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sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Sustentabilidade: a saída, onde está a saída?

Colaborador Roberto Rocha

Acho que nosso maior desafio é compreender que nós não somos "gente" como todo mundo acredita. Somos apenas um conglomerado provisório de partes dos diversos compartimentos do planeta (atmosfera, hidrosfera, geosfera) organizados conforme cada genoma particular. Temos sim uma outra parte cósmica, pensante. Mas a nossa cultura egoísta deturpou o conceito de que pertencemos ao todo. Pensamos e agimos -  equivocadamente - como se fôssemos criaturas independentes da natureza. Esse erro nos torna, falsamente, poderosos demais; e nos incentiva a interferir nos sistemas sem maiores cuidados. Ocorre que a nossa capacidade de intromissão é outra ilusão. Nós não podemos salvar o planeta. Precisamos salvar a nossa pele, enquanto "ELE" está nos tolerando.  É possível que chegue um ponto em que Gaia não nos tolere mais, e nos elimine com alguma onda de vírus letais ou de "desastres" corretivos. Nada incomum. A química dos compartimentos já mudou diversas vezes na história dos bilhões de anos do planeta. E nós - que chegamos aqui no outro dia - arrogantemente, nos colocamos com "criaturas especiais". Pobre homem! Pobre intenção. Quando é que vai cair a ficha? Os modelos de funcionamento dos serviços dos ecossistemas são nosso norte. Não temos que inventar mais nada. Precisamos apenas observá-los e aprender com eles. Quem está interessado nisso num mundo capitalista? Num contexto materialista e que coloca o homem como centro do mundo? O homem não é centro!  É parte. Frágil, dependente, efêmero. Este pode ser um caminho. 

domingo, 8 de maio de 2011

Envolvimento (fase1), des-envolvimento (fase 2), des-envolvimento sustentável (fase 3) e plena sustentabilidade (fase 4): assim caminha a humanidade...

Colaborador Roberto Rocha

Refletindo sobre a onda de "sustentabilidade" que cobre o mundo,  fui procurar no passado remoto da nossa espécie, quando foi que perdemos a ligação sagrada com a natureza e passamos a venerar o tecnicismo como nosso deus de cada dia. Revendo cenas imaginárias dos  costumes dos hominídeos primitivos, vamos encontrar nosso ancestral olhando para o fogo de uma mata próxima, já sentindo o cheiro da carne queimada dos animais. Passado o perigo incendiário e seguido de outros predadores mais originais, segue ele em busca de "churrascos" misturados com a cinza salgada do chão: uma verdadeira iguaria! Depois de comer muito, ele reflete se vale a pena levar alguns pedaços para o grupo distante, mesmo se arriscando a atrair outros comedores de carne mais possantes. Afinal, a carne tostada leva o cheiro mais distante do que o sangue coagulado. Desconfiado, mas não menos sábio, decide não se arriscar e come mais um pouco de modo que a energia poderá ficar guardada dentro do seu corpo e não atrairá a atenção de ninguém. Com ela poderá andar livremente, sem peso nas costas, e abater outra presa ou procurar alguma outra já recém-morta sem colocar em risco a sua curta vida. Me dou conta então que viajei no tempo e construí um cenário que bem pode ter acontecido; embora, nem todos os fósseis coletados possam descrever, com tamanha precisão, todos esses detalhes. Esse hominídeo vivia "envolvido" com a natureza e dependia dela todo o tempo. O homem era a própria natureza e não imaginava outra coisa, porque essa era a verdadeira realidade. Mas o que fizemos nós, passados alguns milhares de anos? Resolvemos ser independentes e tomar as nossas próprias decisões, carregando nosso cérebro com informações e pensamentos mais ousados. Aprendemos então a usar o fogo, no lugar somente de somente aproveitá-lo em eventos incendiários. Acho que foi aqui lançada a pedra fundamental da manipulação da tecnologia para nossos interesses direcionados. Novas armas e instrumentos nos levaram a conquistar  novos espaços e inventar novos meios de nos satisfazer de modo mais autônomo. Certamente, foi a partir daí, que tivemos a sensação de que nós seríamos os condutores do mundo. A Revolução Industrial nos daria um poder jamais visto em qualquer tempo. Mais satisfações e sonhos seriam atendidos e perseguidos. Aos poucos fomos nos "des-envolvendo" com as nossas raízes, e fomos buscar novas aventuras num mundo mais nosso do que do divino. O des-envolvimeto passou a ser uma prática comum, com cada vez, mais hominídeos se separando da vida natural. Essa euforia inicial nos lançou num círculo de produção selvagem e destruidora, até porque não conhecíamos as consequencias desses descaminhos. Fumaça preta era então sinônimo de riqueza. E realmente era assim!  Passamos a ter acesso a novidades incríveis! Que hominídeo pode resistir a uma novidade? Impossível! Somente alguns séculos depois é que passamos a reconhecer alguns enganos. Passada então a primeira fase (envolvimento) e a segunda (des-envolvimento), resolvemos acrescentar a palavra sustentável, mostrando já alguma sensibilidade e reconhecimento de que algumas coisas não tinham dado certo. Isto é, embora ainda desligados do mundo natural estávamos agora desejando sustentar somente algumas coisas essenciais, mas sem os exageros do passado avassalador. Com a entrada do século XXI, estamos agora nos encorajando para uma quarta fase - a da sustentabilidade autêntica. Isto é, uma compreensão mais apurada de que nós realmente não podemos viver separados da natureza e apenas nos locupletando dela, sem maiores cuidados. Já estamos percebendo - por causa dos prejuízos astronômicos acumulados com os recente desastres - que nós fomos longe demais em nossas "viagens" intelectuais e econômicas. Que precisamos sim, ser mais humildes e dependentes. Afinal, nós somos mesmo ambiente. Não poderemos ser máquinas ambulantes com cérebro pensante. Seria completamente anti-natural. Não acredito que isso possa trazer felicidade para qualquer pessoa. Somos pele, somos cheiros, somos sabores. Ninguém pode sentir nada com um beijo de lata, mesmo com  ilusões programadas. A proposta da sustentabilidade deve considerar essas nuances. Não poderemos passar de um pólo para outro tão rapidamente. Precisaremos de um tempo para sair do des-envolvimento sustentável  para a sustentabilidade ampla. Isso deverá nos pressionar a recuarmos em nossas intenções mais arrojadas: um grande desafio! Passado todo esse tempo e todas as conquistas, o homem permanece curioso e aventureiro. Como resolver isso? A questão é que no passado, tínhamos a natureza ainda tolerante com as nossas elucubrações. Agora, parece que ela não está muito satisfeita. Tem nos mostrado sua revolta por diversas vezes. Até onde podemos desafiá-la? Logo ela que tem um invejável currículo de vitórias e experiências, as mais desafiadoras, em quase cinco bilhões de anos? E nós, com apenas alguns milhares, quem sabe duzentos ou trezentos mil anos? Quem tem mais experiência? Quem sabe possamos recuar e convidá-la  para um novo envolvimento? Como o casal que se separa e volta? Quem sabe, ainda possamos ser felizes? O que fará acontecer esta união e retorno?  Um presente caro? Quem sabe seja deixar de ser tão petulante e ambicioso? Menos artificial e mais natural? Mais solidário e menos agressivo? Menos máquina e mais coração...

domingo, 27 de março de 2011

AFINAL: O QUE É SUSTENTABILIDADE?



Colaborador Roberto Rocha

Sustentabilidade é uma intenção louvável que precisa ser complementada com a indicação de um setor melhor definido. Já ouvi, muitas vezes: o Brasil é um exemplo para o mundo, em relação à sua legislação ambiental! Com certeza! Temos muitas leis que “protegem” a natureza. Mas quando você verifica a aplicação prática dessas mesmas leis, descobre que ainda estamos muito longe de uma realidade ideal. Se desejarmos realmente realizar alguma coisa será preciso que, ao lado dos discursos teóricos, possamos colocar em prática as orientações preconizadas. E como fazer isso?

A sugestão que oferecemos é a seguinte: sempre que desejarmos iniciar uma ação sustentável, que ela identifique - de imediato - qual a orientação legal pertinente, que pode ser oriunda de alguma política nacional já regulamentada. Por exemplo, para a sustentabilidade hídrica devemos começar conhecendo a Política Nacional de Recursos Hídricos e outras normas que possam estar relacionadas a ela; para a sustentabilidade de práticas educativas relacionadas ao ambiente, vamos começar conhecendo a Política Nacional de Educação Ambiental e outras normas relacionadas a ela; para a sustentabilidade climática, devemos começar com a Política Nacional de Mudanças Climáticas; para a sustentabilidade ambiental  devemos consultar a Política  Nacional de Meio Ambiente; para as questões de saúde, começar com a Política Nacional de Atenção à Saúde, o próprio Sistema Único de SaúdeSUS e outros mais. Muitas questões ambientais foram orientadas também pelas contribuições de muitos pesquisadores em conferências internaacionais. Voce lembra da ECO-92?

A partir de orientação nacionais, passamos para o nível estadual, em busca de POLÍTICAS ESTADUAIS e outros documentos da mesma área.de interesse. Fazer o mesmo procedimento. Na terceira etapa, vamos examinar o PLANO DIRETOR, já a nível municipal. Dessa forma teremos todo um embasamento legal das ações de sustentabilidade divididas por grandes áreas ou setores mais específicos conforme os recursos disponíveis, seja de equipamentos, de capacitação ou  de gente. Muitas vezes temos gente, mas as pessoas precisam de capacitação. Ou ainda: temos gente, poder  de capacitação, mas não temos equipamentos. E ainda mais. Temos gente, temos poder de capacitação, temos os equipamentos mas não temos motivação. É um grande desafio na verdade, juntar todas essas possibilidades.

No entanto, entendo que há um caminho viável. Não é nenhuma viagem ao Sol. As orientações já estão previstas na legislação. Depende sim de vontade política, seja do poder público, seja do privado. Se não existir orçamento para cumprir toda a legislação vigente, que se atendam as prioritárias em cada secretaria específica. O importante é que, na grande maioria dos casos, não precisamos de consultores internacionais ou nacionais para nos dizer o que fazer, simplesmente porque é desnecessário. Serão úteis em questões que não tenhamos conhecimentos especializados na área ou não exista nenhuma orientação legal a respeito. Por exemplo, podemos saber quais são as espécies nativas a serem plantadas nas margens dos rios de uma mesma bacia hidrográfica, simplesmente visitando um herbário (onde existem amostras de exemplares coletados em diversas áreas), consultando artigos científicos ou percorrendo áreas próximas com matas ciliares preservadas. O mesmo ocorre nas reservas legais.

Existem no Brasil divesos projetos, manuais e exemplos de sucesso de conservação de áreas degradadas. Prestar atenção porque para a conservação é possível fazer recuperação e/ou restauração. A RECUPERAÇÃO é uso de espécies nativas - não necessariamente daquele ecossistema específico - aliado a artifícios que possam atrair a fauna regional para o local, que contribua com a dispersão de sementes na área). RESTAURAÇÃO é feita com base exclusiva em espécies nativas, adaptadas e especializadas para cada ecossistema). Matas ciliares das áreas de preservação permanentes são constituídas por espécies nativas adaptadas a esses ecossistemas com base em milhares de anos de evolução. Nesse caso a vegetação original não pode ser substituída por espécies exóticas em suas funções específicas. Nem mesmo por nativas que não estão adaptadas às margens de rios, lagos, sob constantes encharcamentos (saturação de água no solo).  

Concluindo: para orientar a administração pública ou privada – sustentáveis - podemos contar com políticas e planos já existentes, e simplesmente, cumpri-los. O PLANO DIRETOR (como o próprio nome indica)  é quem direciona as ações das Prefeituras, com base ainda nas políticas estaduais, nacionais e documentos internacionais. Não temos que inventar demais. Muitas orientações já existem mas são negligenciadas. A propósito: você já deu uma olhada no PLANO DIRETOR do seu município para ver o que ele diz sobre alguma área que lhe interesse especificamente?

quinta-feira, 17 de março de 2011

Sustentabilidade econômica e sustentabilidade ecológica: quem depende de quem?



 Colaborador Roberto Rocha

Acompanhando a bola de neve da recente catástrofe japonesa (março, 2011) fico me perguntando: afinal para que serve tanta tecnologia? Fiz a mesma pergunta na ocasião do evento do Golfo do México quando o mundo todo assistia a série de tentativas frustradas para conter o vômito negro fossilizado das entranhas da Terra: certamente revoltada com tanta ganância e irracionalidade. O que queremos afinal? Provar exatamente o quê? Não me parece questão de necessidade urgente. Soa mais como uma onda galopante – tal qual um tsunami – que não respeita nada que tente parar a sua fúria indomável. Quem segura toneladas e toneladas de energia caminhante? Por coincidência ou não, a mesma energia está agora sendo liberada de forma invisível e sofisticada; fruto da genialidade humana, perigosamente curiosa. Depois que já instalamos algumas centenas de unidades nucleares semelhantes, estamos agora nos perguntando, tal qual pai ausente: onde foi que eu errei? Sempre achei estranho construir usinas nucleares sobre placas moles e irrequietas, tal qual as tectônicas. Mas não sou especialista no assunto. Entendo um pouco mais de bichos que se movem, e que comem diariamente a energia que precisam, como eu mesmo faço, animal dependente que sou. No entanto, nem sempre a ignorância científica significa ausência de bom senso. O que conta mesmo, no final de tudo, é sabedoria. Fiquei abismado quando li um artigo que contava o modo através do qual uma tribo “selvagem” planejava suas interferências na natureza. Os mais velhos se reuniam e perguntavam: isso que vocês estão propondo vai afetar a nossa sétima geração? Se a resposta fosse um “sim”, então nada seria feito, até que alguma outra idéia brilhante fosse apresentada para novo julgamento. E nós, humanos sabidos do século XXI, como decidimos nossas viagens? Você já sabe a resposta: nós decidimos pelo caminho do poder aquisitivo, não exatamente acompanhado do poder cooperativo. Quando insistimos em priorizar a sustentabilidade econômica e “esquecemos” – convenientemente (?) – a sustentabilidade ecológica, nós teremos, com certeza, uma bomba relógio sendo armada contra nós mesmos. E o que é mais grave, contra os ecossistemas do planeta, esses sim, nossos verdadeiros guardiões. Nós estamos equivocados. Não podemos lidar com as duas diferentes sustentabilidades – a econômica e a ecológica – dando prioridade para a econômica. Não é a tecnologia humana que sustenta a Terra! A artificialidade tecnicista  tenta copiar os sistemas naturais porque eles são a origem de tudo. Eles são o paradigma a ser seguido. Mas o que fazemos? Colocamos o carro na frente dos bois! E vamos nós por aí, nos vangloriando desse feito: que absurdo! Concordo que o “encantamento” tecnológico é uma realidade que atrai o homem. No entanto, podemos chegar à beira de um principício, admirar a paisagem, sem que tenhamos que nos atirar nele. Seria uma loucura! Não estamos negando o novo nem o desconhecido; mas essa busca, deve ser cercada de cuidados preciosos. Deixar extinguir milhares de espécies do planeta, por mera ganância especulativa é o mesmo que se atirar de um penhasco íngreme. Tem muita gente falando sobre sustentabilidade como se fosse uma coisa só, esquecendo que ela tem vários rostos. Se a lógica é semente, germinação. folhas, flores e frutos, por que estamos colocando os frutos antes das folhas? As folhas antes da germinação? A germinação antes da semente? O paradigma já existe e está aí para todo mundo ver. Vamos afirmar mais uma vez: nós viemos depois! O paradigma já existia e foi a partir dele que nós surgimos. Não podemos negar isso ou fingir que não sabemos! Não temos que inventar o que já existe. Só precisamos perceber o óbvio... 

sábado, 1 de janeiro de 2011

Nosso futuro incomum: descompromisso com o amanhã?


Colaborador Roberto Rocha

No outro dia, achei num sebo em Niterói (RJ), um livro que eu já tivera, - comprado na Fundação Getúlio Vargas - no Rio de Janeiro: Nosso Futuro Comum – Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (1a  ed. 1988; 2a ed. 1991). O título original em inglês “Our Common Future” (1987) foi mantido, diferentemente do que costumamos ver com alguns filmes, em improvisações horríveis e pouco criativas. Embora a intenção tenha sido louvável, nós não alcançamos os resultados alardeados nos quatro cantos do mundo. O futuro continuou a ser uma incógnita num planeta globalizado e tocado pelo capitalismo desatento. Por questões de soberania, até entendo que não se pode “enfiar garganta abaixo” qualquer proposta, por mais interessante que aparente ser. Estão envolvidos nisso, interesses atuais, tradições seculares e crenças milenares. Resultado: não deu certo!. Pode realmente ter influenciado o pensamento de uns poucos, elitizados. O “povão”, como costumam tratar, continua correndo atrás do “dinheiro da passagem”, da “dívida no cartão”, do sonho de “uma casinha para morar”, de “não levar bronca do patrão” por ter chegado atrasado, se “ vai dar praia no final da semana”, “se o timão vai ser rebaixado” e tantas outras situações semelhantes. E então começam a aparecer diversas “terminologias estranhas” na televisão, nos jornais e revistas, do tipo: “Relatório Stern” (será sobre algum novo desfalque descoberto pelo Polícia Federal?); IPCC (será uma nova facção?); CEO (lugar onde vivem os anjos?); REDD (marca nova de roupa?); Objetivos do Milênio (nova novela das oito?); COP 15 (algum novo festival de bebida?): quem agüenta tanta sigla? A propósito: você - possivelmente uma pessoa “letrada” – sabe o que significa exatamente cada termo desses? Se sabe, parabéns! Se não sabe, prepare-se para os novos termos e siglas que certamente surgirão nos próximos anos. O fracasso da Convenção de Copenhague vai exigir muita imaginação para que cada país desenvolvido tente explicar por que não vai “co-operar”, isto é, por que vai continuar a “operar sozinho”, sem sacrificar as magras (?) economias que tocam ao seu disputado pedaço de bolo global. A preocupação maior é com os prejuízos previstos. A economia brasileira segundo o EMCB (você sabe o que é?) - disponível em: http://www.economiadoclima.org.br/ - corre o risco de perder, caso nada seja feito, a singela quantia de R$ 719 bilhões ou R$ 3,6 trilhões em 2050 (precisão é tudo!). Será que poderemos fazer revisões a cada cinco anos? As regiões mais afetadas serão o Nordeste e a Amazônia, conforme já apontaram alguns cientistas É claro que o calor, a seca e o excesso de água são fatores estressantes muito bem conhecidos e que derrubam qualquer planejamento para a agricultura. A geração de eletricidade também poderá sofrer defasagens. No entanto, acredito que será nessa área onde teremos mudanças positivas e que poderão contribuir para que as perdas não sejam tão intensas. O mais lamentável (?) mesmo, não será a perda das monoculturas e do gado, mas a perda da biodiversidade indígena (nativa) brasileira, ameaçada especialmente por mega-projetos que podem não atender exatamente às regras da natureza. Somos ainda muito ignorantes em conhecimentos básicos até mesmo sobre um só bioma! Imagine todos os biomas brasileiros funcionando e trocando energia e matéria, ao mesmo tempo? É uma verdadeira loucura!. Mas agora pense também que existem mudanças globais que podem afetar tudo isso ! Tenho um certo pavor quando falam de “adaptação” porque aprendi que esse fenômeno é muito lento. É preciso acreditar muito na engenharia genética como solução urgente para tais questões: e como fica o "princípio da precaução"?.  Outro sério problema será como organizar os deslocamentos de populações pressionadas pelas mudanças do clima: os refugiados ambientais. Mesmo que haja a possibilidade de que países “desenvolvidos” liberem tecnologia avançada para os países mais pobres, teremos que ter aqui um arsenal de “cérebros”. Precisamos estar prontos, esperando esses conhecimentos, capazes de compreendê-los e de aproveitá-los rapidamente, para não correr o risco de ficarem mais defasados ainda. Temos no país brilhantes grupos de cientistas que poderão ser mais incentivados a partir de novos recursos governamentais.Veja que não se trata de uma situação rotineira. É questão de crise de grandes proporções. Não poderemos estar errando em nossas previsões! Não haverá muito tempo para isso! Se as inundações do sul, continuarem a crescer – por culpa ou não do El Nino ou qualuqer outro motivo – as questões socioeconômicas poderão se agravar. Esperemos que seja somente um momento crítico que venha se normalizar logo. Como uma das medidas a serem tomadas, temos uma óbvia urgência: a de estancar o desmatamento da Amazônia. Deveríamos – ao mesmo tempo - investir maciçamente no reflorestamento de “áreas degradadas” e capacitação de comunidades, já pensando em alternativas de sobrevivência natural e menos dependente de monoculturas. Por exemplo, saber se é possível comer folhas de amoreira e de outras espécies florestais  – que cresçam rapidamente e cujos troncos “peguem de galho” sem precisar plantar sementes e ter que esperar mais ainda. Algo que uma comunidade ilhada possa obter como alimento (plantas aquáticas comestíveis?), sem depender tanto de estradas ou de aeronaves. Como purificar água, de modo seguro, para dessedentar as famílias isoladas em áreas elevadas? Durante enchentes, os animais da região também procuram as áreas mais altas; e isso pode gerar muitos problemas, especialmente doenças conhecidas como zoonoses, que passam de animais para o homem e vice-versa - a leptospirose que o diga!. Pessoas aglomeradas facilitam a passagem de virus, bactérias, protozoários  – de um indivíduo para outro - através de vetores (especialmente os insetos). A segurança alimentar também pode ficar comprometida: comer ratos não parece ser algo inviável numa situação crítica. O grande desafio que temos é que os sistemas naturais não seguem as regras econômicas humanas e, nesse momento, precisamos das duas. Já estamos nos preocupando com “mitigações” mas devemos também pensar em soluções mais “reais e palpáveis” que possam atender - mais rapidamente - uma enorme população de “pobres” porque eles certamente serão a maioria “em dificuldades”. Assisti ao filme 2012, no outro dia. Uma ingenuidade! Mas afinal, é ficção! E bota ficção nisso! Os “pobres” eram na verdade uma elite. Os que embarcaram eram mais especiais ainda. Os pobres “reais” nem apareceram! Eles são a maioria no mundo. Os animais da “arca” eram os que costumamos ver em jardins zoológicos: como se o mundo pudesse funcionar com essa ínfima amostragem!. Não percebi um destaque especial para salvar bactérias e fungos, indispensáveis decompositores na biosfera. Continuamos a entender o planeta constituído de individualidades e não de sistemas complexos. Quando olho para as estradas do país - e vejo os veículos circulando - lembro dos carreiros de formigas nas florestas, em suas correrias intermináveis. Elas se comunicam umas com as outras. Os veículos também obedecem a uma sinalização previamente conhecida. Mas quanta diferença nessas andanças! As formigas cortam as folhas das plantas doentes ou daquelas que elas já sabem que estão fragilizadas. Procuram então levar esse “alimento” para as suas "criações de fungos" e fazem reciclar o sistema com perfeição. Elas sabem que o que chamamos de árvore é apenas um momento provisório de matéria geneticamente programada. Que estão apenas transferindo o “ambiente” de um local para outro. Não possuem nenhuma preocupação - como nós humanos – com aspectos éticos de como tratar um moribundo ou um doente em apuros. No entanto, será que nós estamos, realmente, preocupados com a natureza? Nosso comportamento nesse caminho de muitos é compatível com uma solidariedade dita mundial? Estamos preocupados com o “outro”? Humano ou não? Essa pode ser uma reflexão necessária nesse momento de frustrações internacionais e de promessas vazias que enchem auditórios de personalidades. Pelo menos, o Brasil deixou um recado claro, mesmo sabendo das dificuldades que teremos para cumpri-lo. Foi o destaque da conferência no meio de tantos descompromissos. Nosso futuro só poderá ser comum num mundo onde a desigualdade não separe as pessoas de suas realizações e sonhos. Onde se respeite o ambiente tanto quanto o próprio homem, já que são uma coisa só. É dessa compreensão incomum que precisamos para o bem de todos, seja na forma de água, de planta, de animal, de gente ou qualquer uma outra...

Buscando um planeta sustentável: a procura ingênua do que sempre existiu, antes mesmo da existência humana.

 Colaborador Roberto Rocha


Palmito juçara (Euterpe edulis)
    Reuniões e mais reuniões enchem as agendas nacionais e internacionais com compromissos para discutir temas que ainda carecem de conhecimentos básicos. Planejamentos em cima de dados biológicos ainda não perfeitamente coletados: não sabemos quantas espécies existem no planeta. E menos ainda: como elas se relacionam? Mas estamos falando de sustentabilidade! Tá certo! Pelo menos, estamos falando no assunto! Como também estamos falando de biodiversidade. Está virando moda!. O perigo é que as "modas" vivem mudando a cada estação. Compreender e praticar a sustentabilidade passa por reconhecer a supremacia e coerência de uma organização  que vem se sustentando há milhões e milhões de anos sem a nossa "boa intenção de ajudar". A discussão é muito antiga, de quando nós - Homo sapiens - estávamos ainda na forma de criaturas estranhas, protoconcebidas para o contexto da época.


Não tínhamos a percepção nem a preocupação com as questões climáticas atuais. Imagine: o homem  querendo controlar o clima!?  Que coisa mais simplória! Não somos capazes de prever - com  precisão, a nível municipal  -, nem mesmo a ocorrência de uma geada!. Bolas de gelo do tamanho de um ovo de galinha podem furar nossos telhados e apedrejar as plantações arbustivas tradicionais e exóticas (estranhas ao país) a nos punir por algum pecado inominável. Quem aguenta!  Como prever o que vai acontecer com o planeta? Dois graus? Três? Quatro? Conhecimentos técnicos e científicos de boa qualidade são necessários para melhorar a nossa compreensão. Formação de bons professores e estruturação de redes idôneas de informações são indispensáveis.

A propósito, a Agencia FAPESP - (Disponível em: http://www.agencia.fapesp.br/. Acesso em: 3 dez.2010) -  está destacando a oportunidade de acesso livre a milhares de obras, artigos, mapas e documentos históricos sobre a biodiversidade brasileira, contando agora com o Portal BHL ScieLO.  O consórcio "Biodiversiry Heritage Library" - (Disponível em: http://www.biodiversitylibrary.org/.) -  reúne os maiores museus de história natural e bibliotecas de botânica no mundo, como a Academy of Natural Sciences e o American Museum of Natural History, nos Estados Unidos, e o Natural History Museum, na Inglaterra.

 Embora as informações estejam disponíveis, uma parte da população ainda permenece sem saber ler e escrever e esse tipo de conteúdo não faz parte de sua realidade imediata, embora assim o seja.  Enfrentamos enormes obstáculos pelo elevado número de analfabetos no mundo. Até 2015  existe o compromisso firmado por 191 Estados-Membro das Nações Unidas (ONU)  para  "resolver" oito grandes desafios do planeta: os objetivos do milênio. Um deles - atingir o ensino básico universal - continua sendo apenas uma esperança. O próprio Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), reconhece:  " houve progressos no aumento do número de crianças frequentando as escolas nos países em desenvolvimento. As matrículas no ensino básico cresceram de 80% em 1991 para 88% em 2005. Mesmo assim, mais de 100 milhões de crianças em idade escolar continuam fora da escola. A maioria são meninas que vivem no sul da Ásia e na África Subsaariana. Na América Latina e no Caribe, segundo o Unicef, crianças fora da escola somam 4,1 milhões" (Disponível em: http://www.pnud.org.br/odm. Acesso em: 3 de dez. 2010). E uma frase aparece em todo lugar, que também nós endossamos: faça a sua parte! Mas fica a pergunta: que qualidade terá a minha parte para decidir assuntos tão complexos?

Como discutir biodiversidade e sustentabilidade quando esses assuntos não são prioridades dentro das salas de aula?  Poucas pessoas sabem o que são "serviços ambientais ou serviços ecossistêmicos"! Se uma boa parte da população não sabe ler ou interpretar um texto simples, como compreender e participar de discussões mais complicadas que exigem um mínimo de conhecimentos gerais ? O que você vê na midia: sustentabilidade?. Biodiversidade? Os temas explorados tratam de realidades próximas do indivíduo; que tenham relação com medo e prazer: assalto, bala perdida, sexo, futebol, roupas bonitas, carros de luxo. E reclamam de Copenhague (Dinamarca, 2009), de Cancún (México, 2010), e tantas outras que virão.

Faça a sua parte! Tudo bem.! Mas precisamos divulgar a nível popular, também as questões mais complexas que ainda não fazem parte das discussões mundanas. 

A imprensa pode ajudar sim, por um lado, ampliando as horas dedicadas aos temas biodiversidade e sustentabilidade.  O governo - necessariamente - poderá oferecer melhores condições de ensino, contando com melhores equipamentos e oferecendo capacitação remunerada para os professores. Esses passos serão importantes - não para resolver exatamente as questões ambientais do mundo - mas para reconhecermos qual o  nosso real papel socioambiental nesse cenário do século XXI; tão complexo, no qual somos estreantes, ainda muito pouco experientes...