sábado, 1 de janeiro de 2011

Entre o solo e o inferno

Colaborador Roberto Rocha

A cada dia aumentam os prejuízos causados por erros humanos e as mudanças climáticas em todo o mundo. A partir de agosto de 2010 preocuparam os incêndios em Portugal e Espanha. Na Rússia, por causa das queimadas, as exportações de trigo sofreram restrições para não prejudicar seus estoques estratégicos e o consumo interno. A fumaça cobre Moscou e as pessoas usam máscaras. E os eventos ainda continuam.

No Brasil, os prejuízos causados com os incêndios já são enormes. No próximo ano a situação pode ser mais séria ainda. A temperatura média do planeta vem aumentando, paulatinamente. Esse fato, nos leva a pensar numa umidade do ar muito baixa e mais matéria seca disponível.

É verdade que sempre tivemos variações de temperatura na história da Terra, mas elas não afetavam tantas pessoas ao mesmo tempo e nem tantas monoculturas ensolaradas e quentes. As florestas protegem a água e ajudam a manter a umidade do ar elevada, mantida através de suas sombras generosas e frias.

Muitas cosas mudaram. A população mundial era bem menor. Não tínhamos cidades-sem-fim com seus imensos blocos de concretos e ferro, encarreirados, fumegantes. E nem tantas avenidas barulhentas durante a semana: verdadeiros cemitérios aos domingos, onde ratos e baratas se arriscam a sair dos esgotos gaseificados e silenciosos, para um merecedor repasto. As noites dos fins de semana deixam muitos resíduos nutritivos e interessantes.

Não víamos tantas áreas devastadas sendo ocupadas por monoculturas intermináveis e “queimadas para limpeza” dos excessos fibrosos que atrapalham o ganho lucrativo do pó branco, o açúcar; ou do líquido energético, transparente e puro, o álcool.

Com a fumaça, os olhos ardem a nos indicar a agressividade do ambiente hostil, mas nem sempre nossas narinas, viciadas nos corriqueiros cheiros tóxicos, conseguem nos alertar, eficientemente.
Nas cidades próximas, crianças e idosos tossem e tossem, tentando arrancar as poeiras agarradas nos cílios desidratados do aparelho respiratório. O que será que estamos construindo como sinônimo de qualidade de vida ?

Se nós - tão civilizados e tecnologicamente corretos - sofremos tudo isso, imaginem as plantas e animais indefesos que convivem nesse mesmo cenário.! Quem os protege? Quem lhes oferece o oxigênio ou o alívio de suas crises asmáticas asfixiantes na dose certa?

Alguns locais do Brasil central, nessa época em que chove menos, se parecem com situações do deserto de Sahara, no norte da África, onde numa umidade entre 10% e 15% só sobrevivem os organismos altamente adaptados a essas situações extremas.

O fogo se espalha e cresce; crispa e avermelha o céu pontilhado de fagulhas e leves plumas pretas flutuantes. Atordoados e indecisos alguns animais procuram se safar como podem. Os que têm pernas compridas, correm. Os que se arrastam e pulam são mais lentos e enfim engolidos pelo inferno quente. A pequena rã vê sua pele tostar e perder a elasticidade vital e se transforma numa iguaria apreciada por outros ou numa bola preta carbonizada. Se não anoitecer logo, a secura do ar vai aumentar ainda mais. Mas o fogo parece se acender do nada, como uma mágica escaldante.

Um piolho de cobra (miriápode ou milipede) - com suas "mil" pernas - mesmo sendo tantas, não consegue progredir grande coisa. Se enrosca e se abriga inutilmente. O solo está quente demais para a sua ingênua pretensão.

Um caramujo terrestre (aruá) foge apressado procurando um abrigo onde o fogo não o alcance. Ou então, será lambido por uma língua vermelha e implacável. Morrerá em seu próprio envoltório, como um caixão natural, devidamente assado.

Poderia estar sendo servido num restaurante fino, como iguaria. Mas certamente não será temperado com alguma erva especial.

As aves de rapina cercam alguns outros seres desesperados, aproveitando-se do momento macabro para capturar uma presa fácil. Sua inteligência prodigiosa consegue enxergar e diferençar uma desgraça de uma dádiva.


Os condenados, asfixiados pela fumaça, batem nos galhos ou tropeçam aqui e ali, tentando se restabelecer, enquanto os talões ponteagudos e cortantes cravam fundo nos pulmões e fazem parar uma vida para fazer viver uma outra, mais bem armada, eficiente e eficaz. O cheiro dos cadáveres das plantas e dos animais se espalha e atrai mais predadores oportunistas.

O fogo passa e deixa um rastro de palitos pretos em seu caminho, rodeados de uma fuligem fina que o vento vai levando, aos poucos. Depois, só as brasas.

Alguns abnegados da brigada de incêndio combatem o fogo, abafados e abafando aqui e ali, sem água por perto, com parcos recursos, na tentativa de conter o gigante devastador que vai conquistando território ajudado pelo vento e a ausência da chuva redentora.

O jeito agora é esperar a estação das chuvas e aguardar o que poderá brotar naturalmente, depois de um longo sono sazonal. Se conseguir resistir ao fogo provocado pelo homem e aos incêndios naturais ajudados pelo ar seco, a biodiversidade terá alguma chance outra vez. Até que a terra se torne totalmente estéril, e nem mesmo o homem possa criar nela um novo inferno. E tudo ficará sem graça, sem cadáveres queimados, sem odores e sem predadores. Sem gado, sem capim, sem gente, sem floresta. Só a areia branca e alguns ossos esturricados, testemunhas da nossa irracionalidade e ganância, desenfreadas.

Crescimento pibiesco alienado - CPA

Colaborador Roberto Rocha

Já tinhamos falado um pouco sobre a invasão poluidora das siglas no artigo "Nosso Futuro Incomum: descompromisso com o amanhã"  do marcador Educação socioambiental e sustentabilidade. Mesmo com a consciência um tanto pesada, não resisti ao título e estou aqui contribuindo para a poluição sigliesca com uma única justificativa compensatória: contribuir para a reflexão coletiva. A questão é que sempre me incomodou muito o fato de se pautar o crescimento de um país, com base - quase que sagrada - no famigerado PIB. Nunca fui contra o crescimento humano, mesmo quando traduzido em conquistas tecnológicas, porque se assim fosse não seria sensato estar aqui usando uma máquina sofisticada em conexões artificiais. No entanto, acredito que o equilíbrio de qualquer sistema depende muito mais de reflexões do que de criatividade e inovações emparedadas. Qualquer criação precisa considerar a realidade do todo na qual ela está inserida. Leituras equivocadas podem estimular, despercebidamente, comportamentos padrões deletérios que não contribuem para a permanência de complexidades saudáveis.


Quando afirmamos que "uma planta cresce" voce pode ter certeza de que tudo que vai acontecer - a germinação da semente, a produção de flores e frutos, o envelhecimento do tronco, sua queda e seu apodrecimento - estará em acordo ecológico com o "todo" pré-existente. Isso porque existe um pano evolutivo que está por trás de tudo o que acontecerá. É como se existisse um pacto cósmico que se compremete a manter tudo e todos perfeitamente integrados, antes, durante e depois do que chamamos "morte". E como será que funcionam as teorias econômicas baseadas no Produto Interno Bruto? Até o nome é bruto, deseducado.  Será que se baseia na contribuição de cada setor perfeitamente integrado no todo?  Ou desconhece a realidade ao lado, da qual ele também é parte? Sempre sonhei com a possibilidade de  que os economista seriam, antes de tudo, grandes especialista em Ecologia. Eles seriam perfeitos, ou quase isso. Os ecologistas são economistas natos, porque a natureza funciona em bases econômicas. Só posso aceitar o tipo de desenvolvimento louco que incentivamos, a partir da premissa de que "nós é que determinamos participar dessa alienação e até nos especializamos nela". O crescimento baseado no PIB só considera as variáveis ecossistêmicas  pré-determinadas mas não as que seriam as mais importantes. Dessa forma, nosso crescimento pibiesco não é equilibrado. Ele é sempre provisório, com foco no lucro de minorias, enquanto o verdadeiro crescimento "ecológico" se baseia no equilíbrio da maioria. Alguns economistas já perceberam o equívoco e estão agora tentando sensibilizar a "elite" do século XXI para novos horizontes. mais criativos e menos autoritários em suas "teorias próprias". A  verdade é que não precisamos inventar muita coisa, mas apenas transferir as regras da natureza para as nossas regras acadêmicas. Antes de sermos primatas sociais, somos animais autênticos, dependentes das regras da Terra. A robótica não deve nos substituir, mas sim nos liberar para meditar profundamente sobre o que desejamos ser num futuro não muito distante.       

Futuro da biota em áreas ilhadas e simplificadas

Colaborador Roberto Rocha

Enquanto o aquecimento global preocupa o mundo com suas ameaças e prejuízos futuros, os animais continuam suas rotinas de sobrevivência em seus respectivos ecossistemas sem saber exatamente o que significa IPCC e sem ter visto o filme “Uma Verdade Inconveniente”, do Al Gore. Algumas espécies mais “resistentes” ainda sobreviverão por algumas décadas. As mais sensíveis sofrerão baixas significativas e estarão, em sua maioria, nas listas da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais) numa de suas categorias: vulneráveis (VU), em perigo (EN) ou criticamente em perigo (CR), até que sejam extintas (EX) e ninguém encontre mais nenhum exemplar durante 50 anos.

Para a preservação de espécies diversas e dos ecossistemas dos quais elas dependem, contamos com as áreas protegidas, tais como as unidades de conservação, áreas de preservação permanentes (APPs), reservas legais e áreas indígenas. No entanto, mesmo essas áreas, estão ameaçadas por interesses econômicos exclusivos que alimentam um modelo econômico estimulado claramente pela obtenção de lucros rápidos. Mesmo algumas áreas vistas como exemplos de conservação, sofrem os impactos da insensibilidade e a falta de bom senso.

A Floresta Atlântica, ao invés de ser reconhecida por sua riqueza e variedade de formas, como era num passado não muito distante, é hoje o bioma mais ameaçado do Brasil e foi classificado como um dos 34 hotspots do mundo ao lado do cerrado (em degradação acelerada). Hotspot é uma área que está sofrendo agressões causadas por atividades humanas desregradas e que necessita de intervenções urgentíssimas para sua preservação. Basta visitar o Parque Nacional da Tijuca e o Parque Estadual da Pedra Branca no Rio de Janeiro, por exemplo, para se perceber que ali já não existem mais nem os grandes predadores terrestres (onça pintada, onça parda) e nem os alados de grande porte (gavião real, gavião pega-macaco). Foram extintos.

Essas unidades de conservação de proteção integral não estão mais íntegras e encontram-se agora totalmente ilhadas, não permitindo uma troca saudável de material genético com outras populações mais próximas. Só as espécies que voam tem alguma chance. Mamíferos, répteis, anfíbios e insetos são literalmente “atropelados” pela ação humana. Ou ainda, pela gastronomia, pelos colecionadores compulsivos, na boca dos cães e nas garras dos gatos que vivem dentro e na periferia dessas áreas. Sem contar os “caçadores urbanos”, de fim de semana, com suas carabinas de pressão a impressionar seus filhos e amigos. Enquanto isso a fragmentação das florestas aumenta a cada dia. Vai ser difícil conter a urbanização. Onde estão os incentivos para estimular os estudos da fauna? O que estão fazendo as secretarias municipais existentes no bioma mata atlântica para minorar tais aberrações? As florestas estão cada vez mais vazias. A continuar assim, será muito fácil classificar as espécies nativas remanescentes. Isto é, uma meia dúzia de três… E com certeza, haverá um grande número de espécies exóticas, tranquilamente instaladas e proliferando por aí. Já está acontecendo...

Nosso futuro incomum: descompromisso com o amanhã?


Colaborador Roberto Rocha

No outro dia, achei num sebo em Niterói (RJ), um livro que eu já tivera, - comprado na Fundação Getúlio Vargas - no Rio de Janeiro: Nosso Futuro Comum – Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (1a  ed. 1988; 2a ed. 1991). O título original em inglês “Our Common Future” (1987) foi mantido, diferentemente do que costumamos ver com alguns filmes, em improvisações horríveis e pouco criativas. Embora a intenção tenha sido louvável, nós não alcançamos os resultados alardeados nos quatro cantos do mundo. O futuro continuou a ser uma incógnita num planeta globalizado e tocado pelo capitalismo desatento. Por questões de soberania, até entendo que não se pode “enfiar garganta abaixo” qualquer proposta, por mais interessante que aparente ser. Estão envolvidos nisso, interesses atuais, tradições seculares e crenças milenares. Resultado: não deu certo!. Pode realmente ter influenciado o pensamento de uns poucos, elitizados. O “povão”, como costumam tratar, continua correndo atrás do “dinheiro da passagem”, da “dívida no cartão”, do sonho de “uma casinha para morar”, de “não levar bronca do patrão” por ter chegado atrasado, se “ vai dar praia no final da semana”, “se o timão vai ser rebaixado” e tantas outras situações semelhantes. E então começam a aparecer diversas “terminologias estranhas” na televisão, nos jornais e revistas, do tipo: “Relatório Stern” (será sobre algum novo desfalque descoberto pelo Polícia Federal?); IPCC (será uma nova facção?); CEO (lugar onde vivem os anjos?); REDD (marca nova de roupa?); Objetivos do Milênio (nova novela das oito?); COP 15 (algum novo festival de bebida?): quem agüenta tanta sigla? A propósito: você - possivelmente uma pessoa “letrada” – sabe o que significa exatamente cada termo desses? Se sabe, parabéns! Se não sabe, prepare-se para os novos termos e siglas que certamente surgirão nos próximos anos. O fracasso da Convenção de Copenhague vai exigir muita imaginação para que cada país desenvolvido tente explicar por que não vai “co-operar”, isto é, por que vai continuar a “operar sozinho”, sem sacrificar as magras (?) economias que tocam ao seu disputado pedaço de bolo global. A preocupação maior é com os prejuízos previstos. A economia brasileira segundo o EMCB (você sabe o que é?) - disponível em: http://www.economiadoclima.org.br/ - corre o risco de perder, caso nada seja feito, a singela quantia de R$ 719 bilhões ou R$ 3,6 trilhões em 2050 (precisão é tudo!). Será que poderemos fazer revisões a cada cinco anos? As regiões mais afetadas serão o Nordeste e a Amazônia, conforme já apontaram alguns cientistas É claro que o calor, a seca e o excesso de água são fatores estressantes muito bem conhecidos e que derrubam qualquer planejamento para a agricultura. A geração de eletricidade também poderá sofrer defasagens. No entanto, acredito que será nessa área onde teremos mudanças positivas e que poderão contribuir para que as perdas não sejam tão intensas. O mais lamentável (?) mesmo, não será a perda das monoculturas e do gado, mas a perda da biodiversidade indígena (nativa) brasileira, ameaçada especialmente por mega-projetos que podem não atender exatamente às regras da natureza. Somos ainda muito ignorantes em conhecimentos básicos até mesmo sobre um só bioma! Imagine todos os biomas brasileiros funcionando e trocando energia e matéria, ao mesmo tempo? É uma verdadeira loucura!. Mas agora pense também que existem mudanças globais que podem afetar tudo isso ! Tenho um certo pavor quando falam de “adaptação” porque aprendi que esse fenômeno é muito lento. É preciso acreditar muito na engenharia genética como solução urgente para tais questões: e como fica o "princípio da precaução"?.  Outro sério problema será como organizar os deslocamentos de populações pressionadas pelas mudanças do clima: os refugiados ambientais. Mesmo que haja a possibilidade de que países “desenvolvidos” liberem tecnologia avançada para os países mais pobres, teremos que ter aqui um arsenal de “cérebros”. Precisamos estar prontos, esperando esses conhecimentos, capazes de compreendê-los e de aproveitá-los rapidamente, para não correr o risco de ficarem mais defasados ainda. Temos no país brilhantes grupos de cientistas que poderão ser mais incentivados a partir de novos recursos governamentais.Veja que não se trata de uma situação rotineira. É questão de crise de grandes proporções. Não poderemos estar errando em nossas previsões! Não haverá muito tempo para isso! Se as inundações do sul, continuarem a crescer – por culpa ou não do El Nino ou qualuqer outro motivo – as questões socioeconômicas poderão se agravar. Esperemos que seja somente um momento crítico que venha se normalizar logo. Como uma das medidas a serem tomadas, temos uma óbvia urgência: a de estancar o desmatamento da Amazônia. Deveríamos – ao mesmo tempo - investir maciçamente no reflorestamento de “áreas degradadas” e capacitação de comunidades, já pensando em alternativas de sobrevivência natural e menos dependente de monoculturas. Por exemplo, saber se é possível comer folhas de amoreira e de outras espécies florestais  – que cresçam rapidamente e cujos troncos “peguem de galho” sem precisar plantar sementes e ter que esperar mais ainda. Algo que uma comunidade ilhada possa obter como alimento (plantas aquáticas comestíveis?), sem depender tanto de estradas ou de aeronaves. Como purificar água, de modo seguro, para dessedentar as famílias isoladas em áreas elevadas? Durante enchentes, os animais da região também procuram as áreas mais altas; e isso pode gerar muitos problemas, especialmente doenças conhecidas como zoonoses, que passam de animais para o homem e vice-versa - a leptospirose que o diga!. Pessoas aglomeradas facilitam a passagem de virus, bactérias, protozoários  – de um indivíduo para outro - através de vetores (especialmente os insetos). A segurança alimentar também pode ficar comprometida: comer ratos não parece ser algo inviável numa situação crítica. O grande desafio que temos é que os sistemas naturais não seguem as regras econômicas humanas e, nesse momento, precisamos das duas. Já estamos nos preocupando com “mitigações” mas devemos também pensar em soluções mais “reais e palpáveis” que possam atender - mais rapidamente - uma enorme população de “pobres” porque eles certamente serão a maioria “em dificuldades”. Assisti ao filme 2012, no outro dia. Uma ingenuidade! Mas afinal, é ficção! E bota ficção nisso! Os “pobres” eram na verdade uma elite. Os que embarcaram eram mais especiais ainda. Os pobres “reais” nem apareceram! Eles são a maioria no mundo. Os animais da “arca” eram os que costumamos ver em jardins zoológicos: como se o mundo pudesse funcionar com essa ínfima amostragem!. Não percebi um destaque especial para salvar bactérias e fungos, indispensáveis decompositores na biosfera. Continuamos a entender o planeta constituído de individualidades e não de sistemas complexos. Quando olho para as estradas do país - e vejo os veículos circulando - lembro dos carreiros de formigas nas florestas, em suas correrias intermináveis. Elas se comunicam umas com as outras. Os veículos também obedecem a uma sinalização previamente conhecida. Mas quanta diferença nessas andanças! As formigas cortam as folhas das plantas doentes ou daquelas que elas já sabem que estão fragilizadas. Procuram então levar esse “alimento” para as suas "criações de fungos" e fazem reciclar o sistema com perfeição. Elas sabem que o que chamamos de árvore é apenas um momento provisório de matéria geneticamente programada. Que estão apenas transferindo o “ambiente” de um local para outro. Não possuem nenhuma preocupação - como nós humanos – com aspectos éticos de como tratar um moribundo ou um doente em apuros. No entanto, será que nós estamos, realmente, preocupados com a natureza? Nosso comportamento nesse caminho de muitos é compatível com uma solidariedade dita mundial? Estamos preocupados com o “outro”? Humano ou não? Essa pode ser uma reflexão necessária nesse momento de frustrações internacionais e de promessas vazias que enchem auditórios de personalidades. Pelo menos, o Brasil deixou um recado claro, mesmo sabendo das dificuldades que teremos para cumpri-lo. Foi o destaque da conferência no meio de tantos descompromissos. Nosso futuro só poderá ser comum num mundo onde a desigualdade não separe as pessoas de suas realizações e sonhos. Onde se respeite o ambiente tanto quanto o próprio homem, já que são uma coisa só. É dessa compreensão incomum que precisamos para o bem de todos, seja na forma de água, de planta, de animal, de gente ou qualquer uma outra...

Mudança do clima: que clima?



Colaborador Roberto Rocha

Mudanças geram expectativas. Será que vai dar certo? Quando pensamos em mudar, significa que algo atingiu um certo limite, bom ou ruim. Os limites nos acompanham há milhares de anos como criaturas humanas. Inteferiram na evolução dos dinossauros quando o Homo sapiens nem existia. A maré sobe e desce, religiosamente. Os caranguejos sabem exatamente até onde ela vai, sem nenhum alerta ou aparelho tecnológico para lhes indicar o que vai acontecer. Caranguejos são excelentes bioindicadores. Lagartas, besouros, mosquitos e escorpiões também. A propósito os mosquitos são muito bons nisso. Eles percebem rapidamente qualquer alteração climática. São excelentes aliados nesse sentido. Plantas também percebem as mudanças. Florações fora de época, filhotes morrendo de fome nos ninhos e suas mães desesperadas em busca da larva que não apareceu no mesmo período. Esses sinais me lembram as Sete Pragas do Egito. Tudo isso nos leva a compreender que o planeta tem regras e obedece a todas elas, embora não haja nenhum código ético escrito pelo homem nesse sentido. Ao contrário, as regras humanas – como o próprio nome indica - foram feitas para humanos e não consideram as questões “ambientais”. Se nos entendêssemos como ambiente, seria mais fácil perceber essas nuances. Mas dizem que nós somos “gente” e pertencemos a uma outra categoria especial, que merece um tratamento diferenciado. Por causa disso, colocamos nossos interesse em primeiro lugar, achando que a nossa tecnologia pode resolver tudo, com certa independência. Mal saímos do século XIX – onde os ratos nasciam de panos velhos e trigo bolorento - e já estamos nos habilitando a resolver a questões do planeta. Somos realmente criaturas especiais. Filósofos antigos não estavam interessados em estabelecer regras. Parece que eles já sabiam que as regras já estavam postas e se preocupavam mais em tentar percebê-las do que criá-las. Refletindo e consultando os oráculos a intenção era para captar algo que a “sociedade” não percebia. E não exatamente para um invento puro e simples, conseqüência óbvia do primeiro fato. Os “pensadores” não receberam este nome, por acaso. Eles desejavam saber sobre as nossas inquietações, aspirações e desejos mais íntimos. Sobre a origem da instabilidade do homem e sua busca por segurança. Quando dizemos que existe um “clima”, entendemos que estão ali elementos indispensáveis para despertar sentimentos, valores, emoções. Que sentimentos estão sendo mobilizados com a mudança do clima do planeta? Descaso? Descrédito? Desunião? Não fique tenso, porque também vamos saber em breve qual o “clima” da Conferência de Copenhague (Dinamarca) em dezembro de 2009. Dos sentimentos ali colocados vão depender alguns milhões de pessoas, plantas, fungos, bactérias e ecossistemas inteiros. Estão em jogo não somente vidas constituídas e dependentes ecologicamente falando. Outros sistemas estarão em jogo: o econômico, o social o cultural. Mudanças na temperatura média do planeta, conforme expectativas dos mais renomados pesquisadores, afetam a segurança alimentar, a migração de desabrigados (refugiados ambientais), novos cenários sanitários. A inativação de vastas áreas planas, seja por inundação ou seca, produzem prejuízos astronômicos. Empresas de seguros correm o risco de não poderem honrar seus compromissos por não terem lastro, caso os seus contratantes estejam “quebrados” pelos desastres ambientais. Qual a saída? Mais tecnologia? A mesma que gerou esta situação atual? Uma “nova” tecnologia? Dependente de pesados investimentos em pesquisa e experimentações adaptativas? Quem banca esses gastos? Estamos “catucando” os sistemas de equilíbrio da Terra, sem nos preocuparmos muito com as reações que virão em contrapartida! Estamos “ferindo o planeta” - e ele está sangrando! As soluções apresentadas parecem sugerir que devemos “ferir menos”, mas sem deter a hemorragia! Vamos torcer que a anemia não tenha sido tão intensa e que uma transfusão de sangue emergencial possa tirar o paciente da UTI. A preocupação é que já estamos quase no final do ano, época de festas, grandes estardalhaços, espetáculos pirotécnicos e bebedeiras, no mundo inteiro. Corremos o risco de não haver sangue suficiente nos estoques das emergências – porque as pessoas se esquecem de doar sangue durante esses eventos festivos. A questão é que se a maioria permanecer nesse clima de orgias e insensibilidades, pode acontecer que eles mesmos venham precisar de um atendimento, quem sabe, tarde demais...

Capacidade de carga: o que é isso?


Colaborador Roberto Rocha

Você já reparou que quando vai viajar, precisa levar alguns pertences "essenciais" na sua mala?. No entanto, nunca você coloca tudo o que imaginou dentro dela, não é mesmo?. Arruma daqui, arruma dali, vai ficando cada vez mais difícil organizar toda a parafernália, num só lugar. Conclusão: é realmente preciso saber o que pode e o que não pode ocupar aquele espaço. Por exemplo, não posso guardar um sorvete sem um recipiente que evite o seu derretimento. Sorvete sem proteção, não pode!.Carne fresca também não pode porque apodrece. Quem sabe, carne salgada? Quer dizer, algumas coisas até podem, desde que sejam respeitadas algumas regras básicas. A questão é como ocupar um lugar tão limitado para satisfazer a todas as nossas necessidades e prazeres. Será que é possível? Se para arrumar uma simples mala a questão já é desafiadora, imagine arrumar um espaço público cheio de diferentes interesses e formas de entender o mundo? Não poderia deixar de comparar a situação da mala com uma situação semelhante: as praias brasileiras..Estamos em pleno verão e nas praias cariocas as pessoas falam sobre o “choque de ordem” – talvez fosse melhor “choque de consciência” ou de “bom senso” – porque é disso que estamos tratando. Não podemos "ocupar" a mala com tudo o que queremos e desejamos. Precisamos de uma seleção e uma ordem de arrumação. Caso contrário: é o caos! Tá certo que o carioca é meio informal, mas não podemos ser anarquistas inconscientes! Não me parece ser liberdade plena, por exemplo, que cada menino solte pipa com linha cortante ameaçando os pescoços de outras criancinhas e de adultos. Posso? Não! Cerol não pode! Mas meu cachorro gosta de praia! Pode? Não, cachorro não pode!. Se ele gosta de água então leva o bicho para nadar na sua piscina, ou na sua banheira, ou na sua caixa d`água!. Na “sua”, e não na do público! Você vai fazê-lo feliz e não vai incomodar ninguém! O que é um choque? É algo repentino que faz você ficar "ligado". Mas o que precisamos - realmente - é de educação comum de como usar os ambientes coletivos, respeitando os interesses múltiplos. Se o carioca ama tanto a praia, por que então deixa sua sujeira nela? Já vi gente dizer: adoro o meu carro! Mas. quando você entra no carro dele, é uma tremenda sujeira! Incoerência? Não: é acomodação! Depois eu limpo! Depois eu lavo! Depois, depois, depois. Depois a galinha pôs um ovo para nós dois! E vamos nós acumulando irresponsabilidades, incoerências, desordens e ilegalidades. Choque pode parecer um tanto forte, mas sabe de uma coisa: é bom que alguém nos dê uma sacudidela para nos fazer perceber – já que não fazemos isso espontaneamente –, que vivemos em sociedade, em grupos, em aglomerações. Mesmo que queiramos botar na nossa mala tudo que nos dê satisfação e atenda aos nossos desejos, ela tem um espaço a ser respeitado. Existem regras para arrumá-la de modo mais útil e coerente. Da próxima vez que estiver num espaço público, lembre-se que ele não é a sua mala particular. Reflita que até mesmo a sua própria mala tem limites, e que você não pode colocar nela tudo o que deseja. E sobre a capacidade de carga do título? Existem diferentes interesses envolvidos com a capacidade de suporte de uma região. Se falarmos em planejamento de turismo, a aplicação estará voltada para identificar qual o número ideal de usuários que uma dada localidade comporta sem depreciar o seu patrimônio. Ela pretende controlar fluxos e interesses, especialmente os que ocorrem em áreas naturais. Não são estáticas, mas devem se adaptar a cada estação ou momento, que venha ameaçar a estabilidade do sistema, seja por motivos sociais, econômicos, políticos ou culturais. E voce? Já aprendeu a arrumar a sua mala?




Corredores ecológicos e seus serviços: abrigo, alimento, polinização, fluxo gênico, proteção de encostas, amenidade do clima e filtro atmosférico



Colaborador Roberto Rocha

Quem não conhece uma floresta? Pelo menos de reportagens na televisão você sabe que é um ecossistema cheio de ervas, arbustos, arvoretas e árvores. Certo? Não! Errado ! A floresta é um conjunto complexo - cheio de interações - a maioria delas ainda desconhecida. Dependendo do tipo de solo, do regime de chuvas, da temperatura e da umidade do ar, uma floresta pode ser mais rica ou mais pobre. A questão é que nos ensinaram que floresta é um conjunto de árvores de diferentes espécies, o que é uma definição muito acanhada e que não descreve corretamente o que ela realmente é, em sua variedade. Não existe floresta sem solo, sem água, sem animais que dispersam suas sementes, de polinizadores e tantos outros atores que vivem ali. A floresta é um enigma incrível! Quando falamos de “corredores” a idéia que surge é de “um caminho estreito que liga um ponto a outro ponto”. Será que serve para correr nele também? Fluir? Acho que fluxo é um bom termo, porque lembra fluxo de energia, fluxo de genes. Quanto mais relacionamentos, melhor. Não pode ser uma passarela de flores somente, como se fosse o resultado de um tratamento paisagístico. Na verdade os corredores ecológicos não são feitos para os humanos. Eles são feitos para os serviços dos ecossistemas. As águas do final de cada verão sempre causam transtornos relevantes. Enchentes, alagamentos, escorregamentos, mortes e prejuízos. Corredores devem tratar desses assuntos também. Não podemos separar impactos ambientais dos sociais. O homem já invadiu diversos ecossistemas naturais e não podemos desconhecer essas interferências. Os corredores também podem contribuir para segurar encostas e amenizar os rolamentos de matacões. As raízes de algumas figueiras ajudam a fixar pedras soltas e produzem uma incrível quantidade de frutos para os animais e para o homem. No magnífico livro Figueiras do Brasil, os autores Jorge Pedro Carauta e B. Ernani Diaz (Editora UFRJ, 2002) ressaltam: “as figueiras têm acompanhado o homem desde as primeiras civilizações na Mesopotâmia e no Egito e depois, mais tarde, nas civilizações grega, romana e judaica”. Existem espécies próprias para áreas urbanas e outras que só devem ser plantadas em parques, áreas degradadas e distantes de residências e estradas. Esses vegetais pertencem a família das Moraceas mas quantas outras famílias botânicas também atenção especial? Saúde deve subentender qualidade de vida para todos. Os corredores devem estar livres de produtos tóxicos para que não envenenem os organismos presentes. Do ponto de vista toxicológico é comum se estabelecer níveis de segurança para homens, mulheres e crianças. Potabilidade e balneabilidade: somente para o homem? E a potabilidade para as bactérias do solo? Para os fungos? Qualidade do ar: só para humanos? E para os liquens? E para as bromélias e orquídeas? Alguns animais são ainda chamados de “pragas” - como se eles tivessem alguma culpa de sua função reprodutiva e alimentar. Por causa de um, pagam milhares. Ao se pulverizar drogas químicas que matam “insetos indesejáveis”, os organismos polinizadores também morrem e deixam de prestar seus serviços ambientais. É realmente um crime ecológico. Já existem armadilhas onde fêmeas de mosquitos depositam seus ovos e dos quais saem suas larvas, ficando ali aprisionadas. É um excelente exemplo de “controle biológico” sem prejudicar o sistema como um todo. Enfim, porque estamos falando de tudo isso se o assunto é corredor florestal? A explicação é a seguinte: a implantação de corredores deve ser orientado do ponto de vista “ecológico” e não exatamente paisagístico. No outro dia, soube da existência de duas espécies de árvores (Lauraceae) conhecidas como maçaranduba - Manilkara elata e Manilkara longifolia - do Rio de Janeiro, e que quase ninguém conhece. Se fala muito da maçaranduba da Amazônia mas nada sobre a do Rio de Janeiro. E o tapinhoã (Mezilaurus navalium)? Você já ouviu falar? Pois é, essas espécies poderiam ser mais valorizadas, como tantas outras completamente desconhecidas de nossas próprias terras e estados próximos. Diversificar é a palavra! De preferência usando espécies cujos frutos sejam dispersados por animais. Eles trabalham sistematicamente fazendo esse serviço ambiental de espalhar sementes. Não cobram nada por seus préstimos. É só dar a eles a chance de freqüentar esses ambientes florestais, próximos uns dos outros. Os corredores florestais devem ser caminhos de vida. Quanto mais complexo o corredor, mais útil e funcional ele será. Mais serviços prestará. Conter encostas, filtrar o ar, alimentar animais, amenizar o clima e tantas outras vantagens. Devemos sim prestigiar os corredores ecológicos, enriquecendo-os com o maior número possível de formas biológicas. Corredores de bactérias, corredores de fungos, corredores de cupins, corredores de formigas, corredores de lagartas e de borboletas, de aranhas, e tantos outros organismos, muito mais do que simplesmente de plantas verdes...