sábado, 1 de janeiro de 2011

O jogo da Terra


Colaborador Roberto Rocha

A reunião era para anunciar a proposta de um grande jogo para poderosos. Estavam presentes representantes dos governos, empresários, religiosos, sindicatos, entre outros. As regras eram as seguintes: a) ninguém poderia sair do jogo até o final; b) era preciso que cada jogador respeitasse o outro; c) não haveria vencedores: os jogadores estavam ali para compartilhar experiências e praticar suas habilidades; d) todas as vezes que alguém tivesse alguma vantagem de pontos ele seria reconhecido, mas teria que dividir o que ganhou com os demais. Logo que foram anunciadas as regras, começaram os comentários: e se eu precisar sair para resolver um negócio importante? E se alguém ofender a minha mãe? Não gostei muito desse papo de trocar experiências! Imagine! Ter queimado meus neurônios durante anos seguidos e depois ficar dando luz para cego! Pior ainda, conseguir uma vantagem e depois dividir com os outros! Que absurdo! Não estou gostando nada disso! Quando os ânimos já estavam exaltados, alguém falou: senhores! O jogo ainda nem começou e vocês já quebraram todas as regras propostas. Realmente não podemos começar nada com esse clima! Um dos convidados, muito bem vestido, perguntou: Afinal, que jogo é esse que não tem vencedor? O anfitrião explicou: joga-se com cartas que representam valores humanos, consagrados pelos filósofos gregos clássicos, desde a antiguidade; e não exatamente os valores econômicos. Compreendo o espanto de todos, porque fomos “educados” nos últimos séculos a pensar somente nos lucros financeiros. Como todos sabem, muitas coisas do passado foram depois reconhecidas como graves erros e equívocos lamentáveis. Mas se vocês desejam realmente algum tipo de prêmio eu tenho aqui, nesta caixa dourada, uma carta que representa um poder jamais visto e que é, realmente, quem controla todos os demais poderes humanos. Todos pararam de discutir por alguns segundos. E um dos candidatos ao jogo, perguntou? E que carta é essa, tão poderosa assim? O anfitrião respondeu: é a Carta da Terra! Nela está desenhado um planeta azul e limpo onde é possível conviver de modo equilibrado; cujas regras existem há bilhões de anos e continuam a funcionar até hoje, ajustando e corrigindo os erros e desrespeitos humanos que temos cometido, em especial, nos últimos séculos. Um outro pretenso jogador disse: mas isso não tem valor comercial! E também não se pode ganhar dinheiro sem causar danos socioambientais! O anfitrião, outra vez, respondeu: Pois bem meus senhores! Essa é a proposta do jogo para o qual foram convidados! Não será nada fácil fazer com que as pessoas se respeitem considerando a diversidade cultural que temos aqui! Também não será fácil discutir valores éticos que suplantem os interesses econômicos imediatistas! Nada será fácil!... Mas o que queriam os senhores, afinal? Um joguinho sem graça? Sem dificuldades? Sem emoções? Sem decepções? Onde está o espírito de luta do qual tanto falam? Só lutam por dinheiro? Metais e papéis? É isso? Por que a realização de cada um não pode estar acompanhada por uma visão mais ampla de mundo? Com equidade? Com a valorização e o uso racional dos serviços ambientais? Com maiores investimentos na preservação de ecossistemas que já estão mais do que espoliados, por exemplo, os oceanos? Podemos investir mais nessa direção! Não se trata, definitivamente, de uma questão ecológica e ingênua. Ela é muito mais econômica do que se pensa! Pode gerar prosperidade ou prejuízos incalculáveis! Senhores: eu os convido a jogar! Mudanças sempre assustam. Mas eu nunca vi um mundo mais assustado como esse que eu vivo agora! Acho que já deveríamos ter mudado há muito tempo! Esse é um bom momento: vamos jogar?...

Áreas desprotegidas: reserva ilegal e áreas de preservação eventuais


Colaborador Roberto Rocha
O aluno perguntou para a professora o que era uma Área de Preservação Permanente (APP). Ela disse que era uma área para “preservar a natureza”. O aluno continuou: mas por que é preciso preservar a natureza? Porque a natureza nos presta serviços que valem muito dinheiro e pelos quais nós não pagamos absolutamente nada. Imagine se todos dependessem apenas do dinheiro para poder viver! E o garoto, outra vez: mas não é assim? Se eu não tiver dinheiro no bolso eu não posso comprar a minha merenda! Minha mãe não pode fazer compras no mercado! Meu pai não pode pagar a passagem do trem e do ônibus! Eu não entendi! Pois é, muita gente não entende. Pensa que economia é assunto ligado exclusivamente à geração de empregos, construir estradas e ferrovias, comprar eletrodomésticos etc. Mas se os serviços ambientais deixarem de existir, tudo isso que você vê funcionar, pára. Nada mais acontecerá! E não haverá dinheiro suficiente para substituir “pagando”, todos esses “serviços naturais”. Mesmo pedindo empréstimos ao mundo inteiro. É impossível sobreviver sem os serviços ambientais! O menino ficou mais curioso ainda: então nós dependemos de algo que trabalha de graça para nós, o tempo inteiro? Sim, respondeu a professora. O menino: e quem faz isso? A natureza, ora! Você paga para uma empresa levar a água até a sua casa, mas quem faz circular água na Terra é a natureza! Imagine ter que transportar toda aquela água desde as nascentes até a estação de tratamento? Quem faz isso? O menino: a natureza? A professora: é, a natureza! O menino estava impressionado! Mas por que então ninguém fala sobre algo tão importante nos jornais das televisões e nos programas em geral? As escolas deveriam falar desses serviços em todos os níveis de ensino! O menino estava revoltado! A professora, mais uma vez, explicou: tem gente que fala, mas as pessoas não percebem, porque esses serviços não têm um sistema de propaganda e marketing a favor deles. Você já viu alguém fazendo propaganda sobre a formação das nuvens no céu? Ou elogiando uma mosca que poliniza um fruto? Ninguém faz isso! Aí, você entende porque essa discussão sobre reserva legal e áreas de preservação permanente continua tão confusa. As pessoas só raciocinam com base na “cadeia produtiva” compreendida como “ganhar dinheiro” ou ainda, “perder dinheiro”. Não conseguem ver que a preservação da natureza gera lucro, evita prejuízos imensos, melhora a saúde física e mental. Tudo isso “é lucro”. O menino estava triste: quer dizer então que a maioria das pessoas só pensa em termos de dinheiro? Exato! É isso mesmo. Não temos uma cultura que valorize a preservação da natureza como a mais importante fonte de “lucros”. O que temos é a exploração da natureza como fonte de lucro: você entendeu onde está o problema? Agora entendi, respondeu a criança. Mas como mudar isso, perguntou o aluno? A professora: depende primeiro da percepção de cada um sobre a importância desses serviços. Depois a legislação precisa colocar isso como prioridade. Veja que uma simples mudança climática regional – como a que acontece agora no Nordeste, em Alagoas e em Pernambuco - trás um mundo de perdas inestimáveis. Os municípios vão gastar fortunas para reconstruir as cidades. Tudo isso sinaliza para nós como alertas. Mas se não ouvimos os alertas, tudo continua como antes. As pessoas continuam a construir suas casas nas margens dos rios e nas encostas; desmatam as nascentes, e assim vai. É claro que a natureza vai pegar de volta os seus espaços, mais cedo ou mais tarde. Se sabemos disso, não deveríamos permitir essas ocupações indevidas. E nem mesmo a ocupação de grandes espaços com monoculturas e gado. Isso não é natural para o nosso país. Aqui deveríamos cultivar e criar plantas e bichos daqui mesmo, evitando o desmatamento insustentável. A soja é da China, o boi é europeu ou indiano. São exóticos. Tudo estrangeiro. A questão é que nós aumentamos tanto as áreas para criar bichos e plantas de outras países, que agora estamos avançando nas áreas das plantas e dos bichos que são nossos. Não estamos investindo em aproveitar esse potencial nativo porque custa caro e não atende às demandas do momento. É uma questão de estratégia comercial. É isso que é considerado como prioridade. Poderíamos até não ser radicais e tentar fazer as duas coisas ao mesmo tempo, mas muita gente não concorda com isso. É isso, minha criança! Temos a esperança que outros meninos preocupados como você, possam ser os empresários de amanhã. Que possam ser empreendedores também. Mas a partir de outro paradigma - que não seja o atual - altamente lucrativo, mas completamente desconectado da precaução e da coerência de cooperação mútua com os nossos próprios recursos, nossa biodiversidade, nosso futuro econômico. A questão principal é que o povo brasileiro é hoje formado por diferentes culturas; e cada uma tem lembranças distantes, que nem sempre combinam com as lembranças indígenas originais, em grande parte ausentes dos assuntos do momento. Os índios brasileiros possuíam uma sabedoria milenar de uso dos ecossistemas da terra, perfeitamente coerente com sua conservação permanente. Basta lembrar a incrível cobertura vegetal do Brasil na época da invasão portuguesa. Após cerca de 500 anos, podemos perceber o que aconteceu. Como já disse há algum tempo: não vamos voltar a usar arco e flecha, ou andar “pelados” por aí. A questão é refletir sobre questões ecológicas e evolutivas associadas às questões econômicas e fazer disso um novo caminho de “desenvolvimento” sem que sejam destruídos os nossos mais importante aliados: os serviços ambientais.

Áreas protegidas : bancos genéticos como solução imediata para a recuperação da insensata devastação florestal brasileira


Colaborador Roberto Rocha

Desde que li o livro “A ferro e fogo” (Companhia das Letras, 1996) de Warren Dean, professor de história na Universidade de Nova York - falecido em 1994 num trágico acidente em Santiago do Chile – tive certeza de que realmente fomos insensatos quando devastamos, durante séculos, a nossa rica biodiversidade brasileira. A epígrafe do livro traduz bem esse clima: “Quem vier depois, que se arranje”. Estimulados e convencidos de que “arrasar” a mata era a solução mais rápida de fazer dinheiro, nos esquecemos que estávamos num país tropical, onde não existe gelo e ameaças de fome, durante meses críticos. Uma bacia hidrográfica pululante de vida aquática, um litoral interminável de frente para um incomensurável oceano, terras ricas protegidas por uma megadiversidade invejável, jamais reconheceriam um ser desnutrido ou infeliz. A robustez de nossos índios “selvagens” atestam a riqueza da terra. A estratégia européia de plantar e colher, com suas próprias mãos, quase tudo de que necessita, não se parece com a milenar cultura de coleta natural de tudo que a floresta oferece sem qualquer custo adicional. Esse equívoco ecológico centenário nos transformou num dos mais vorazes predadores de florestas da atualidade seculovinteana. Hoje, em pleno século XXI, algumas pequenas luzes começam a reconhecer a importância econômica dos serviços dos ecossistemas.

Já afirmamos, por diversas vezes, a ponto de nos tornarmos repetitivos, que não se trata apenas de questões ecológicas e sentimentais que estão sempre envolvidas nesses embates. É sim, pura necessidade de bem-estar material e mental para as futuras gerações. Não é um cenário para as gerações de idosos da atualidade porque muitos deles não verão os frutos das mudas e sementes que estão sendo plantadas hoje, mas seus netos poderão conhecê-las. Eu, que fui avô recentemente, fico imaginando: quando será que minha neta poderá admirar uma frondosa castanheira ou um jequitibá esplendoroso, plantados agora, ainda de muda ou de semente?. Quantos anos se passarão - para que como ela -, cresçam fortes e cumpram o seu papel no mundo?

Um dos passos nesse sentido é a recuperação de áreas degradadas das margens dos rios, onde viceja a mata ciliar. Essas áreas específicas evitam a perda de solo e “cuidam” da qualidade e da quantidade de água a ser usada de diversas formas. Interferem numa infinidade de processos físicos, químicos e biológicos que nos trazem satisfações e confortos e garantem que os ecossistemas possam funcionar perfeitamente.

A percepção da importância desses serviços ambientais da natureza pode permitir que a própria tecnologia que dissemina as monoculturas, se volte para corrigir seus erros e equívocos do passado, numa tentativa de convivência mais equilibrada, como manda o bom senso econômico. As cercas com arames não são investimentos “caros” para afastar o gado, como costumam dizer. É antes, interessante meio de “produzir” água, novas sementes, revigorar a fauna, enriquecer o solo, prevenir erosão, conter enchentes, entre outras. Trata-se de investir em ”água” – um grande negócio!. Sem água não há chances de criar nada! Mesmo que você tenha milhares de dólares, eles não farão retornar a água de uma hora para outra. Isso leva algum tempo. E como dizem os economistas: tempo é dinheiro! Então, se não desejarmos perder dinheiro com tempo perdido, devemos aproveitá-lo com algumas medidas que trarão de volta o dinheiro, futuramente.

As áreas protegidas do Brasil - como as áreas indígenas, reservas legais, áreas de preservação permanentes e unidades de conservação - são indispensáveis bancos genéticos de sementes que valem fortunas quando estão transformados em imponentes árvores, cumprindo cada uma os seus respectivos papéis ecológicos.

O papel das áreas indígenas é decisório nesse momento em que temos grandes áreas desmatadas por monocultura e pecuária, necessitando de recuperação no Brasil. Florestas são “fábricas de sementes e mudas” que o mercado está precisando. Os próprios índios serão empresários de suas próprias “reservas econômicas” fornecendo esse material para um mercado que vai crescer rapidamente nos próximos anos. Reservas legais, áreas de preservação permanentes e unidades de conservação podem se transformar em grandes negócios ecológicos, de aceitação pública imediata. Produzir mudas e sementes em hortos municipais, com recursos públicos, também é uma idéia antiga, mas que não existe como realidade na maioria dos milhares de municípios do Brasil. Assim como é possível fazer com o tratamento de resíduos sólidos em “consórcios”, é possível atuar em viveiros de produção de mudas unindo secretarias próximas de áreas protegidas. Vai ser preciso investir em capacitação de pessoal e gerar mais empregos nessa área, prestigiando as profissões envolvidas nesse trabalho. Mais do que um exemplo internacional – os jogos olímpicos estão bem próximos – poderemos construir um modelo de produção comprometido com uma visão que entende a necessidade da existência da complexificação ecológica como a verdadeira fonte lucrativa que alimenta os nossos processos históricos de economia, baseados numa simplificação pragmática e exclusivista.

Perdas e danos: quanto valem os serviços ambientais da Terra?


Colaborador Roberto Rocha


O vazamento do Golfo do México – e quantos mais virão? – nos mostra o quanto somos tremendamente vulneráveis, numa realidade tecnológica bem intencionada, mas que - na prática - não apresenta o mesmo excelente desempenho de suas prospecções e na resolução de seus enfrentamentos mais graves. Afinal, qual o valor da natureza? Voltamos à antiga pergunta que sempre fizemos: quanto vale um mangangá? Aquele inseto polinizador - como tantos outros – que voam de flor em flor, para garantir uma colheita farta de alimentos que ocupam nossas mesas na forma de grãos, doces, sucos, refrescos ou simplesmente ao natural? Não sabemos, ou não queremos discutir essas questões subjetivas e complexas?. Qual o preço do metro quadrado de um manguezal poluído? Você sabe? Com certeza, não sabe. Nem eu! Mas sabemos quanto custa o metro quadrado imobiliário na zona sul de qualquer município! Por que não aplicamos cálculos para saber quanto valem os serviços ambientais da natureza? Poderíamos calcular a quantidade média de zooplâncton ou fitoplâncton por metro cúbico afetado! Depois calcularíamos a quantidade em peso vivo desses organismos em um ano, em dois anos, em três anos etc. Aplicaríamos o valor de mercado? Em reais? Em dólares? Em euros? E a depreciação? Por exemplo: uma larva de camarão “lixo” custaria o mesmo que um camarão VG? Além dos valores de cada espécie, deveríamos descontar a taxa de mortalidade media de cada uma delas e aplicaríamos um fator de correção?. Somaríamos a tudo isso os valores que esses organismos representam para a manutenção da cadeia alimentar dos ambientes marinhos e de águas doces, sem qualquer uso humano direto?. Acrescentaríamos ainda o valor desse pescado para as comunidades ribeirinhas e litorâneas que pescam “de graça” todos esses “recursos naturais”?. Valor ecológico-social? Questões turísticas estariam também envolvidas: gastronomia, pesca esportiva e todas as cadeias dependentes dessas atividades associadas aos frutos dos mares e rios. Difícil? As empresas seguradoras devem ter alguma resposta. Somos guiados por cálculos lineares que não funcionam em situações de redes complexas. Apresentamos soluções reducionistas para desafios sistêmicos. Isso é um absurdo! É inconcebível! O maior desafio é mudar o paradigma para se tentar apresentar soluções coerentes. A pergunta é: QUEM QUER MUDAR O PARADIGMA? QUEM PODE MUDÁ-LO? Que argumentos teríamos para tal propósito? Você tem alguma sugestão? A hegemonia pensante linear não nos deixa raciocinar de forma sistêmica! Você faz parte da rede tanto como a larva de camarão morta pelos impactos das atividades humanas! Dizem que somos uma espécie que pensa. Pensa o quê? Não estamos falando de “defender a natureza” – um posicionamento muito ingênuo! Estamos falando de economia pesada, de segurança alimentar, de grandes investimentos afetados por questões ecológicas. Por quanto tampo ainda vamos continuar a desconhecer o valor econômico dos serviços ambientais?

Novo caminho: homem como meio, ambiente como fim !


Colaborador Roberto Rocha

Temos apresentado alguns argumentos que colocam o homem como criatura secundária no Todo. Para tal, precisamos aceitar uma verdade: o ambiente é fim, e não meio. Devemos aceitar que  "não somos divinos sozinhos". É razoável sustentar que representamos criaturas especiais, pelo fato de podermos conceber a nós mesmos e aos "outros". Mas também,  não sabemos - exatamente - como esses "outros" nos percebem! Conjecturamos que sejam irracionais; que não pensam. Mas o que é pensar? O que é perceber-se? Qual a real utilidade dessas "definições"? O que tem sido o pensamento do homem? Até onde tem valido nossa apurada percepção diferenciada no sentido de nos transformar em criaturas melhores? Se somos especiais deveríamos ser algo bom e justo. E o que é ser bom e justo? Bom com quem. Justo, em que medida e para quem? É nesse momento que entra a observação. A contemplação no sentido de admiração da perfeição. Não é questão religiosa específica porque a própria religião parece seguir este mesmo caminho. Ele já existia antes: a percepção do Todo como algo inteligente, porém indecifrável... Na espiral do tempo e do conhecimento, já demos muitas voltas. Parece que, a cada dia, ela se alarga de modo ascendente, mas sempre de encurva e retorna, indefinidamente. 

Agora, uma grande revelação: não fomos nós que começados tudo isso! 

O homem - parecido com o que somos hoje - só apareceu no cenário terrestre há uns 250 mil anos. Outros hominídeos existiram antes dele. Mas qual seria o "objetivo" de estarmos aqui? Construir alguma coisa especial? Não sei dizer. No entanto, não acho que tenha sido para apenas destruir. Talvez, reinventar. É isso: somos reinventores de coisas divinas!. Eternos curiosos e insatisfeitos. Ou insatisfeitos curiosos. Juramos amar o mundo, mas fazemos coisas que não são amáveis com ele. Incorporamos a equivocada certeza de que "somos especiais". Que devemos transformar e dominar o planeta. Talvez, a questão não esteja no ímpeto da transformação ou do domínio, mas no seu objeto. Devemos dominar sim, o nosso orgulho. Devemos transformar sim, o nosso universo interior. O grande desafio para o século XXI é este. Teremos que reunir a todos. Não separar aquele que grita mais para aparecer, porque isso é discriminação. Melhor, estimular para que "todos" apareçam ao mesmo tempo. Que todos gritem quando for hora de gritar. Que todos silenciem quando for hora de silenciar, assim como fazem os animais. Não que haja alguém com uma batuta na mão a sinalizar o que fazer. Mas pela força de algo que vem de dentro e não depende de nenhuma orientação externa, radical, imposta. Que venha do coração! O tumulto contínuo em nossa volta não nos deixa observar e perceber coisas distantes, às vezes muito distantes, mas não menos importantes. Algumas estão tão distante que nos perdemos delas, e quase não as reconhecemos. Quanto mais rapidamente obtivermos esta compreensão, mais chances teremos de reconhecer o "outro" como irmão  de uma mesma família, mas não como um inimigo, e também, não necessariamente da nossa mesma espécie, perigoso, ameaçador, exaltado, excluído.

Fonte de imagem: Fundação Museu do Homem Americano. Piauí, Brasil.
Conheça. visite, prestigie: Disponível em: http://www.fumdham.org.br/

Buscando um planeta sustentável: a procura ingênua do que sempre existiu, antes mesmo da existência humana.

 Colaborador Roberto Rocha


Palmito juçara (Euterpe edulis)
    Reuniões e mais reuniões enchem as agendas nacionais e internacionais com compromissos para discutir temas que ainda carecem de conhecimentos básicos. Planejamentos em cima de dados biológicos ainda não perfeitamente coletados: não sabemos quantas espécies existem no planeta. E menos ainda: como elas se relacionam? Mas estamos falando de sustentabilidade! Tá certo! Pelo menos, estamos falando no assunto! Como também estamos falando de biodiversidade. Está virando moda!. O perigo é que as "modas" vivem mudando a cada estação. Compreender e praticar a sustentabilidade passa por reconhecer a supremacia e coerência de uma organização  que vem se sustentando há milhões e milhões de anos sem a nossa "boa intenção de ajudar". A discussão é muito antiga, de quando nós - Homo sapiens - estávamos ainda na forma de criaturas estranhas, protoconcebidas para o contexto da época.


Não tínhamos a percepção nem a preocupação com as questões climáticas atuais. Imagine: o homem  querendo controlar o clima!?  Que coisa mais simplória! Não somos capazes de prever - com  precisão, a nível municipal  -, nem mesmo a ocorrência de uma geada!. Bolas de gelo do tamanho de um ovo de galinha podem furar nossos telhados e apedrejar as plantações arbustivas tradicionais e exóticas (estranhas ao país) a nos punir por algum pecado inominável. Quem aguenta!  Como prever o que vai acontecer com o planeta? Dois graus? Três? Quatro? Conhecimentos técnicos e científicos de boa qualidade são necessários para melhorar a nossa compreensão. Formação de bons professores e estruturação de redes idôneas de informações são indispensáveis.

A propósito, a Agencia FAPESP - (Disponível em: http://www.agencia.fapesp.br/. Acesso em: 3 dez.2010) -  está destacando a oportunidade de acesso livre a milhares de obras, artigos, mapas e documentos históricos sobre a biodiversidade brasileira, contando agora com o Portal BHL ScieLO.  O consórcio "Biodiversiry Heritage Library" - (Disponível em: http://www.biodiversitylibrary.org/.) -  reúne os maiores museus de história natural e bibliotecas de botânica no mundo, como a Academy of Natural Sciences e o American Museum of Natural History, nos Estados Unidos, e o Natural History Museum, na Inglaterra.

 Embora as informações estejam disponíveis, uma parte da população ainda permenece sem saber ler e escrever e esse tipo de conteúdo não faz parte de sua realidade imediata, embora assim o seja.  Enfrentamos enormes obstáculos pelo elevado número de analfabetos no mundo. Até 2015  existe o compromisso firmado por 191 Estados-Membro das Nações Unidas (ONU)  para  "resolver" oito grandes desafios do planeta: os objetivos do milênio. Um deles - atingir o ensino básico universal - continua sendo apenas uma esperança. O próprio Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), reconhece:  " houve progressos no aumento do número de crianças frequentando as escolas nos países em desenvolvimento. As matrículas no ensino básico cresceram de 80% em 1991 para 88% em 2005. Mesmo assim, mais de 100 milhões de crianças em idade escolar continuam fora da escola. A maioria são meninas que vivem no sul da Ásia e na África Subsaariana. Na América Latina e no Caribe, segundo o Unicef, crianças fora da escola somam 4,1 milhões" (Disponível em: http://www.pnud.org.br/odm. Acesso em: 3 de dez. 2010). E uma frase aparece em todo lugar, que também nós endossamos: faça a sua parte! Mas fica a pergunta: que qualidade terá a minha parte para decidir assuntos tão complexos?

Como discutir biodiversidade e sustentabilidade quando esses assuntos não são prioridades dentro das salas de aula?  Poucas pessoas sabem o que são "serviços ambientais ou serviços ecossistêmicos"! Se uma boa parte da população não sabe ler ou interpretar um texto simples, como compreender e participar de discussões mais complicadas que exigem um mínimo de conhecimentos gerais ? O que você vê na midia: sustentabilidade?. Biodiversidade? Os temas explorados tratam de realidades próximas do indivíduo; que tenham relação com medo e prazer: assalto, bala perdida, sexo, futebol, roupas bonitas, carros de luxo. E reclamam de Copenhague (Dinamarca, 2009), de Cancún (México, 2010), e tantas outras que virão.

Faça a sua parte! Tudo bem.! Mas precisamos divulgar a nível popular, também as questões mais complexas que ainda não fazem parte das discussões mundanas. 

A imprensa pode ajudar sim, por um lado, ampliando as horas dedicadas aos temas biodiversidade e sustentabilidade.  O governo - necessariamente - poderá oferecer melhores condições de ensino, contando com melhores equipamentos e oferecendo capacitação remunerada para os professores. Esses passos serão importantes - não para resolver exatamente as questões ambientais do mundo - mas para reconhecermos qual o  nosso real papel socioambiental nesse cenário do século XXI; tão complexo, no qual somos estreantes, ainda muito pouco experientes...

O homem ambientalista e conservacionista: um discurso desgastado?


Colaborador Roberto Rocha

A ano de 2010 foi consagrado como Ano da Biodiversidade, com suas espécies, paisagens e infinitas formas de expressão genética.  Uma tentativa para chamar a atenção de todos para o óbvio: “não há sistema econômico, nem social, nem cultural, que resista sem a fundamental e decisiva participação dos serviços ecossistêmicos”. Sem a preservação dos serviços da natureza não há civilização que se sustente por muito tempo. A saúde humana depende da saúde ambiental. Os "planos de saúde" - numa visão mais atualizada do que seja "saúde" - deveriam garantir também água potável, ar puro, moradia, saúde mental e tantos outros fatores para quem recebe seus serviços. Estamos ainda presos à conceitos retrógrados  que continuam a nos dizer que saúde, prioritáriamente,  é "não ter doença infecciosa".

Os hominídeos sempre foram testados a partir de seus potenciais bióticos desde a pré-história, no Período Paleolítico. Somos hoje - o Homo sapiens - resultado genético e único, do que foi inteligentemente selecionado pela resistência ambiental dos biomas terrestres do passado remoto. Das dezenas de espécies de  "homens primitivos", só nós conseguimos chegar até o momento recente. Talvez tenhamos nos entusiasmados demasiadamente com a domesticação dos animais, que ensejou a pecuária; e com o cultivo de vegetais - que estabeleceu a agricultura - e mais tarde, viria a ser manipulada pelo agronegócio em nível mega, devastador.

A descoberta da escrita, da fundição dos metais e a construção de cidades, sacramentaram a história humana com um modelo consumista que se tornou hegemônico. Meio tímido em seu início, viria – por força das máquinas – a se tornar um paradigma de sucesso econômico de curto prazo, embora desastroso no tempo ecológico.

E o que os ambientalistas têm a ver com isso? A explicação seria a seguinte: economistas e ecologistas não se falam. Motivo: incompatibilidade de interesses! Os primeiros – os economistas, com exceções, é claro - defendem o lucro e o desenvolvimento a qualquer custo, desconhecendo os serviços ambientais como “gerenciadores mais nobres”. Os recursos naturais “são para uso do homem”. A questão é bíblica: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Tenha ele domínio sobre os animais marinhos, sobre as aves, sobre os animais domésticos e sobre os répteis. Domine a terra toda”. Se compreendermos a profunda influência religiosa em nossas vidas - até por motivos subjetivos - é possível explicar porque não temos uma índole “conservacionista”. Ou ainda: quem sabe a determinação “domínio sobre os animais [...]” seria com a intenção de “usá-los racionalmente”?

Os interesses mais comuns estão centrados em “indivíduos e espécies”; e não exatamente nos “ecossistemas”. Quando se começou a falar em “proteger” baleias e micos, o que realmente estaria por trás de tudo, seriam os ecossistemas: marinhos e florestais, nesses casos. Algumas espécies são exaltadas como “bandeiras” porque são rapidamente reconhecidas, quando torna-se necessário estabelecer prioridades. Elas ficam mais visíveis e chamam a atenção, como faziam as "bandeiras" das guerras antigas e medievais. Se já é difícil para o leigo, entender o papel de uma espécie num ecossistema, imagine entender “todo” o ecossistema? Nós não fomos “formados” para pensar em rede.

A separação homem-natureza foi um grande êrro. Nossa percepção do “todo” foi suplantada pela percepção das partes: aquelas que nos ofereciam vantagens imediatas; e esse vício, continua até hoje. Se desejarmos realmente nos tornarmos “ambientalistas” – como o nome sugere, numa visão mais ampla e complexa - deveremos deixar de ser “simplistas”, combatendo a depredação ecológica, verdadeiro “cancro” para um desenvolvimento sustentável ou para a sustentabilidade de longo prazo, como querem os mais recentes pensadores.
Não podemos pensar em desafios humanos tais como educação, segurança, saúde, trabalho, transporte e tantos outros, sem considerar os ecossistemas como agentes mais importantes de qualquer processo antropológico que se deseje incrementar.

O homem “pensa que domina”, mas “ele não controla”, ele é controlado. Se tivéssemos evitado esse equívoco milenar, certamente estaríamos agora investindo bem mais numa educação que nos levasse  a compreender melhor a nossa dependência natural dos ecossistemas e não exatamente como explorá-la de modo devastador. Nossa educação deve seguir no sentido ecológico e de complexificação,  porque a natureza sempre age de forma multicooperativa, enquanto o homem atua de forma egoística e simplificadora.

Precisamos pensar como indivíduos de uma espécie que faz parte de um contexto; e não que pretenda "dominar" esse mesmo  contexto. O ambientalismo deve considerar este aspecto. A conservação consiste em aprendermos nas escolas e na vida, como funcionam os sistemas naturais e não somente como funcionam os sistemas econômicos predatórios.

O núcleo deve ser a família e a cidade deve ser a complementação. O homem é também um primata, essencialmente social.  A base de um primata é a sua família, seu referencial. Sem ela, permanece perdido e desorientado. As famílias formam os grupos; não são os grupos que formam as famílias. Se invertermos os papéis estaremos negando toda uma história antropológica de  muitos milhões de anos. É absurdo desejar apagar em alguns séculos o que construímos e incorporamos em nossos gens durante milhares e milhares de anos. Zelar pelo manutenção dos serviços dos ecossistemas é apenas uma questão de bom senso.