sol! Compare-o com a  sua vida. Perceba que ele vai amanhecer no Leste e entardecer no Oeste. Que seu brilho mais intenso (conforme nossa percepção)  será ao meio-dia. Depois, a intensidade luminosa começará a diminuir (outra vez, apenas a nossa percepção). E então, tudo escurece, como numa floresta sem humanos e sem luzes artificiais. Esse breve momento nos ensina uma lição: aproveite o seu dia iluminado! Não o consuma ruminando desafetos e sofrimentos. É uma opção nociva de viver. Um desperdício é um desrespeito à dádiva de existir e de estar no mundo. Agradeça tudo o que vier e o que virá, até que o poente se apresente. Acredite que amanhã você terá outra oportunidade de tentar, caso não consiga, iluminar outra vez o seu mundo particular. Tenha esta certeza como o Sol voltará para você uma vez mais. Ele estará lhe dizendo: não desista! Tente outra vez! O próprio Sol nos diria: "eu vivo nascendo e morrendo, a cada dia e a cada noite, na esperança que o mundo acorde e durma em paz. Não tenho nenhuma certeza disso! Mas eu sempre volto e ilumino a todos, sem restrições. Alguns se escondem de mim, e permanecem nas sombras, em cavernas escuras. Outros me olham rapidamente, e logo se retiram para suas tocas seguras. Não me importo! Ofereço a cada um a oportunidade de decidir o seu dia. Sem  pressões. Se não mudar nada, voltarei amanhã, outra vez, como faço há muito tempo, desde que comecei a me expandir". Como vemos, apesar da disponibilidade do Sol, só nos tornaremos melhores se desejarmos mudar algo em nossa vida, por nossa própria conta, ou com a ajuda de outras pessoas. O Sol ainda vai se manter acesso por alguns milhões de anos, com ou sem a nossa presença. O que recebemos dele é apenas um breve punhado de energia que se dissipa em nossa provisória matéria geneticamente organizada. Em breve, teremos que devolver tudo isso ao todo. Nos diluiremos no todo uma vez mais. Não sei para onde irá parte da minha água ou dos sais do meu corpo. Quem sabe para um oceano! Ou para o osso de uma ave! Talvez em algum verme do solo! Ou na estrutura de um vírus! Mas uma coisa eu sei: o Sol nascerá outra vez!  Dará nova chance para todos que desejarem recomeçar alguma coisa. Corrigir algum desvio; perdoar alguém! Se não for hoje, poderá ser amanhã. Mas com certeza o Sol estará lá, o tempo todo; com seus raios vibratórios, estando eu alegre ou triste. Ele cumprirá seu papel de oferecer luz. A partir de seu exemplo, eu devo fazer o mesmo; inda que não tendo a sua magnitude e nem a sua benevolência. Sou um pequeno sol, com uma pequena chama. Com ela vou escolher novos caminhos, que antes eu não via. Vou imitar o Sol.  Sair da noite e conhecer o dia. Clarear o entorno com a minha pequena luz. Quem sabe, nessa busca, eu também possa orientar alguém a sair da escuridão...   
(RRS, 3 jun. 2013)

sábado, 29 de dezembro de 2012

Pensando num futuro já.



Colaborador: Roberto Rocha
 
Como o mundo realmente não acabou, fico muito satisfeito em continuar a curtir tudo o que eu gosto e a estar sempre disposto a ver as coisas desagradáveis como caminhos de aprendizagem em vez de motivos de sofrimentos e lamentações. Sofrer por sofrer não muda nada. Alias, muda sim: a minha cara e a minha disposição para estar no mundo. Andar com a cara triste e amarrada só afasta as pessoas. Se desejar  fazer alguém feliz, comece por você! A felicidade se irradia. Nesse momento conturbado do planeta estamos precisando de pessoas otimistas e alegres, bem humoradas. É uma questão de condicionamento e de desejar estar assim. Nosso livre arbítrio nos deixa à vontade para decidir o que queremos fazer de nossas vidas. Se formos pessimistas, assim será a sua vida. É certo que a vida não é um mar de rosas, mas também ninguém se aguenta banhando-se em fogo e sangue. É como fôssemos um rio a alimentar um grande oceano. Se agora só depositamos mazelas, teremos um mar de mazelas no futuro. Inda bem que tem gente que derrama somente coisas boas nesse oceano e as mazelas podem ser até diluídas. É um bom momento para perguntar: o que você tem derramado no oceano do mundo? Entendo que seu oceano particular possa ser sujo e mal cheiroso. Mas quando vamos derramar algo no mundo, vem a preocupação de que devemos respeitar o "outro". Nesse final de 2012, dizem que termina um ciclo longo para iniciar um outro, certamente promissor e transformador. Ninguém aguenta mais os absurdos que imperam na Terra: as desigualdades sociais, a exclusão, a ganância, o desrespeito ao próximo e tantos outros. O mundo globalizado está ruindo porque não soube administrar o seu próprio paradigma. A busca por um PIB cada vez mais alto deixou os países desenvolvidos cegos nos próprios caminhos que construíram sem maiores cuidados. A sociedade está mudando. Não está mais aceitando imposições incoerentes e descomprometidas. Os próximos anos serão decisivos para traçar um futuro mais equilibrado e menos agressivo. Se não for por motivos econômicos e sociais será por motivos ambientais, tipo aquecimento global ou algo semelhante. De que vale tanta tecnologia se ela não é capaz de controlar os desastres do mundo. Podemos apenas "prever e registrar" o tempo de hoje ou de alguns dias. Simulações podem ajudar mas há sempre um fator de erro embutido nelas. Com toda a parafernália atual não somos capazes de deter um terremoto ou um tsunami. Ventos de 150 km brincam com as nossas frágeis estruturas. Resta rezar os entes queridos. O lema mais importante para a economia deveria ser: quanto "mais complexos" forem os sistemas naturais, mais lucrativos eles serão para TODOS. A questão é que o lucro perseguido nos últimos séculos tem sido apenas para ALGUNS, com base na "simplificação". Florestas inteiras são destruídas para a implantação de monoculturas e pecuária, numa demonstração equivocada de modelo "produtivo". Ora: o que será mais produtivo do que uma floresta inteira? Com milhares e milhares de espécies? Guardando água em seus corpos minúsculos como se fossem um verdadeiro oceano terrestre! Oceano terrestre sim! Já pensou nisso! Existem rios que voam e oceanos terrestres! Estranho não é? Precisamos inovar e pensar "diferente" do que nos dizem por aí. Pensar é preciso! Refletir é preciso. Para que não tenhamos a desconfiança de que estamos sendo cúmplices de um grande crime planetário, anestesiados ou não, mas que será cobrado por nossos netos e bisnetos. Boas reflexões para 2013... 

domingo, 23 de setembro de 2012

Falando de gerações e de emissões

Colaboradora Roberta Cordeiro da Cruz
Muitos de nós já ouviram falar que no século passado, na época em que nossos avós eram bem jovens, o clima não era da forma como hoje se apresenta. As estações eram mais facilmente reconhecidas por suas características bem definidas. Nossos ascendentes conseguiam até prever, com certa precisão, acontecimentos climáticos de menor importância e assim tinham como planejar melhor pequenas decisões.
Decorrido menos de um século entre nossas gerações, já não podemos ter a mesma certeza de como será o tempo no dia seguinte, mesmo com toda a tecnologia avançada que dispomos atualmente para a previsão de furacões, tempestades, etc.

Mas o que está faltando para que o homem possa “dominar” as intempéries dos dias que virão?
O homem moderno deixou sua conexão com os elementos naturais e passou a ser altamente dependente da tecnologia que produziu.
 
Hoje, o “homem do campo” ─ aquele antes conectadíssimo com a natureza ─ é tão dependente desta tecnologia moderna que passou a ser apenas um “homem no campo”.
 
E os raios?! Ah! Os raios...
 
No Brasil, segundo os dados do INPE, metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro apresentam uma quantidade de raios muito superior aos dados do século passado. Isso sem mencionar a quantidade de descargas elétricas que partiram do solo em direção às nuvens!  

Os fins de tarde têm apresentado, com frequência, rajadas fortíssimas de vento que balançam janelas e provocam, em poucos minutos, a queda de árvores centenárias, problemas na fiação dos postes e muito mais. As previsões feitas por esses cientistas afirmam que até o final deste século teremos o dobro de enchentes de grandes proporções o que acarretará problemas das mais variadas ordens.
Seria uma resposta de GAIA aos seus parasitas?
 
Uns afirmam ser o tal aquecimento global o culpado por todas as alterações climáticas que aí estão, enquanto outros (uma minoria) dizem que ele não existe.
 
Bem, o fato é que evidências científicas mostram dados fiéis que indicam um rápido aumento da temperatura global. Neste contexto, o ser humano é o protagonista da situação perigosa em que se encontra o planeta, e que isso não é apenas mais um processo natural em andamento.
Sim! A Terra passa, naturalmente, por períodos de aquecimento e de resfriamento. São ciclos naturais.
 
Podemos até continuar a discutir as variações de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera, relacioná-las às médias de temperatura para um mesmo período passado e compará-las com os dados atuais. Contudo, o que já sabemos é que quando a temperatura global começa a aumentar, a concentração de CO2 aumenta também e vice-versa; e esses dois fenômenos se realimentam há séculos e sempre se alternam.
 
Porém, quando atualmente nos referimos ao aquecimento global não estamos tratando dos ciclos naturais pelos quais a Terra passa. Estamos sim, relacionando os impactos das atividades humanas que incrementam o aquecimento global (artificial e adicional) àquele já provocado por ciclos naturais de resfriamento e aquecimento.
 
Segundo dados do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), existem hoje 400 ppm* de CO2 na atmosfera comparados com 300ppm* nos séculos anteriores à revolução industrial.
 
Portanto, concluímos que o homem não é quem gera o aquecimento global, que é um fenômeno natural, mas é ele quem contribui, a passos largos, para acelerar este aquecimento.
 
A última década apresentou a média de temperatura mais alta da história do planeta e mostra que o clima está mudando rapidamente. É esperado que a temperatura global aumente de 2 a 6 graus Celsius até o final do século.
 
Então, não podemos dizer, simplesmente, que devemos nos adaptar às mudanças. Temos a obrigação de reduzir significativamente nossas atividades industriais começando por diminuir, imediatamente, o consumismo descontrolado que contribui com grande parcela para essas alterações climáticas. Reformular velhos hábitos pode parecer pouco quanto à contribuição individual que podemos dar, mas se somarmos nossos esforços, o total destas atitudes renovadas nos mostrará que podemos direcionar melhor nosso futuro.
 
E o que esperamos para o Brasil? Que os governantes se comprometam, verdadeiramente, na implantação e execução de políticas públicas sérias! Que a educação seja realmente levada a sério! As gerações economicamente ativas, que já se estabeleceram, estão corrompidas e devemos, portanto, reformular o plano brasileiro para o futuro que queremos.
 
Já parou para pensar no que está acontecendo com a Amazônia, o Cerrado e o nordeste do nosso país? As previsões não são nada animadoras. A floresta amazônica está se transformando em áreas de pastagens tendo sua biodiversidade totalmente arrasada pelo agronegócio. E quem pode afirmar que ela não se transformará em uma enorme savana? Seu clima e, até o de todo o território nacional, pode ser definitivamente alterado. O cerrado é explorado e devastado sem nenhuma responsabilidade e o nordeste, em breve, será uma grande área desértica. Diminuirão as chuvas, e o sudeste e o sul do país também sofrerão severas consequências.
 
Há futuro para um sistema capitalista onde a economia está permanentemente em conflito com a natureza?! Como mobilizar pessoas do mundo todo e fazê-las entender que precisamos mudar a civilização atual por uma que tenha hábitos mais sustentáveis? Não precisamos fazer voto de pobreza para que isso aconteça. Talvez uma boa sugestão seja aderirmos ao consumo consciente e uma distribuição de renda mais justa e equitativa entre as diferentes classes da sociedade mundial, para chegarmos a uma única classe.
 
Utopia?!!!! Não! Necessidade. Ou todos, sem exceção, seremos apenas um capítulo indigesto na história de Gaia.

* ppm – partes por milhão

domingo, 9 de setembro de 2012

O homem da toca e o homem da oca.



Colaborador Roberto Rocha
 
Recentemente, examinando mapas da América do Sul observei que a Amazônia é o principal centro de megadiversidade do planeta. As grandes áreas verdes concentradas ao longo da bacia amazônica me induziram a perguntar: por que o Norte? Por que não o Sudeste? A resposta veio rápida: isolamento e abundância de água ! Perfeito ! Os organismos precisam de água para manter suas trocas metabólicas em meio às organelas, células, tecidos, órgãos, sistemas e qualquer outro tipo de organização viva. Considerando não só o volume mas também a qualidade, poderíamos também incluir o Brasil Central, não fosse o arraso florestal para o agronegócio que descaracterizou boa parte de sua original estrutura. A prática do "arraso" foi trazida para o Brasil pelos europeus, como opção rápida e objetiva para a implantação de culturas de interesse econômico imediato.  O modelo dos  europeus autênticos - o povo da toca - continuaria a ser usado nos séculos seguintes, desta vez também pelos eurodescendentes, um genoma já diferenciado de sua origem boreal (do Norte) porque a cor da pele, o cabelo, a estatura, a cor dos olhos, o modo de falar, o consumo de alimentos - os mais diversos - teriam um impacto significativo na formação do "brasileiro". Os povos autênticos dos trópicos - o homem da oca - não tinham a preocupação de plantar e colher em grande escala. Não precisavam de dinheiro e nem de acumular bens. Os seus "bancos" eram de madeira, artisticamente trabalhados, com base em tradições milenares, e quem sentava neles eram os tesouros em forma de gente, o pequeno curumim. A sabedoria de muitos séculos era passada para cada um deles, sem escolas formais, nem professores remunerados. Apenas a voz no silêncio da mata; interrompida por algum canto de ave, na observação atenta do entorno, rico em biodiversidade, plantas medicinais, ar puro, solo sem agrotóxicos. Alimentos de cores variadas, animais abatidos, penas coloridas, urucu e jenipapo. Danças, lutas e torneios. Que riqueza! E ainda os chamavam de "incivilizados"! Os mais sanguíneos foram abatidos porque versava na época que eram belicosos e que ameaçavam as aldeias. A idéia de "invasão" de território alheio não era cogitada porque na verdade tratava-se de uma "colonização".   Seria certamente algo eticamente correto considerando-se as convicções do momento e do contexto histórico vivido. Podemos hoje criticar tais acontecimentos, mas isso seria inviável para uma Europa que fervilhava em idéias de um tempo moderno. O mercantilismo era a prática do momento. A renascença era algo distante para um país de tradições indígenas de milhares e milhares de anos. Os "índios" viveram aqui todo esse tempo e preservaram todos os nossos biomas. A cobertura florestal brasileira em 1500 era algo invejável. A convivência com a cultura européia modificou drasticamente a biodiversidade brasileira em pouco mais de 500 anos. A cultura africana tribal era semelhante a dos nativos mas também foi influenciada pelos homens da toca, ou homens das cavernas. Essa alusão prende-se ao fato de que os hominídeos primitivos ocupavam as tocas de animais carnívoros porque ali tinham um abrigo seguro onde uma única entrada poderia ser vigiada e defendida com maior facilidade. Os indígenas construíam suas "ocas" com material reciclável, da própria natureza. O brasileiro de hoje é um rico repositório de variados genes e culturas adaptadas. O homem da oca perdeu boa parte do seu território para o homem da toca. Suas pequenas "vilas" foram substituídas pelos tijolos de concreto fumegantes, pela impermeabilização do solo, pela substituição das flores naturais por flores e folhagens de "plástico", perfeitas... Como dizer que todas essas conquistas não nos tornaram mais felizes? Você não é feliz? O que importa se uma cultura de mais de 20.000 anos foi relegada? Nós vencemos! Estamos por aqui com a nossa avançada tecnologia. Com fertilizantes que permitiram explodir a população do mundo e somente um bilhão de pessoas ainda vive na linha da miséria. O aquecimento global é uma invenção de alguns cientistas malucos. Estamos resgatando todas as espécies ameaçadas da Terra. Nossa longevidade aumentou e podemos até substituir nossos órgãos defeituosos originais por peças mecânicas certificadas. Qual o mal de tudo isso? É apenas uma questão  de estratégia de sobrevivência! Vence o mais ardiloso. O mais astuto. O mais bem equipado. O mais bem armado. A questão é que um oceano isolou por muito tempo duas culturas distantes, que resolveram seus problemas com modelos muito diferenciados. Infelizmente os europeus, homens da toca e do gelo, não tinham conhecimento da cultura indígena e de sua sábia maneira de explorar os recursos da terra sem ter que derrubar as florestas intensamente. Foi, e continua sendo, o maior equívoco de uso racional de todo um continente. Embora com uma tecnologia avançada não sabemos como cada bioma tropical funciona. O conhecimento e a valorização dos serviços dos ecossistemas ainda não são prioridades dos modelos de produção. Continuamos apostando no NPK e nos agrotóxicos, no desmatamento de florestas complexas para serem substituidas por monoculturas e criação de animais da Eurásia. Sou um homem da toca! Mas tenho um respeito e uma admiração, sem limites, pelos homens da oca. O pó de cada antepassado deles está aqui, com certeza. A água dos seus corpos circula nos rios, nas nuvens e na estrutura de cada organismo desse espaço. Os meus ancestrais ficaram em outras terras, além do oceano, num país frio, ao Norte...

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Existe uma separação entre o homem e a natureza?


Roberto Rocha

Os hominídeos da pré-história não tinham o domínio da ciência e das artes como conhecemos hoje.  No entanto, deviam perceber nuances da natureza que, nós – Homo sapiens mais “modernos” – esquecemos ou anestesiamos com luzes e cores muito fortes e apelativas e sinais rápidos e convincentes.   É possível que ainda na Idade Antiga existisse uma busca pela compreensão do que seria a natureza, habitada por seres que sentiam (mundo orgânico), e não por peças frias, como ocorreria nos séculos seguintes.
A idéia aristotélica de natureza como algo animado e vivo, na qual as espécies procuram realizar seus fins naturais, é substituída pela idéia de uma natureza sem vida e mecânica. A natureza de cores, tamanhos, sons, cheiros e toques, é substituída por um mundo “sem qualidades”. Um mundo que evita a associação com a sensibilidade (GRÜN, 2000, p. 27).
O mecanicismo substituiria essa idéia inicial e novas contribuições seriam incorporadas através da participação dos grandes pensadores da época, tais como Galileu Galilei (1564-1642), Francis Bacon (1561-1626), Descartes (1596-1650) e Isaac Newton (1642-1727). A revolução científica traria contribuições relevantes para orientar a nova ordem social e econômica.
A modernidade teria René Descartes como principal mentor da objetivação da natureza em sua tentativa de dominá-la e, ao mesmo tempo, manter a autonomia da razão (sujeito).
A física newtoniana, por sua vez, influenciará a educação:
A possibilidade de uma descrição da natureza estabelecida pelo programa newtoniano não define um simples conceito de natureza. Esta possibilidade define um modelo de interpretação do mundo sustentado no modelo explicativo mecânico-causal. O modelo atomístico reducionista irá estabelecer as estruturas conceituais dos currículos e, mais do que isso, ele passará a ser a única forma possível de conceber a realidade. De um certo modo ele passa a ser a própria realidade. Neste período todo um corpo de saberes ecologicamente sustentáveis é deixado de lado no currículo por não ser científico, ou seja, por não ser mecanicista (GRÜN, 2000, p. 41).
Segundo Prigogine (1991 apud GRÜN, 2000, p. 57) “a mecânica clássica negou as questões mais “evidentes” que a experiência das relações dos seres humanos com o mundo suscita porque era incapaz de lhe dar um lugar”. O abandono do modelo cartesiano-newtoniano na educação e a sua substituição por práticas mais amplas tornar-se-á uma tarefa hercúlea. Um dos motivos que explicam esse reducionismo ainda em nossos dias é a dificuldade de concebermos o meio ambiente como um “todo” preferindo a dualidade fictícia homem-natureza como se ela fosse real.
Reigota (1994) explica que os conceitos científicos sobre o que seja meio ambiente “são de conhecimento geral pelos pesquisadores”.  No entanto, o senso comum também elabora suas definições com base em preconceitos e ideologias, surgindo assim diferentes definições sobre um mesmo tema. 
Ao examinarmos as definições populares que procuram explicar o que seja meio ambiente uma das mais comuns é: “tudo que nos envolve”!  Como se nós não estivéssemos fazendo parte do mesmo contexto.  Algo que está afastado de nós, como se não nos afetasse diretamente. Nós estamos aqui, e a natureza está lá! Quando precisamos dela, nós a usurpamos. Apesar disso, definições mais recentes como a que foi apresentada no documento de Tbilisi (UNESCO, 1980), inclui os valores humanos em sua recomendação n. 2: “o conceito de meio ambiente abrange uma série de elementos naturais, criados pelo homem, e sociais da existência humana, e que os elementos sociais constituem um conjunto de valores culturais, morais e individuais, bem como de relações interpessoais no trabalho e nas atividades de lazer”. Mesmo nessa abordagem mais ampla, o homem não está – claramente – sendo chamado de “ambiente”, e os elementos parecem estar classificados em categorias diferenciadas.    
Apesar de vivermos em pleno século XXI, permanecem ainda presentes diversos conceitos que procuram explicar um mesmo tema, causando assim alguns equívocos. As leituras fragmentadas dificultam a compreensão do meio ambiente como um todo. A abordagem do assunto a partir de uma vertente socioambiental exige uma profunda reflexão sobre os nossos procedimentos atuais: “os problemas que o cartesianismo coloca para a educação ambiental são problemas que enquanto não tratados comprometem as próprias condições de possibilidade da educação ambiental” (GRÜN, 2000, p. 58).
            Ao afirmarmos “somos ambiente” a mensagem soa mal aos ouvidos porque temos dificuldades em aceitar que quase todo o nosso corpo é feito de água, sais minerais, gases e outras substâncias. Nosso orgulho de ser uma criatura inteligente nos afasta da simplicidade e do banal, por nos considerarmos especiais. No entanto, é na morte que percebemos nossas reais limitações e vamos nos juntar à terra outra vez. Voltar a ser um verme, ou um fungo, como éramos antes de assumir nosso corpo. “Nossa” água e nossos sais vão vagar por aí. Quem sabe, subir  pelas raízes das plantas, e se instalar em algum fruto ou folha, que irão fazer parte da refeição de alguém? Vamos voltar ao pó, de onde viemos!  Enquanto isso não acontece, continuamos iludidos de que realmente fazemos diferença no mundo. Que o mundo nos pertence e existe somente para nosso uso e deleite. Na ânsia de criar e produzir estamos desrespeitando regras de ouro, que nos convidam a viver em harmonia, em cooperação, mas não exatamente com o extermínio da nossa própria espécie e das outras, numa competição acirrada pelo poder e domínio. Acordar é preciso! Mas não de nosso sono corriqueiro.  Precisamos acordar de uma  viagem equivocada que se dirigiu para um ponto fictício, onde corremos um grande risco de chegar e encontrar nele apenas decepção e sofrimento.

   REFERÊNCIAS

 GRÜN, Mauro. Ética e educação ambiental: a conexão necessária. 3 ed. São Paulo: Papirus, 2000.

REIGOTA, Marcos. O que é educação ambiental. São Paulo: Brasiliense, 1994.

UNESCO (United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization). La educacion ambiental: las grandes orientaciones de la Conferencia de Tbilisi. Paris: ONU, 1980.


domingo, 6 de maio de 2012

As florestas: modelos complexos de organização, sobrevivência e uso do espaço.

Ao penetrarmos numa floresta é comum sentir uma sensação de algo um tanto estranho aos nossos olhos tão acostumados com as linhas retas do concreto e o preto das impermeabilizações betuminosas. As florestas nos dão a sensação de paz e a presença de energias suaves que nos convidam à meditação e à aproximação com o sagrado. O ar úmido e ameno não nos lembra o ambiente das avenidas movimentadas e o barulho de conversa alta ou aos gritos, para chamar a atenção de algo supérfluo e dispensável. Na floresta o silêncio é uma questão de sobrevivência. Cada canto, cada som e cada ruído, têm um significado e uma mensagem para quem possa percebê-los. As cidades também são cheias de ruídos, muitos sons, numa parafernália que se apresenta como organizada, mas que retrata uma desesperada necessidade de convencimento de que algo é indispensável a sua vida. Nas florestas não existem apelos. Os nascimentos e as mortes ocorrem de modo imperceptível, fora alguns gemidos, com o mínimo de alardes nesses acontecimentos tão especiais. Nas cidades temos lugares para nascer e para morrer, chamados de maternidades e cemitérios. Não existem cemitérios em lugares especiais nas florestas. O conceito de cemitério é do homem. Com epitáfios e monumentos, ou apenas envolvido num pano barato, acomodado num buraco raso, com ou sem lágrimas. Nascer e morrer numa floresta é reciclar matéria e fazer fluir a energia, sem grandes sentimentos. Alguns insetos sociais possuem comportamentos semelhantes aos dos homens, como as formigas, em suas cidades de barro, com túneis escavados, depósitos de alimentos, ventilação etc. Muitas coisas nós poderíamos aprender com elas. Quando se movem, parece haver um maestro invisível que comanda a todos, sem erros. Não há lixo nos caminhos. Os resíduos são todos imediatamente tratados para o bem-estar de todos, como uma necessidade urgente. Algumas cidades possuem também seus sistemas sanitários, mas nem todos são tão eficientes. Do ponto de vista social somos um tanto diferentes das formigas e de outros animais porque lidamos com questões morais. Por exemplo, nossa cultura nos impregnou com a idéia de que urina e fezes são abomináveis, causam mau cheiro, não são agradáveis de ver. Os animais às vezes também urinam em determinados locais, mas não se preocupam com atentados ao pudor. Esvaziam suas bexigas por razões gravitacionais e fisiológicas como nós, e todos aqueles nutrientes serão logo usados por outros seres menores, como alimento. Dejetos são alimentos! Criam novas vidas. São verdadeiras dádivas divinas nas florestas, que alimentam milhões de decompositores que não vemos. Nas cidades os dejetos são repudiados. Mas já temos alguns humanos que aproveitam esses resíduos pastosos para produzir gás e como fertilizantes naturais. A floresta faz isso há milhões de anos. Nós é que não valorizamos tais soluções. Intitulamo-nos civilizados e inovadores, mas apenas copiamos o que outras criaturas “insignificantes” já sabem fazer com sucesso absoluto. Mas como explicar ao nosso ego que somos frágeis e ignorantes? Que somos apenas copiadores imperfeitos e envaidecidos? Da Vinci já sabia disso. O gênio foi um imitador perfeito da natureza, ela sim, a verdadeira fonte de soluções e modelos para nos ensinar o que fazer e como resolver situações que afligem a nossa espécie.  Nas florestas ninguém é superior a ninguém. Todos possuem as mesmas chances para serem convidados a fazer parte da “festa da natureza”. Cada um tem seu espaço e sabe o que fazer nele. Respeita o outro. Pode até mesmo matá-lo, mas não existe nisso nenhuma maldade, nem crime, nem ódio ou desavença guardada. As florestas são lugares sagrados e todas as suas criaturas são deuses. A floresta funciona como uma orquestra de milhões de músicos, cada um tocando um instrumento diferente, ao mesmo tempo; mas ninguém se perde e segue uma pauta invisível, sem desafinar. Quem sabe possamos ser, num futuro próximo, uma grande orquestra e esquecer de uma vez por todas as cidades desumanas e caóticas? Menos prédios e mais educação? É uma questão de ferragens, concretos e cálculos ou de relacionamentos entre seres? Onde erramos? As florestas se renovam automaticamente se não houver interferência humana. Nas cidades os prédios antigos começam a desabar e terão que ser demolidos e substituídos, mais cedo ou mais tarde. Em pleno século XXI estamos nós ainda repetindo modelos comprovadamente obsoletos. Que modelos seguir para as novas cidades? Se perdermos as florestas nós não vamos perder apenas árvores. Vamos destruir um dos mais perfeitos modelos de convivência complexa e organizada da Terra. Uma verdadeira escola de sobrevivência no caos. Não existe preço para esse conhecimento acumulado por tanto tempo, tão vitorioso. Mas nós mal conseguimos ver uma árvore, um bicho, um rio. E quando vemos, não entendemos o que está por trás de tudo isso. E meio perdidos, vamos seguindo o brilho das luzes ofuscantes que as máquinas pipocam nos nossos rostos. Os sons que rebentam os nossos tímpanos e as drogas que confundem as nossas mentes e deturpam os cheiros. E assim, deixamos de ver as estrelas com suas luzes distantes e cintilantes; não sentimos mais o perfume da floresta, e vagamos ansiosos em busca do poder e do ter. Precisamos resgatar esses caminhos naturais e nos voltar mais para nós mesmos, mas não num sentido exclusivamente egoísta. É uma questão de perceber e reconhecer que somos a própria natureza em movimento. E assim sendo, podemos nos comportar como ela, em busca da harmonia e dos ajustes necessários. Se a natureza é obra de Deus e nós somos também natureza, nada nos impede de sermos quase divinos, quase bondosos, quase amorosos, quase justos, quase éticos, e quase qualquer coisa. Na impossibilidade de sermos absolutamente perfeitos, por causa da nossa essência humana, vamos galgando nossa montanha de sonhos, evoluindo nessa caminhada, em busca desse topo ideal. Mas como diz a frase: para caminhar é preciso dar o primeiro passo... E você, onde está nesta montanha?   

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Dos avanços do espírito e da necessidade de um equilíbrio materialista


Colaborador Roberto Rocha

 O método científico trouxe para a humanidade uma nova maneira de ler e de tentar compreender o mundo e a nós mesmos. Veio apresentar a ilusão das certezas comprovadas experimentalmente, substituindo imaginações sobrenaturais. O próprio nome imaginação nos lembra ”imagens” ou “coisas que construímos com o pensamento”, mas que nem sempre temos provas contundentes de sua real existência. Na experimentação essas dúvidas precisam ser dissecadas e compreendidas para que não inviabilizem o próprio método. Ao se permitir que algo ou uma teoria possa ser “demonstrada”, “várias vezes”, “sempre com os mesmos resultados”, o que se pretende é reafirmar que existe uma coerência na idéia inicial e que ela pode também ser percebida em outros campos, e não somente engendrada em nossas conjecturas particulares. Num mundo de percepções rápidas e diversificadas como esse do início do século XXI, às vezes, nem sempre é fácil, concentrar as nossas atenções em temas mais “espiritualizados”, e persistir nele, porque os deslumbramentos e apelos fortes nos levam para o mundo das impressões efêmeras e passageiras. A ciência e seus métodos nos mostraram a importância da observação, e ela mesma nos concedeu a capacidade de construir máquinas mirabolantes que nos dão a sensação de um poder muito além de nossa capacidade natural e simples de sentir o mundo e seus elementos. Nosso cérebro parece gostar de desafios e novidades; e tanto mais, quando fogem dos parâmetros regulares e seguros que o bom senso recomenda. Com alguns ou muitos riscos, enveredamos em campos estranhos e espaços escuros, desconhecidos, buscando o novo e as surpresas inesperadas. Gostamos de nos surpreender a cada momento, e isso, parece reforçar a certeza de que estamos vivos e atuantes, o que parece razoável. No entanto, também podemos extrapolar esses desejos e aventuras, causando tristezas e mortes a muitos, o que também não parece ser sensato e nem eticamente correto. Resta-nos uma reflexão profunda sobre esse caminho que tomamos como Norte. Saber se devemos seguir realmente em frente, ou ainda, se não será melhor refazer a trajetória ao contrário, e buscar nossas raízes abandonadas onde estão as verdadeiras fontes da eterna procura humana pela felicidade. Quanto mais rapidamente caminharmos para diante, sem maiores reflexões, mas dolorosa será a senda do resgate. Fora isso, devemos também desconfiar se a negação dessa possibilidade pode estar patologicamente associada a algum tipo de desvio comportamental global da criatura humana, certamente injusto e insano. Quem sabe a solução para todos esses dilemas seja um maior investimento na nossa própria espiritualização, tão ausente e distante das nossas conversas rotineiras, direcionadas para os lucros e perdas materiais, dissociadas do sagrado e das luzes que iluminam outros caminhos que não esses tão fugazes e tão passageiros?...                

sexta-feira, 23 de março de 2012

Rio +: um mundo mais verde, mais cooperativo e mais fraterno.


 Colaborador: Roberto Rocha

Estamos no meio de uma tempestade global, de revoltas ondas, ventos fortes, frio intenso, tsunamis e furacões.  Multiplicamos as simplificações ecológicas extensas e monoculturais. Insistimos em replicar nosso DNA econômico e injusto, centrado no lucro rápido e imediato, favorecendo a poucos em meio a muitos. Usamos a antiga retórica para convencimentos estudados, acreditando que a ética pode transgredir, volta e meia, dependendo da situação e do momento. Enquanto a água rareia, e os oceanos são esvaziados em seus estoques biológicos, as aves já não têm mais onde pousar. As bactérias agro-intoxicadas pelo solo, se retorcem, agonizando entre cadáveres semi-decompostos; retendo nutrientes que deveriam retornar em novos corpos vivos da superfície, para manter a necessária e insubstituível homeostase. Mas quem se importa com sistemas complexos? Simplificar, eis a questão! Exatamente num mundo que sempre funcionou com base na complexificação, muito antes de existirmos como espécie pensante. Vivemos uma situação paradoxal, convictos que estamos cientificamente corretos, até que nos provem o contrário. Provar o quê? Que nossa água está ameaçada? Que nossos rios estão secando? Que as florestas estão sendo exterminadas? Que a futilidade artística é incentivada pela raridade de inspirações espiritualizadas? Que a miséria ainda existe em boa parte do mundo, escondida nas sombras da indiferença? Entre peles magras, ossos pontudos, moscas insistentes e olhares tristes, uma parte do mundo agoniza! No mundo econômico, os dígitos também sofrem suas baixas e ameaçam a economia global com desemprego e desesperança. Antes, éramos ameaçados por guerras frias e mundiais, exterminadoras de pessoas e cidades. Mas hoje não precisamos mais de “ameaças” porque “os fatos já são reais”! Quem duvida que a biodiversidade da Terra esteja sendo reduzida drasticamente? Só as pessoas desinformadas não sabem disso!  E o mundo tenta acabar com o analfabetismo reinante, até 2015, conforme consta dos Objetivos do Milênio. Pregamos o “desenvolvimento”, mas não conseguimos, nem mesmo, a garantia de que o cérebro mais evoluído do planeta possa se manifestar em todas as suas potencialidades, universalmente!  E o que falar das garantias de manifestação biológica das criaturas ditas “incivilizadas”? Boa parte dos grandes vertebrados que ainda vive entre nós, estará extinta até 2050! Estamos descobrindo espécies novas e, ao mesmo tempo, estamos reconhecendo que elas terão um futuro sombrio. Somos o único ser terrestre que, apesar de ser constituído totalmente de elementos biológicos, deseja - cada vez mais – estar mergulhado num mundo artificial, fictício e deslumbrante, com suas cores distorcidas e inebriantes. Será esse mesmo o futuro que queremos? Queremos para quem? Vamos continuar apostando no modelo deletério do século XX?  A Agenda 21 foi apenas “uma proposta” ou um compromisso? Quanto realmente nós progredimos?  Ou será que vamos nos reunir, mais uma vez, para propor uma Agenda 22?

sexta-feira, 2 de março de 2012

Estocolmo, Rio 92, Rio + 10, Rio + 20, Rio...


Colaborador Roberto Rocha

Vamos nos reunir outra vez. Exatamente quando o mundo passa por alguns desafios e enfrentamentos. Será que estamos numa encruzilhada para definir enfim que rumo tomar? Ou ainda estamos indecisos? Os temas selecionados para a Rio+20 não estão ali por acaso. Eles refletem e apresentam uma série de eventos que acumulamos nos últimos séculos, sob a argumentação de que seríamos mais felizes e mais realizados. Não é isso que desejamos? Ou não é?  A pergunta óbvia: desde a Revolução Industrial até hoje, nós realmente conseguimos ser mais felizes e mais realizados? Fomos acumulando uma série de vitórias através da união dos povos? Produzimos alimentos cada vez mais saudáveis e livres de drogas químicas tóxicas, desde a descoberta da agricultura e da pecuária? O que temos feito com a água? Ela tem sido uma dádiva dos céus repartida por todos os povos da Terra? Abundante, límpida, sem impurezas que afetem qualquer criatura, mesmo as mais sensíveis? Como temos nos apropriado da energia do Sol? Demos prioridade apenas àquelas "guardadas" nos depósitos fósseis? Ou temos fontes alternativas limpas e seguras?  Produzimos de forma a sustentar os serviços dos ecossistemas sem que eles sejam comprometidos para que continuem a nos oferecer - de graça - tudo que precisamos? A conservação da biodiversidade da Terra - base para que os serviços ambientais sejam saudáveis - é sempre uma prioridade em qualquer país do mundo?  Neutralizamos ou damos destino adequado, a todos os resíduos tóxicos e despejos que produzimos? Os principais postos de trabalho do paiz estão concentrados em setores onde as pessoas (a grande maioria, ressalte-se), mesmo não possuindo pós-graduação, consegue viver feliz e realizada? Homens e mulheres têm os mesmos direitos? Tratamos o solo que usamos para as nossas atividades como algo sagrado e fundamental para as futuras gerações? Ou somos "indutores de desertos"? As matas ciliares, que protegem as margens dos rios, são nossas aliadas ou nossas inimigas? Nossas cidades são planejadas de modo equilibrado, com base em inovações e soluções naturais, para que atendam a "todas" as classes socias com o mesmo nível de qualidade? Devolvemos para os oceanos e mares a água doce limpa que ele nos envia através das nuvens? Ou tratamos os oceanos com descaso e indiferença, mesmo que ele nos ofereça serviços de produção de oxigênio, lazer, transporte, alimento e tantos outros?  Nossos investimentos são no sentido de construir um mundo de harmonia, através da educação? Ou cultivamos a guerra e a insegurança como mecanismos de controle? Enfim: vamos ter mais uma chance. O mundo terá mais uma oportunidade. Outra vez vamos ouvir propostas e promessas. A questão é que o tempo está passando. A primeira reunião foi em 1972 em Estocolmo. Depois veio a série Rio: Rio 92,  Rio + 10 (2010, em Johhanesburgo) e agora, 2020, outra vez no Rio. Por que não fizemos o "trabalho de casa" mundialmente falando? Ou fizemos mal? E se não fizemos, quem nos alertou para nossa negligência global? Quem nos corrigiu? A maioria da população sabe o que seja a Rio + 20? Está preocupada com isso? Você - que está lendo este texto - sabia que os temas que estão colocados aqui, são os temas que vão se discutidos na Rio + 20? Voce acha que eles são importantes? Sua profissão ou atividade pode contribuir para que esse problemas sejam sanados? Em caso positivo, participe de alguma forma. A falta de participação tem feito com que as metas propostas estejam muito aquém do que foi pretendido alcançar. Pelo não cumprimento dos termos ou insuficiente participação de cada país, cada estado, cada município e cada cidadão, continuaremos a série Rio +  com as mesmas "choradeiras", as mesmas lamentações, as mesmas desculpas, as mesmas promessas. O que virá então? Rio + 25? Rio + 30? Rio + 50? Rio + 100? Só o tempo dirá! Quem sabe, os nossos netos e bisnetos,  possam escrever novos artigos falando do mesmo assunto, mas dessa vez, referindo-se a um momento histórico, do passado, que foi devidamente corrigido? Que eles possam contar o quanto fomos irresponsáveis e como é que conseguimos "dar a volta por cima" através da harmonia, da cooperação e do amor entre os povos e entre as pessoas. Pode ser um sonho! Mas dos sonhos podemos partir para as realizações e com as realizações coerentes, poderemos ser, finalmente, mais felizes e realizados.